Divulgação Científica,

O cérebro em quadrinhos

Dois neurocientistas conseguem explicar uma grande quantidade de conceitos sem abdicar do dinamismo emocional das HQs

26nov2018 - 14h44 | Edição #15 set.2018

A história em quadrinhos — HQ para os íntimos, comics para os anglófilos — é tão antiga que precede a própria história. Das pinturas rupestres do paleolítico superior à celebre tapeçaria de Bayeux, que retrata a conquista da Inglaterra pelos normandos em 1066, sequências de imagens estáticas foram utilizadas para sugerir ao cérebro narrativas plenas de movimento.

Ao longo do século 20 essa forma de comunicação conquistou espaço cativo nos jornais, explodiu comercialmente no segmento mais jovem da sociedade, formou múltiplas gerações de “leitores de gibi” e por fim tornou-se uma poderosa indústria do entretenimento. Hoje em dia, os principais sucessos de Hollywood são super-heróis de quadrinhos.

Estava, portanto, demorando para que o personagem principal de uma HQ fosse o próprio cérebro. Felizmente, essa lacuna encontra-se agora suprida pelo ótimo Neurocomic, estreia dos neurocientistas Matteo Farinella e Hana Ros nesse formato. O desafio, encarado com galhardia pela dupla, foi transmitir uma grande quantidade de conceitos científicos sobre o sistema nervoso sem abdicar do dinamismo perceptual e emocional que a HQ permite.

A jornada começa quando um caminhante anônimo encontra uma mulher que está lendo um livro. Ele se apaixona por ela e é abduzido para dentro de uma das páginas. Quando ela vê a figura dela, a imagem se projeta para o interior de seu cérebro — e assim o homem passa para o mundo das representações neuronais. Perdido numa floresta fechada, circundado por labirintos em todas as direções, o estupefato andarilho começa a buscar uma saída.

As fabulosas estações pelas quais realiza sua peregrinação recebem os nomes de conceitos fundamentais da neurociência: morfologia, farmacologia, eletrofisiologia, plasticidade e sincronicidade. Em cada uma delas habitam seres mitológicos como o Kraken, lula gigante cujas células de dimensões descomunais permitiram pela primeira vez medir diretamente o impulso nervoso. 

Pioneiro

O desorientado peregrino se encontra também com alguns dos principais pioneiros da neurociência, responsáveis pela descoberta de fenômenos tão diversos como a existência de dendritos, axônios, sinapses, neurotransmissores, receptores, agonistas, antagonistas, moduladores, potenciais de ação, o hipocampo e o homúnculo.

Embora soem herméticos quando assim listados, os conceitos se revelam para o público leigo de forma divertida, através de ilustrações contundentes e cheias de lindos detalhes. 

Para não dizer que tudo são flores em Neurocomic, salta aos olhos que a lista de neurocientistas retratados — Galvani, Golgi, Ramón-y-Cajal, Pavlov, Sherrington, Berger, Hodgkin, Huxley, Katz e Kandel — inclua exclusivamente homens brancos. Não se trata de uma falta inconsciente dos autores, que aludem a essa supremacia na página 4, quando o caminhante pergunta a Ramón-y-Cajal: “Viu uma moça passar por aqui?”. Ao que este responde: “Creio que não vai encontrar muitas moças por aqui, garoto”. 

Na vida real, o grande descobridor do neurônio chegou a escrever um livro, Conselhos a um jovem cientista, para oferecer recomendações profissionais e até mesmo pessoais a pesquisadores iniciantes. Bem ao espírito de seu tempo, Ramón-y-Cajal indicou ao jovem cientista casar-se com a mulher simples do campo, capaz de apoiar incondicionalmente seus afazeres técnicos em gloriosa ignorância científica. 

Por outro lado, desaconselhou o casamento com a mulher burguesa e sofisticada, que sempre trataria o marido como bibelô extravagante em seus bem-educados saraus urbanos. Escrevendo no início do século 20, Cajal desconsiderou, por ser pouco realista, a hipótese do casamento com uma cientista de status equivalente, como ocorreu com o casal Pierre e Marie Curie — caso absolutamente excepcional, em sua opinião.

É na busca do feminino que a trama se conclui. A narrativa se despede então das células e moléculas para explorar o terreno da psicologia e da filosofia

Mas o mundo mudou desde então. Onde cabem Kandel e Berger decerto cabem Rita Levi-Montalcini e Linda Buck, que ganharam o Nobel de medicina por suas descobertas do fator de crescimento neural e do funcionamento do sistema olfativo. Hoje há mais mulheres do que homens em diversas disciplinas — e o patriarcado acadêmico está com os dias contados.

Curiosamente, é na busca do feminino que a trama se conclui. Adentrando o castelo assombrado da consciência, desejoso de encontrar uma explicação biológica para a mente, o caminhante avista a sua musa inspiradora no alto de uma torre. Buscando freneticamente encontrá-la, ele por fim se encara no espelho. A narrativa se despede então das células e moléculas para explorar o terreno da psicologia, da psiquiatria e da filosofia. 

Para além dos delírios, alucinações e do próprio livre-arbítrio, quem é que nos observa quando pensamos sobre nossas próprias ações? O caminhante conclui que “não há fantasmas, não há alma! A ideia de você como ‘alguém’ que habita seu cérebro não passa de ilusão; um reflexo que o cérebro possui de seu próprio corpo e suas ações”. 

No final, liberto do livro, o homem reencontra a mulher misteriosa — e o que acontece… fica para a sua imaginação.  
 

Quem escreveu esse texto

Sidarta Ribeiro

Neurocientista do Instituto do Cérebro da UFRN, escreveu Limiar: uma década entre o cérebro e a mente (Vieira & Lent).

Matéria publicada na edição impressa #15 set.2018 em setembro de 2018.