Divulgação Científica,

As plantas cidadãs do mundo

O cientista italiano Stefano Mancuso quebra mais um paradigma ao se voltar para a mobilidade dos vegetais

01abr2022 - 04h51 | Edição #56


Ilustração de Mariana Zanetti  [Divulgação]

Em trabalhos anteriores voltados ao público não cientista, especialmente em Revolução das plantas, Stefano Mancuso traz informações e exemplos para convencer até o leitor mais reticente de que as plantas, mesmo sem cérebro, são dotadas de uma inteligência completa. Apenas de outra natureza, mas não inferior à dos animais. Já em A incrível viagem das plantas, a mudança de paradigma apresentada ao leitor é a mobilidade dos vegetais, até hoje definidos em alguns livros de biologia como organismos sésseis. Independentemente do tema, não há quem encare as plantas da mesma maneira ao ler Mancuso — e o coquinho que foi parar no capacho do meu apartamento sendo olhado e recolhido com ternura nos dias da leitura teria algo a dizer sobre isso.

Apresentar a realidade concreta e os conhecimentos científicos com o acento emocional que o autor italiano lhes dá não é trivial; é preciso ver poesia onde ela não é óbvia, mas não se trata somente de inspiração. Se há trechos de improviso e espontaneidade que acabam resultando num texto envolvente, fluindo sem muito esforço, em outros nota-se o cuidado com que cada história é construída.


Em A incrível viagem das plantas, Stefano Mancuso explica como as plantas também viajam

Assim, podemos situar A incrível viagem das plantas em algum lugar no meio do caminho entre a divulgação científica e o próprio texto literário. É verdade que suas obras anteriores já tinham essa inclinação, sendo premiadas justamente por isso. Mas aqui ela se aprofunda, com fatos pouco conhecidos da própria história da ciência ou que misturam acontecimentos pessoais, sempre bem distantes do ordinário. A sensibilidade da narrativa de uma delas, relacionada às árvores que permaneceram vivas após o ataque nuclear a Hiroshima, é capaz de emocionar o leitor — ainda mais se a leitura é num momento em que armas nucleares voltam a assombrar os noticiários, como acontece com a invasão da Rússia na Ucrânia.

Mas há também no livro espaço para a leveza e o humor, quando Mancuso nos conta sobre o coco-do-mar, a maior semente do mundo, podendo chegar a até 45 quilos. Quarenta e cinco quilos de “belas nádegas”, como apontava o nome científico original, referindo-se ao seu formato. A Lodoicea callypige passou a ser chamada Lodoicea maldivica, mesmo sem ter relação alguma com as Maldivas (é nativa de outras ilhas, as Seychelles), e o autor suspeita que o motivador do novo batismo tenha sido desassociar as tais nádegas (callypige) do rei francês Luís 15, que dá o nome em latim ao gênero (Loidocea).

Erva daninha não é uma expressão cara a Mancuso, grande fã da capacidade de sobrevivência delas

De fatos relacionados a essa espécie também vem a surpresa ao descobrirmos a capacidade de algumas plantas de cuidar da prole. Por mais forte que seja nossa tendência a antropomorfizar de animais até automóveis, nunca me ocorrera pensar em algo como uma zelosa “mamãe planta”. Pois, além de produzir uma semente pesada o suficiente para cair à sua sombra, a Loidocea desenvolveu um sistema de canais e funis para captar água, lavar os detritos de seu caule e folhas e irrigar a semente filha com nutrientes.

Ocupação, fuga ou invasão?

E como as plantas realizam, afinal, a viagem que dá título ao volume? Essas formas de vida tiveram pelo menos 470 milhões de anos (idade do mais antigo registro fóssil) para desenvolver as maneiras mais engenhosas de empreender seus movimentos, nem sempre facilmente notados por nós, humanos, a “olhos nus”, ou seja, sem o olhar do cientista que observa, verifica, repete.

É esse olhar de Mancuso, enriquecido com sua habilidade narrativa, que nos apresenta as sementes minuciosamente desenhadas pela evolução para serem dispersas pelo vento, boiarem na água e sobreviverem durante milhares de anos no permafrost siberiano ou em centenas de anos em um envelope numa biblioteca, para então germinarem frondosas do outro lado do globo. Somos introduzidos, ainda, aos elaborados mecanismos criados pelas plantas para atrair animais que lhes deem uma carona, ou para conquistar a simpatia humana, pela beleza ou utilidade, na medida suficiente para nos convencer a levá-las em aviões, navios e até ônibus espaciais; isso apenas quando elas não dão conta de embarcar sem nossa ajuda, para ocupar, no mínimo, os quatro cantos da Terra.
 


Ilustração de Mariana Zanetti  [Divulgação]

Se essa é uma disputa semântica que pode ser aplicada a vários contextos, no caso das plantas Mancuso não tem dúvidas: a maior parte das espécies consideradas “invasoras” ganhou injustamente essa fama ao escapar de locais onde o homem acreditava poder mantê-las enclausuradas, seja um jardim botânico, seja uma estufa particular.

Mais que isso, vegetais hoje considerados parte de algum patrimônio cultural são apenas estrangeiros bem-adaptados. Exemplo é o tomate, base do molho mais típico da culinária italiana. O tomate só chegou à Europa no século 16; amarelinho e malvisto, era tido como tóxico e só passou a ser largamente consumido no século 19 após uma variante vermelha dominar a cena. Portanto, “(…) as espécies que hoje consideramos invasoras são as nativas de amanhã”, decreta o autor.

Erva daninha também não é uma expressão cara a Mancuso, que se declara grande fã da capacidade de elas sobreviverem onde não são desejadas. Você não vai à padaria comprar pão de erva daninha, mas possivelmente encontrará um pão de centeio por lá. Eis que o centeio é exemplo da tal persistência: após gerações em que seus ancestrais eram arrancados das culturas às quais se misturavam, ele acabou alçado por nós ao posto de alimento por mimetizar características do trigo e da cevada, mas se mostrar mais bem-adaptado a regiões com inverno rigoroso ou solo pobre.

A vegetação ruderal é outro testemunho da força verde, referindo-se às plantas que enfrentam o desafio de ocupar ambientes modificados pela ação humana. Especialmente o meio urbano, ao se especializar em viver entre frestas no calçamento, escombros, ou onde quer que chegue um naco de luz e umidade.

Hoje, arquitetos que aderem à biofilia criam ambientes e estruturas amigáveis à vida, em busca de uma cidade menos estéril. E enquanto ecólogos aconselham que não se remova a vegetação espontânea que surge na rua e nos imóveis para não perturbar os ecossistemas, alguns ativistas vão mais longe, sugerindo que cortadores de grama sejam guardados na maior parte do ano. “Twice is nice”, algo como “duas vezes está bom”, é o mote da organização Plantlife em seu guia para gestão da paisagem à beira das rodovias. Esse alívio na “limpeza” do mato já poderia reduzir em milhares de toneladas as emissões anuais de carbono.

Botânica criativa

Com e sem a contribuição humana, e mais para nossa sorte do que infortúnio, a planta cidadã do mundo de Mancuso conquista o espaço e o tempo enquanto ele nos conduz por tramas envolventes e cheias de reviravoltas. Histórias nas quais ora cientistas e exploradores são os protagonistas, ora as plantas assumem o leme, como no relato da jornada da árvore mais solitária do mundo. A acácia do deserto do Ténéré é também a mais azarada das árvores — e aqui só posso dizer que você vai concordar comigo depois de ler a história.

Livro prazeroso e bonito, a edição brasileira de A incrível viagem é também aquele objeto que se deseja experimentar na versão física. Embora a botânica seja área de tradicionais ilustradores, os desenhos de Mariana Zanetti não se pretendem científicos stricto sensu, nem faria sentido que assim fizessem. O que eles buscam são as duas perspectivas que ela notou no texto: além da científica, uma que remete à aventura, à ficção e à fantasia. “Com base nisso, pensei em ilustrações com uma atmosfera fantasiosa para a capa e as páginas de rosto, seguidas de outras mais atentas à estrutura morfológica das plantas para a abertura de cada capítulo”, descreve.
 


Ilustração de Mariana Zanetti  [Divulgação]

Ela conta que, ultimamente, vivia certa obsessão por desenhar plantas de observação, mas que também já criou muitas plantas imaginárias. “Mesmo estas, no entanto, vêm de algo visto. Ou seja, as plantas ao meu redor me inspiraram.” Assim, os desenhos que abrem os capítulos são “mescla de uma abordagem bem detida que quer apreender cada detalhe visto, com as personalidades que cada espécie ganhou para mim nas histórias que o Mancuso conta”.

A página vizinha das ilustrações contém informações sobre espécies tratadas no capítulo, com a classificação na taxonomia de Lineu. Por sinal, Lineu é famoso pela botânica, mas as cartas e os diários de viagem do naturalista também são admirados pela qualidade literária. Um lado pouco difundido até 1906, quando a biografia escrita por Oscar Levertin jogou luz no artista criativo, “o brilhante gramático e lexicógrafo que primeiro possibilitou que a linguagem da natureza fosse compreendida de modo que alguém pudesse ler suas palavras como se saíssem de um livro aberto”. Que os homens que amam as plantas, “Uomini che amano le piante” (livro de Mancuso ainda não traduzido), continuem desbravando também a literatura, então.

Quem escreveu esse texto

Luiza Caires

É editora de ciências do Jornal da USP.

Matéria publicada na edição impressa #56 em fevereiro de 2022.