Crítica Literária,

Um destino mineral

Análise que vincula a obra de Drummond aos impactos da mineração é leitura oportuna após tragédia em Brumadinho

28fev2019 - 22h00 | Edição #20 Mar.2019

Maquinação do mundo já foi objeto nesta revista de um belo texto de Clara Rowland (“A emanação aérea do ferro”, n. 18). No entanto, a persistência do impacto causado por sua leitura e a recorrência de um acontecimento que está intrinsecamente ligado à sua matéria — a ruptura da barragem do Feijão, em Brumadinho, em 25 de janeiro de 2019, repetindo o vazamento de lama ocorrido em Mariana em 2015 e confirmando o padrão desastroso da empresa mineradora no Brasil — impelem a retomar o livro. 

Diga-se de saída: Maquinação do mundo: Drummond e a mineração provoca no leitor de crítica e de poesia uma sucessão de espantos. Numa cultura literária de caráter acentuadamente livresco, como a nossa, a geografia tende a ser deixada de lado. Assim, espanta que o elemento disparador desse ensaio tenha sido o deslocamento físico de José Miguel Wisnik, mais precisamente, sua visita a Itabira do Mato Dentro em 2014 e a interrogação da paisagem de origem do poeta.

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O espanto paradoxalmente se concentra e toma forma na figura hoje inexistente do pico do Cauê. Apresentado ao mundo em 1910 num congresso internacional de geologia como uma das maiores jazidas de ferro do planeta (e arrematado nesse mesmo ano por um grupo inglês), o Cauê é, nada mais nada menos, a razão de ser da Companhia Vale do Rio Doce, criada em 1942 pelo governo Vargas justamente para explorar o ferro de Itabira. Solucionava-se assim um longo impasse, que o livro historia de forma clara e sucinta; entretanto, as esperanças depositadas na Vale — inclusive pelo Drummond, como se verá — não se cumprem: após décadas de exploração exaustiva, voltada prioritariamente para o mercado externo, sem compromisso com o desenvolvimento de uma siderurgia apta a conduzir o país a uma modernização altiva, o pico do Cauê, antigo marco da cidade, marco íntimo da geografia de Drummond, converteu-se numa gigantesca cratera com duzentos metros de profundidade que cava na terra a forma de um sino de ponta-cabeça. 

É a força dessa revelação em negativo, dessa “presença alucinante de uma ausência”, que leva Wisnik a rastrear na obra de Drummond, toda ela, verso e prosa, as marcas explícitas e implícitas da mineração, acumulando material para enfrentar, no fim do livro, um de seus poemas mais ambiciosos e desafiadores: “A máquina do mundo” (Claro enigma, 1951), do qual faz derivar o título de sua obra.

Dois versos

Surpreende no percurso a acuidade do autor para captar num verso, ou numa lacuna, os indícios do diálogo (tantas vezes cifrado) de Drummond com a história maior. Um exemplo de audição aguda, pertinente e discreta: no tão citado “Confidência do itabirano”, publicado pela primeira vez num jornal em 1939, ao enumerar as prendas que o poeta trouxe de Itabira, o verso central da penúltima estrofe diz: “esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil”. Esse verso, presente na edição de Sentimento do mundo (1940) e também no volume Poesias (1942), desaparece na coletânea Poesia até agora (1948) e, a partir daí, em sucessivas edições. Nota Wisnik: “Há razões para acreditar que não se trate de mero erro tipográfico, mas de uma decisão autoral do momento. Pois, com a Companhia Vale do Rio Doce implantada havia seis anos, a aposta investida na pedra siderúrgica já se apresentava como ultrapassada pelos acontecimentos: coube à hematita de Itabira seguir diretamente para o mercado internacional em estado bruto, sem ligação com nenhum projeto a não ser o extrativo e acumulador e sem se converter em ‘aço do Brasil’”. 

A Vale converteu o pico do Cauê, antigo marco da cidade, numa gigantesca cratera 

Se um verso de “Confidência do itabirano” desaparece na obra de Drummond, outro verso desponta em Maquinação do mundo e nele retorna de forma insistente como um estribilho. Trata-se do final do poema “Itabira” — da série “Lanterna mágica” em Alguma poesia (1930) —, que se inicia, muito a propósito, com o verso “Cada um de nós tem seu pedaço no pico do Cauê” e se encerra com o enigmático “Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável”.

Transtornado com o que me soava como a força premonitória desse verso final, dessa “derrota incomparável”, comentei o fato com um amigo, que sorriu com ceticismo e disse: “Duvido que Drummond tenha escrito esse verso com intenção profética”. Ele está certo, por um lado. Por outro, no entanto, penso que a verdade opera na poesia de outra forma. Um verso que parece restrito a uma verdade poética local, encerrada no tempo morto de um cotidiano de província, pode — quando seu contexto é submetido à operação de desbaste da história e da crítica (e daí a necessária incursão do livro pela história da mineração em Itabira e, particularmente, a atuação e o modus operandi da companhia Vale) — falar de muito perto ao presente.

“Só, na porta da venda, Tutu Caramujo cisma na derrota incomparável” — esse verso de uma “ruminação insondável”, como observa Wisnik, “sobre a qual paira uma ruína desmesurada e surda, não se sabe a rigor se íntima ou pública, se ressentida por mágoa atávica ou se pressentida nos novos tempos que se anunciam” — esse verso, quando trazido à luz em sua trama de entrelaçamentos e complexidades e quando essas complexidades continuam atuantes no presente — esse verso, publicado pela primeira vez em 1926, lido à sombra do Brasil de 2018 e 2019, ao som dos desmoronamentos, das rupturas, dos assassinatos, dos incêndios, dos desastres, dos derramamentos, adquire a força de uma evidência tão assombrosa que um dos modos de se aproximar de sua verdade é chamá-la “profética”, “premonitória”.

A matéria e o momento

E aqui tocamos outra dimensão desse livro. Há uma consonância profunda entre a matéria de que trata — o embate drummondiano com a máquina da mineração, que o autor situa, literariamente, entre “Itabira”, da década de 1920, e “A montanha pulverizada”, de Boitempo II (1973), que acusa o desmanche completo do pico do Cauê — e o momento atual da história brasileira. De fato: é impossível conceber essa obra escrita e publicada dez anos atrás. Como se só agora, no momento em que se acumulam as evidências de um enorme fracasso nacional (e a esta altura, a ninguém mais deve causar espanto que o sentido primeiro da palavra “fracasso” no Houaiss seja “som estrepitoso provocado pela queda ou destroçamento de algo”); em que ruíram — se não definitivamente, pelo menos temporariamente de modo definitivo — os sonhos de um país justo e, sob uma avalanche de detritos de toda ordem, alarga-se a brecha de destruição que, grosso modo, coincide com o arco de redação desse livro (de 2014, data da visita do autor a Itabira, a 2018, ano de sua publicação), só agora, só nestas condições, fosse possível apreender objetivamente, em toda a sua extensão, a profundidade do embate de Drummond.

À medida que avança, o leitor é tomado por um sentimento pungente de gravidade e de tragédia, mas não de melancolia

O efeito dessa consonância é de uma intensidade difícil de precisar. À medida que avança nessas páginas, o leitor é tomado por um sentimento pungente de gravidade e de tragédia, mas não de melancolia (leia-se, com isso em mente, a análise de “A máquina do mundo” e também os capítulos finais do livro), e, em mais de uma passagem, é sacudido por poderosas badaladas que o lançam, vertiginosamente, no coração da nossa história atual, iluminando-a por dentro no momento mesmo de sua “derrota incomparável”: quando a realidade se torna rejeito.

É precisamente contra esse estado de rejeito que se ergue a obra de Carlos Drummond de Andrade — e também esse livro que, ao analisá-la, a ela faz eco e a expande, numa defesa simultaneamente sóbria, apaixonada, reveladora, da poesia como forma de conhecimento ampliado da realidade. O desafio maior dessa empreitada crítica, quase que a contraprova de sua aposta, se faz no enfrentamento final com o poema “A máquina do mundo”. 

Não é o caso de acompanhar aqui todos os passos da análise, que é complexa e vai longe, mas cabe assinalar dois momentos. O primeiro deles é que Wisnik se distancia de leituras anteriores do poema ao não tomar a “máquina do mundo”, de saída, como uma entidade autônoma, externa, que baixa sobre a paisagem mineira ao modo de uma alegoria, de fora para dentro, mas sim em considerá-la, muito rosianamente (há uma delicada e decisiva passagem sobre a “metafísica mineira em sua relação íntima com a geografia”), como voz imanente das montanhas. Parênteses: que os morros de Minas podem silenciosamente falar se infere não só de Guimarães Rosa (vide o conto “O recado do morro”), mas também de várias passagens de Drummond. Em “Caeté”, por exemplo, que precede “Itabira” na sequência de “Lanterna mágica”, os versos finais dizem “E a longa voz que sobe/ que sobe do morro/ que sobe…”. Ou, ainda, na crônica de 1948 em que o poeta registra sua visão de Minas e de Itabira, do alto, numa viagem de avião (a leitura dessa crônica e de suas aéreas e subterrâneas relações com o poema “A máquina do mundo”, de 1949, é um dos grandes achados do livro), ali se diz “o coro das montanhas”.

Esse deslocamento inicial na percepção do poema (a “máquina” como um elemento não externo à paisagem) acarreta um percurso de leitura singular e — agora saltando sobre passagens cruciais da análise — resulta, ao final, na apreensão de um sujeito que, estranhamente, não se configura tão esvaziado, tão impotente ou tão diminuído quanto outras leituras de peso, igualmente marcantes, nos fazem supor. Na visão de Wisnik, salvo engano, esse sujeito lírico que, após o seu encontro com a “máquina”, segue “vagaroso, de mãos pensas” pela “estrada de Minas, pedregosa”, sob “a treva mais estrita”, se confronta ao “escuro da contemporaneidade” (o termo é de Agamben, citado em nota pelo autor) munido não apenas da potência de dizer não, mas também da potência de engendrar mundos, de sustentar durações, como se depreende da leitura de “Relógio do Rosário”, poema complementar a “A máquina do mundo”. 

Os diálogos

Quanto à interpretação deste último, muitos aspectos merecem comentário. Um deles é o modo como o autor recolhe as contribuições de outros críticos que se debruçaram sobre o mesmo poema, assinalando a especificidade de cada ponto de vista, apontando as convergências (e ganhando impulso com elas), e também expondo claramente as linhas de ruptura, sem, contudo, suprimir do debate nenhuma dessas vozes. É como se, no pano de fundo de sua interpretação, todas as outras vozes, todas as demais leituras permanecessem na arena, traduzindo um desejo de que o debate prossiga, de que a interpretação se faça de forma múltipla, aberta, avançando sempre, extraindo do objeto novas e fundas percepções, sem emparedá-lo jamais. O que adquire o valor de uma afirmação política fundamental.

O sujeito segue munido não apenas da potência de dizer não, mas também de engendrar mundos

Um dos diálogos críticos mais fecundos se dá com O mundo sitiado: a poesia brasileira e a Segunda Guerra Mundial (2016), de Murilo Marcondes de Moura. Quando se considera a poesia de guerra drummondiana, estudada por Murilo, à luz dos eventos da mineração em Itabira — historiados, por dentro e por fora, pelo poeta (como se verifica no ciclo de Boitempo, que é de difícil apreensão, mas curiosamente parece entrar em foco na leitura de Wisnik) —, abre-se uma pista larga e inusitada para a apreensão do fenômeno poético. Como se lê em Maquinação, “se foi o ferro de Itabira que ofereceu a liga metálica para a litigiosa entrada do Brasil na guerra, foi também o poeta de Itabira, picado na memória lírica pela presença do pico do Cauê, que ofereceu, com A rosa do povo (1945), o maior e mais intenso testemunho compartilhado e participante da experiência da Segunda Guerra Mundial”. Essa “coincidência quase invisível, de tão evidente”, não se deve, é claro, a nenhuma ordem causal direta, mas sugere antes “uma afinidade de longo curso, uma estranha comunidade de destino, uma pulsação inconsciente”, dá a entender o autor, colocando assim, lado a lado, profundamente vinculadas, matéria e imaginação.

Estas considerações estão longe de dar conta da multiplicidade e abrangência das questões tratadas por Wisnik em Maquinação do mundo, mas pelo menos registram seu impacto num momento da vida brasileira em que, se não pode passar em branco o que há de profundamente abjeto na nossa realidade, também não cabe deixar de lado o que nela há de belo, empenhado e corajoso.

Quem escreveu esse texto

Alberto Martins

Escritor e artista plástico, prepara o lançamento da novela Violeta pela Editora 34.
 

Matéria publicada na edição impressa #20 Mar.2019 em fevereiro de 2019.