Divulgação Científica,

Ciência em todos os lugares

Reitor da Unicamp reúne seus escritos em um livro amigável, que resgata desejo por conhecimento e ajuda a enfrentar o negacionismo

08mar2021 - 12h42 | Edição #44

Dentre os vários impactos da pandemia de Covid-19 na vida das pessoas, que de repente se viram obrigadas a ficar em casa, os relatos de reorganização dos armários, das coisas e, em alguns casos, até das ideias, tem sido, talvez, o efeito colateral mais interessante. No caso do físico da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Marcelo Knobel, 52, essa incursão pandêmica caseira fez com que ele visitasse uma coleção autoral de escritos sobre ciência, método científico e negacionismo — temas que, justamente por causa do vírus que nos trancou entre paredes caseiras, gritavam para ser retomados. E foram: o cientista desengavetou os trabalhos, revisou, atualizou e empacotou tudo em A ilusão da Lua (Editora Contexto), lançado em março como seu primeiro livro e, também, como marco simbólico do término da sua gestão na reitoria da Unicamp, posto que assumiu em 2017.

Na obra, Knobel trata de questões do cotidiano para mostrar que a ciência está o tempo todo ao nosso redor. No preparo de uma carne grelhada, por exemplo, cuja casca fica crocante porque perde líquido, mas o interior amolece porque as moléculas de colágeno se deterioram. Ou no café, cujos grãos torrados perdem CO₂ e outras moléculas voláteis com o tempo e, consequentemente, também perdem sabor. Consumir logo depois de torrado, no entanto, não garante a qualidade do cafezinho: temperatura e acidez da água também entram na conta. Pura química e física, no livro, descritos de um jeito que pode agradar do leitor jovem ao cientista aposentado. “A pandemia me despertou uma necessidade grande de desengavetar os trabalhos, compilar esse material e torná-lo disponível”, ele me contou. 

A curiosidade para compreender o mundo ao nosso redor, como o cozimento da carne ou o preparo do café, escreve o cientista, faz parte da natureza humana desde a infância, mas costuma se perder com o tempo diante de respostas frustradas para perguntas bem interessantes. Quem nunca se questionou por que a Lua parece maior quando está na linha do horizonte — efeito de óptica que ficou conhecido como “ilusão da Lua”? 

Resgatar esse desejo pelo conhecimento, pela compreensão do mundo e das coisas, prega o autor, além de essencial para qualquer sociedade que se pretenda moderna, vai nos ajudar a enfrentar o negacionismo científico — esse fenômeno bastante atual, que faz com que muita gente, inclusive governantes, acredite por exemplo que um vermífugo pode prevenir Covid-19, mesmo que a ciência tenha mostrado o contrário (ou que uma colher de limão em jejum cure a doença, dependendo da corrente do Whatsapp da qual se faz parte). 

A negação da ciência, aliás, tem várias e perigosas formas. Uma delas, o movimento antivacina — que ganhou forças há anos, mas que ficou muito mais evidente com o novo coronavírus —, é considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) um dos dez maiores desafios da saúde pública mundial. Knobel retoma essa discussão em A ilusão da Lua. Trocando em miúdos, tomar decisões ignorando a ciência pode literalmente ser um risco para milhões de vidas.

A questão é que, para que as pessoas se interessem por ciência, confiem no que dizem os cientistas e se engajem com assuntos científicos (por exemplo, tomando vacinas), é preciso que elas entendam como a ciência funciona. Isso não significa necessariamente compreender os detalhes das pesquisas que um cientista como Knobel realiza em seu laboratório estudando o magnetismo de materiais nanoestruturados, em escala cerca de dez mil vezes menor que a espessura de um fio de cabelo. Isso é material para muitos artigos científicos de impacto mundial. Até um divulgador de ciência como ele tem dificuldade de explicar esses trabalhos acadêmicos — e inclusive cientistas de áreas do conhecimento além da física derrapam para entender os achados. 

Compreender a ciência é essencialmente entender como ela é feita: as hipóteses, a validação, a publicação dos resultados. Se entendo esse processo, dificilmente vou comemorar “como salvação da humanidade a eficácia do combate a um vírus em cultura de células”, escreve o autor em parte da obra dedicada ao pensamento científico. Tais comemorações equivocadas têm sido feitas durante toda a pandemia, por exemplo, no caso do antimalárico cloroquina como tratamento para Covid-19. Eficaz em células como tantas outras substâncias, a droga não trouxe os mesmos resultados nas centenas de pesquisas clínicas conduzidas em todo o mundo, mas muita gente não entendeu isso. “A velocidade das transformações parece tão natural que achamos o cúmulo que demore mais de um ano para ser desenvolvida uma vacina contra a Covid-19, quando, na realidade, seria um recorde absoluto e uma vitória impressionante da ciência.” 

Ciência e sociedade

O problema é que fica difícil entender o pensamento científico sem tê-lo aprendido. No Brasil, a ciência como disciplina é ensinada na escola apenas com caderno, lousa e giz — muitas vezes por professores que nem sequer têm formação na área. De acordo com o último Censo da Educação Básica, do Ministério da Educação (MEC), só uma em cada dez escolas públicas e privadas do país tem laboratório de ciências (o que não significa que o espaço esteja funcionando). Também por isso, falar sobre ciência com quem não circula pelos corredores acadêmicos por meio de um livro amigável como A ilusão da Lua se torna ainda mais importante. Ao fazer isso, Knobel dá um passo ainda raro no Brasil. Cientistas são avaliados sobretudo pela sua produção acadêmica, ou seja, pelos artigos arbitrados em revistas científicas. Dialogar com a sociedade não integra a rotina da maioria dos pesquisadores do país; eles, tampouco são treinados para tal. Pior: cientistas divulgadores chegam a ser malvistos pelos seus pares.

Não causa estranhamento, então, a última pesquisa nacional de percepção pública da ciência e da tecnologia, publicada em 2019 pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), que mostrou que 90% da população brasileira não sabe dizer o nome de um cientista ou de uma instituição que faça pesquisa como a própria Unicamp. Na prática, é um indicador da nossa frágil cultura científica: ciência e sociedade estão perigosamente distantes. Knobel, aliás, defende a realização periódica de pesquisas de percepção social da ciência, assumidas por governos, agências e pesquisadores, sobre as quais também discorre na obra. O autor nos conta que a primeira delas foi realizada no Brasil no final da década de 1980, no contexto da redemocratização do país. Em países desenvolvidos, essas enquetes são periódicas.

O movimento de popularização da ciência feito pelo autor coincide com sua própria produção acadêmica, que começou bem cedo. Aos 26, Knobel já era professor doutor concursado no Instituto de Física da Unicamp — isso depois de ter passado por estágios de pós-doutorado na Itália (um dos berços da física mundial) e na Espanha. No início da sua carreira na universidade, ele circulava pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) e assinava uma página na internet — programada por ele mesmo em linguagem HTML — chamada Radar da Ciência, na qual tratava de novidades da pesquisa mundial. Mais tarde, coordenou um projeto itinerante de educação e disseminação científica chamado Nanoaventura, no qual estudantes em etapa escolar aprendiam sobre nanotecnologia — área de pesquisa do cientista — por meio de games e de música. 

A trajetória lhe rendeu um Prêmio José Reis de divulgação científica em 2019, o mais importante da categoria no país. Um ano depois, ele deu mais um passo lançando o canal Espaço Recíproco no YouTube, no qual publica conversas com cientistas e divulgadores de ciência como Átila Iamarino e Natalia Pasternak em meio a vídeos com Rita Lobo, Tábata Amaral (PDT-SP) e Elisa Lucinda. Por conta disso, foi classificado como “influenciador do conhecimento” em fevereiro pela GQ, publicação mensal de lifestyle masculino da Editora Globo Condé Nast.

Mantendo a precocidade que lhe é característica, Knobel foi também um dos reitores mais jovens a assumir a Unicamp, antes dos cinquenta anos, cargo que demanda titulação acadêmica máxima na trajetória acadêmica. Chegou ao posto em 2017. Três anos depois, foi o primeiro reitor do país a interromper as atividades presenciais na universidade, em 12 de março de 2020 — um dia depois de a OMS ter declarado a pandemia de Covid-19. No coração do campus principal da Unicamp, em Campinas, há um hospital universitário, para onde pacientes de Covid-19 já estavam sendo levados — o que poderia fazer o vírus circular por toda a universidade. No dia seguinte, USP e Unesp também interromperam suas atividades presenciais, seguidas por universidades federais de todo o país. Depois foi a vez das escolas públicas. O lançamento do livro sobre ciência integra, aliás, um Simpósio de Divulgação Científica da Unicamp, nos dias 8 e 9 de março, com personalidades da divulgação científica como Átila Iamarino e Iberê Tenório. A escolha, simbolicamente, foi marcar o fim da gestão na reitoria com um debate dentro da universidade acerca de diferentes formas de falar sobre ciência com a sociedade.

Diferentemente de relatos comuns de reorganização dos armários, das coisas e das ideias nesta pandemia, as incursões de Knobel aos seus próprios pensamentos registrados em textos para transformá-los em um livro sobre ciência foram, claramente, feitas em um momento intenso de trabalho — e não durante uma pausa obrigatória. É, talvez, a época mais difícil da história para ser um cientista e para acumular a tarefa de comandar uma universidade com um hospital que atende 6 milhões de pessoas na região de Campinas. 

O movimento do pesquisador parece fazer sentido com algo que, talvez, ele tenha aprendido em casa. Autovisita e reflexão sobre os próprios pensamentos arquivados são características dos processos psicoterapêuticos. Knobel é descendente de profissionais de saúde mental: filho do médico psiquiatra Maurício Knobel, falecido em 2008 aos 84 anos, e da psicóloga Clara Freud de Knobel (sobrinha neta de Sigmund Freud). O pai chegou à Unicamp, em 1976, a convite do próprio Zeferino Vaz, médico e criador da Unicamp, para chefiar o Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas, quando Knobel tinha apenas oito anos. A família fugiu da ditadura militar da Argentina, onde o autor nasceu.

A escolha pela graduação em física — fugindo da tradição familiar na saúde — também se deve à popularização da ciência que Knobel tanto defende. Ele conta que se encantou pela área em visita que fez ao Instituto de Física da Unicamp durante o ensino médio. Isso, vale lembrar, foi na mesma época em que o astrofísico norte-americano Carl Sagan lançou o livro e a série Cosmos, que elevou a divulgação científica para um patamar inédito e arrastou gerações inteiras de estudantes para os cursos de ciências em todo o mundo.

A decisão pela física, de acordo com Knobel, causou susto na família. Foi, talvez, uma forma que o então adolescente encontrou de promover uma “separação progressiva dos pais” — um dos fenômenos típicos dessa etapa da vida, que foi amplamente estudada por Maurício Knobel, pai do autor. Foi ele quem cunhou o termo “Síndrome Normal da Adolescência”, também caracterizada pela “busca de si mesmo e da identidade adulta” e por “atitudes sociais reivindicatórias”. Com o passo importante, de fato, o autor se afastou especificamente da área de saúde mental. A ciência e a Unicamp, no entanto, ele sempre manteve bem perto.

Quem escreveu esse texto

Sabine Righetti

Jornalista e pesquisadora doutora em política científica, é finalista de um Jabuti com Direito à educação: aspectos constitucionais (Edusp).

Matéria publicada na edição impressa #44 em março de 2021.