Educação,

O que aprendemos?

Jornalista investiga as razões por trás da nossa má educação ontem e hoje

28fev2019 - 22h00 | Edição #20 Mar.2019

Ninguém duvida que o Brasil precisa melhorar o seu sistema educacional. Mais da metade dos alunos brasileiros (55%) não consegue ler uma frase simples ou fazer uma soma básica antes dos oito anos. As deficiências acumuladas desembocam em evasão: um em cada dois alunos que entram na escola no Brasil não conclui o Ensino Médio. E quem fica na escola vai mal: nossos quase 50 milhões de estudantes da educação básica derrapam em exames nacionais e internacionais que avaliam línguas, matemática e ciências. Por que se aprende tão pouco nas escolas brasileiras?

Durante cerca de dois anos, o jornalista especializado em políticas públicas Daniel Barros buscou uma resposta — ou várias — para essa pergunta. Na jornada, percorreu 24 escolas (boas e ruins) de sete estados brasileiros e conversou com alunos, professores e diretores de escola, com gestores de educação do Brasil e de fora e 120 especialistas. Também levantou dados e estudos acadêmicos na área. O que encontrou pelo caminho está no livro País mal educado, uma rara obra brasileira que joga um holofote na questão, contextualizando o problema e trazendo elementos de história da educação, de evidências científicas e do ponto de vista de quem está na própria escola (“na ponta”, pelo jargão acadêmico da área).

Na trajetória, o jornalista derruba algumas falácias sobre a nossa educação. São ideias que costumam frequentar mesas de bar, conversas em redes sociais e até propostas de políticos e de tomadores de decisão. O principal mito, que o autor dá conta de destrinchar muito bem, é a ideia disseminada de que a educação no Brasil era boa no passado, mas hoje virou uma porcaria. Um capítulo inteiro do livro se dedica a mostrar que isso não é verdade. 

Os fatos

Aos fatos: quando o Ministério da Educação foi criado, em 1930, época de Getúlio Vargas, lembra o jornalista, 80% da população brasileira era analfabeta — e, pasmem, isso não era visto como um problema. A educação era algo exclusivo para as elites, e o ensino em escolas privadas e católicas era amplamente defendido. A premissa era de que, ao adquirirem conhecimento, as camadas mais ricas da população iluminariam as mais pobres, que estavam fora da escola. Foi com Getúlio, aliás, que surgiu o que o jornalista chamou de “um novo mecanismo de exclusão”: os exames de admissão para o ginásio na escola pública. A partir de 1931, crianças de onze ou doze anos precisavam passar por uma prova para seguir estudando — se fossem reprovadas, estariam fora do sistema de ensino. Isso se manteve nas décadas seguintes.

Havia, claro, resistência (sempre há!). Caso do educador Anísio Teixeira, conhecido como o “inventor da escola pública no Brasil”, porque defendia a educação em todos os níveis para todos — inclusive os mais pobres. Teixeira enfrentou as ditaduras getulista e militar, foi chamado de comunista e morreu em 1971 em circunstâncias duvidosas (teria caído no fosso de um elevador). A ideia de que era preciso aumentar o acesso da população à escola vinha também de economistas como Carlos Geraldo Langoni, um dos entrevistados pelo autor da obra. Em sua tese de doutorado nos eua, em plena década de 1970, mostrou que um brasileiro com ensino primário ganhava 32% mais do que um analfabeto — e isso se refletia na produção de riqueza do país. Foi ignorado pelo governo vigente. 

A universalização do acesso ao Ensino Fundamental (dos seis aos catorze anos de idade) no Brasil aconteceu apenas na década de 1990. Mas, afinal, por que se aprende tão pouco nas escolas brasileiras?

Os professores

A qualidade do ensino está ligada, é claro, à qualidade dos professores — tema sobre o qual o autor se debruça em pelo menos três dos seus nove capítulos. Sobre isso, a maioria dos estudiosos de educação sinaliza que a solução está em um tripé: é preciso melhorar a seleção de quem entra nas licenciaturas, aprimorar o que será aprendido nesses cursos e tornar a carreira docente mais atraente. No Brasil, as notas dos ingressantes em licenciaturas estão entre as mais baixas, os cursos são pouco práticos (só 4% do currículo de pedagogia no Brasil é destinado a teorias didáticas) e ninguém quer ser professor — entre os que fazem licenciatura, mostra estudo da Unesco, metade nem sequer pretende seguir a carreira. 

Quando o Ministério da Educação foi criado, em 1930, 80% da população brasileira era analfabeta

Na prática, os estudantes levam a culpa por não estarem aprendendo. Para analisar o impacto de um bom professor na dinâmica dos estudantes, Daniel Barros levou uma professora de literatura de uma das melhores escolas do país, particular, localizada em São Paulo, para dar uma aula sobre Fernando Pessoa em uma turma de Ensino Médio público noturno. À noite estudam os alunos “problema”, repetentes, que trabalham ou têm de cuidar de filhos ou de irmãos menores durante o dia (especialmente as alunas). A turma prestou atenção na aula do começo ao fim. “Até me esqueci do celular”, relatou um dos estudantes — frase que compõe o título de um dos capítulos.

Os gestores

A reta final de País mal educado traz, enfim, um dos temas mais esquecidos pelos debates sobre educação no país: a gestão. O assunto é tão fortemente ignorado por aqui que, para se ter uma ideia, metade dos diretores de escolas públicas chegou ao cargo por indicação política. Uma outra porcentagem desses profissionais alcança o posto por meio de eleições na escola, e apenas uma minoria deles fez algum tipo de processo seletivo específico para a função. Ainda não está claro no Brasil que o gestor é essencial para a escola. E que esse profissional precisa de habilidades próprias para o cargo. 

Ser chefe de uma escola, inclusive, é encarado no Brasil como uma espécie de prêmio para quem merece um descanso. Esse ponto é ilustrado no livro pela frase de uma diretora de escola no Rio de Janeiro. Ela afirmou, em audiência na Assembleia Legislativa daquele estado, que, depois de anos “sofrendo na sala de aula”, agora teria conseguido “sentar na janelinha para descansar”. A gestora tinha obtido o cargo por indicação de um deputado estadual e estava prestes a ser demitida. Na época, o então secretário de Educação Wilson Risolia, que é economista, estava substituindo diretores ausentes ou que não apresentavam desempenho satisfatório por novos profissionais, selecionados especificamente para o cargo. A inspiração veio de Sobral, no Ceará — que, não por coincidência, lidera os indicadores educacionais do país em todo o Ensino Fundamental.

Daniel Barros escreveu País mal educado depois de ganhar três prêmios importantes de jornalismo (incluindo um Esso, hoje Petrobras) com uma reportagem de capa da revista Exame sobre educação, “A diferença começa na escola”, publicada em 2013. A sugestão do livro veio de uma colega do mercado editorial, no jantar de entrega de uma das premiações. “Acabei me apaixonando pelo tema”, ele me contou. 

Talvez por isso, País mal educado traz recorrentemente a estrutura de reportagens de revista semanal. As seções dos capítulos começam com histórias de personagens, que conduzem o leitor ao debate. Aos desavisados, pode causar estranhamento: leva algumas páginas para entender o que a história daquela pessoa narrada tem a ver com a questão da educação no país. Para quem se debruça sobre a obra, no entanto, a técnica serve para segurar a leitura sem deixá-la cronológica ou acadêmica demais, vício de escritos sobre educação. 

É uma técnica semelhante à da também jornalista Amanda Ripley em As crianças mais inteligentes do mundo (Três Estrelas, 2015). No best-seller, a colaboradora norte-americana da revista Time percorreu escolas da Coreia do Sul, Finlândia e Polônia em busca de respostas a uma pergunta oposta àquela de Daniel Barros: por que se aprende tanto em alguns sistemas de ensino? Ripley se tornou livro de cabeceira de entusiastas de educação e de tomadores de decisão na área em vários países do mundo. Seria bom se acontecesse o mesmo com País mal educado no Brasil. 

Quem escreveu esse texto

Sabine Righetti

Jornalista e pesquisadora doutora em política científica, é finalista de um Jabuti com Direito à educação: aspectos constitucionais (Edusp).

Matéria publicada na edição impressa #20 Mar.2019 em fevereiro de 2019.