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Os ETs e o consenso científico

Apesar de não ter evidências sólidas, professor de Harvard defende que objeto que atravessou o sistema solar em 2017 foi produzido por alienígenas

01jul2021 - 00h51 | Edição #47

Não são raras as vezes em que cientistas deparam com o desconhecido e têm de compreendê-lo com base no método científico: novas espécies de animais, fenômenos inexplorados da natureza ou até um vírus capaz de alterar a rotina de todo o planeta com uma doença grave como a Covid-19. Na astronomia não é diferente.

Em setembro de 2017, o desconhecido ganhou a forma de um objeto interestelar meio esquisitão, que cruzou nosso sistema solar e atiçou pesquisadores de todo o mundo. O objeto foi detectado por um telescópio no Havaí do projeto Pan-STARRS, especializado em identificar asteroides, principalmente os que podem oferecer perigo à Terra, e foi classificado pela União Astronômica Internacional como “interestelar”, categoria criada especialmente para esse corpo celeste (ao lado de classificações como “cometa” e “asteroide”). Recebeu o nome de ‘Oumuamua, palavra do idioma havaiano que significa algo como “mensageiro”.

No livro Extraterrestre, um renomado astrofísico, Avi Loeb, assume sozinho a defesa de que o ‘Oumuamua foi produzido por uma civilização alienígena — que estaria viva ou extinta, deixando “fósseis” para trás. Seria, portanto, o primeiro sinal de vida inteligente fora da Terra. Essa hipótese — assim como a maneira como ela é tratada no livro — traz alguns problemas.

Além do fato de o ‘Oumuamua  ser um visitante de fora do nosso sistema solar, um conjunto de características faria dele um objeto diferente. Causam estranhamento sua forma, seu brilho maior do que o esperado (lembrando que se trata de reflexo da luz solar, e não de luz própria) e o movimento em sua órbita. O objeto teria uma aceleração incompatível com a que se conhece dos cometas do sistema solar. Como escreve Loeb: é como se ele tivesse se desviado do percurso.

Toda a história é muito sedutora; afinal, fenômenos estranhos no céu costumam ser associados a alienígenas. Também seduz o texto bem escrito de Loeb, que mistura conceitos de ciência a trechos autobiográficos nada humildes, embora a palavra “humildade” apareça inúmeras vezes no livro.

O autor exalta sua trajetória acadêmica: chegou à Harvard em 1993 e assumiu uma cátedra três anos depois — algo incomum. Posições definitivas são raras em universidades de excelência dos Estados Unidos e, quando acontecem, podem levar mais de uma década. Atualmente ele é chefe do Departamento de Astronomia da universidade, considerada a melhor do mundo. Isso, claro, atrai o leitor.

Hipótese solitária

Acontece que a ideia de que o ‘Oumuamua seja o primeiro sinal de vida inteligente fora da Terra é uma hipótese — bem remota. “E, como todas as hipóteses científicas, aguarda para ser confrontada com dados”, escreve o autor no último capítulo. O consenso é que, até o momento, não há evidências sólidas de que o ‘Oumuamua seja artificial, o que deixa Loeb praticamente sozinho nessa empreitada.

Ele reconhece essa solidão. Chega a se comparar a Galileu, que no século 17 defendia que a Terra gira em volta do Sol. É como se o autor se visse lutando contra uma massa de cientistas terrivelmente equivocada. Só que, diferentemente daquela época, em que o discurso vigente era o da Igreja Católica, agora o consenso é da própria academia. Baseado em evidências.

Loeb diz ser um “detetive da ciência”. Citando Sherlock Holmes (“quando se elimina o impossível, tudo que resta, por mais improvável que seja, deve ser verdade”), defende a ideia de que o ‘Oumuamua era artificial.

Tal hipótese começa com um trabalho acadêmico de sua autoria, coassinado por um pesquisador em estágio de pós-doutoramento em Harvard, sobre a aceleração peculiar do ‘Oumuamua (mais rápida do que a de um cometa). A dupla teorizou que a pressão da radiação solar poderia explicar a aceleração do objeto. O artigo, revisado e publicado no tempo recorde de três dias (a média é de várias semanas), saiu no prestigioso periódico The Astrophysical Journal Letters em 2018, cerca de um ano após a passagem do ‘Oumuamua pelo nosso sistema solar.

Nesse mesmo trabalho eles questionam o formato do ‘Oumuamua, descrito anteriormente como algo entre um charuto e uma panqueca, e propõem o formato de vela solar. São velas como as de barcos, só que usam a pressão da radiação da luz para impulsioná-las (nessa época, Loeb já defendia, por meio do seu projeto Starshot, que velas solares seriam a forma mais eficiente de chegar mais longe em explorações não tripuladas). Ao final do manuscrito, linhas breves e ousadas exploram a possível origem artificial do objeto. E trazem um cenário “mais exótico”, levantando a bola de que o ‘Oumuamua “pode ser uma sonda totalmente operacional enviada intencionalmente para a Terra”.

Essas hipóteses (e divagações) não são raras em conclusões de artigos científicos. É como se fosse um espaço de reflexão um pouco mais livre. Foi assim também em outro trabalho recente da astronomia, publicado no Nature Astronomy em agosto de 2020, que identificou fosfina na atmosfera de Vênus. Como a fosfina só existe na Terra por atividade industrial ou produzida por micróbios, os últimos parágrafos do manuscrito sobre a identificação do gás em Vênus lançaram a hipótese de que sua detecção poderia indicar vida microbiana fora da Terra.

Não existem gênios solitários contra a academia. O consenso é construído em processo evolutivo e coletivo

Diferentemente de Loeb, no entanto, os autores complementaram o texto afirmando que a fosfina “não é evidência robusta de vida” naquele planeta. Ainda assim, as líderes do trabalho — duas cientistas — foram atacadas de forma vil pela academia por causa dessa proposta (o que foi interpretado como misoginia). Loeb não experimentou a mesma reação.

No manuscrito sobre a aceleração do ‘Oumuamua, a imprensa rapidamente pinçou a hipótese sobre vida inteligente fora da Terra e a colocou como elemento central das reportagens. O alvoroço foi tão grande que o autor relata que chegou a ser “perseguido” por jornalistas tão logo o artigo saiu. Talvez Extraterrestre tenha surgido da constatação do interesse generalizado por sua hipótese. É a mais popular das oito obras que Loeb publicou (a edição brasileira merece uma revisão técnica: a velocidade do ‘Oumuamua, de 58.900 milhas por hora, foi traduzida equivocadamente por 94.970 quilômetros por segundo. Já as velas solares aparecem como “velas de luz”, o que pode atrapalhar a compreensão).

Em uma entrevista, Loeb disse que seria arrogante pensar que estamos sozinhos no universo. Disso a ciência não discorda. Tanto que há décadas a comunidade científica busca sinais extraterrestres por meio de bioassinaturas como a fosfina. Isso também é feito por ondas de rádio como as que aparecem no filme Contato (1997), inspirado no livro homônimo do astrofísico Carl Sagan — que dizia que, na ciência, “alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias”.

As pesquisas sobre o ‘Oumuamua continuam. Em 2019, um grupo de cientistas assinou no periódico Nature Astronomy um trabalho que compila evidências sobre o objeto e refuta a ideia de tecnologia alienígena.

E, vale dizer, o ‘Oumuamua não é o único desafio da comunidade astronômica internacional. Uma das maiores questões da física atual veio com observações astronômicas publicadas em 1998, que revelaram que a expansão do universo era acelerada por uma energia desconhecida que até então nenhum cientista tinha concebido teoricamente. É a “energia escura”, que até agora nenhum cientista compreende do que trata e é foco de grandes colaborações internacionais.

Preocupa, no entanto, a disseminação de uma hipótese solitária e pouco provável. Loeb sabe que reside, aqui, uma possibilidade de crítica. Tanto que defende que a ciência seja divulgada massivamente durante o seu processo, mesmo que traga conclusões que não sejam unânimes. É algo questionável, principalmente considerando um interlocutor pouco familiarizado com ciência e com a distinção entre hipóteses e consensos.

Em um momento em que a ciência está em uma encruzilhada, sendo desafiada por interpretações errôneas de seu método, é fundamental ficar claro que não existem lados ou gênios solitários contra um sistema acadêmico. Não é isso, afinal, que tentam pregar os cientistas que aparecem, isoladamente, com drogas contra a Covid-19? O consenso acadêmico é construído em um processo evolutivo e coletivo, mas não é sinônimo de infindáveis contradições e disputas.

Quem escreveu esse texto

Sabine Righetti

Jornalista e pesquisadora doutora em política científica, é finalista de um Jabuti com Direito à educação: aspectos constitucionais (Edusp).

Ricardo Ogando

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.