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Cabeça de vento

Um contraponto literário e litorâneo a uma história cultural, científica e social do vento, escrita no Hemisfério Norte em 1984

01jul2020 - 01h00 | Edição #35 jul.2020

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Voltei tempos atrás à biblioteca da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco só para constatar se eles continuavam lá: os três volumes da edição de Cosmos: esboço de uma descrição física do mundo, de Alexander von Humboldt, impressos em francês em 1846-61. Eu havia chegado a eles na década de 1990, via Alejo Carpentier e o canal do Casiquiare, na Venezuela, num itinerário sinuoso que não vale a pena recuperar aqui. Na época, duas passagens dessa obra me chamaram a atenção. A primeira: ao tratar da relação do homem com o mundo natural, Humboldt esboça uma pequena história da paisagem — mas para isso ele não recorre a nenhum historiador, a nenhum filósofo. Ele recorre diretamente a Teócrito, poeta grego do século 3 a.C., cujos poemas deram origem ao gênero pastoral no Ocidente. A segunda: a certa altura, tratando dos fenômenos que ocorrem nos oceanos, ele observa que Camões soubera descrever com muita propriedade “as interações entre o mar e a atmosfera” nos Lusíadas, que ele leu no original. Ali estava um cientista que levava a poesia a sério.

Voltei a pensar no Cosmos quando iniciei a leitura de Heaven’s Breath: a Natural History of the Wind (O sopro do céu: uma história natural do vento), de Lyall Watson (1939-2008), publicado pela primeira vez em 1984, republicado em 2019 pela The New York Review of Books, e inédito no Brasil. Já nas primeiras páginas de Cosmos, Humboldt deixava claro que escrevera movido pela “vontade de compreender as manifestações das coisas físicas em suas conexões gerais, a natureza como um todo vivo movimentado por forças internas”.

Não parece ser outro o impulso de Watson, que estruturou seu livro a partir de cinco grandes conexões: a primeira intitulada “O vento e a Terra”, e as demais dedicadas às relações do vento com o “tempo”, a “vida”, o “corpo” e a “mente”. Em cada uma dessas partes, encontram-se capítulos dedicados à “física do vento”, à “geografia do vento”, à “história do vento”, à sua “biologia”, “fisiologia”, “percepção”, “psicologia”, “sociologia” e até “filosofia do vento”. Para dar uma ideia de onde estamos pisando, basta dizer que, das 21 linhas que compõem o sumário, a palavra “vento” está presente em dezessete delas.

Vento é ar em movimento, e uma das primeiras tarefas do autor será exatamente definir o ar. “Aos olhos de um químico”, diz ele, “o ar é uma mistura de gases. Mas é uma mistura tão curiosa e incompatível, tão inerentemente instável, que chega a parecer descabida. Ou, o que é ainda mais animador, a sua existência parece não ter cabimento.” Logo adiante sugere que está na hora de os cientistas considerarem que o ar, “longe de constituir um arranjo aleatório de gases extraviados, possa ser de fato uma totalidade biológica, algo criado e mantido pela biosfera para o seu próprio benefício”.

Como o leitor pode notar, o autor abraça aqui inequivocamente a teoria de Gaia, do cientista inglês James Lovelock (1919), que concebe a Terra como um complexo sistema de interações à maneira de um imenso organismo vivo. Embora faça referência a ele, Watson não comenta, não explana nem discute detidamente as ideias do colega; no entanto, Heaven’s Breath não existiria sem Gaia e todo o livro pode ser entendido como uma afirmação — desdobrada numa infinidade de casos e de argumentações — dessa teoria, tendo o vento como protagonista.

Há algo de simpático nisso. Watson é genuinamente devotado a seu objeto de estudo, e faz o possível para que o leitor partilhe de seus sentimentos. Por um lado, mobiliza conhecimentos de uma larga e surpreendente gama de domínios; por outro, tem habilidade para criar imagens que fixam na mente aspectos que, se tratados apenas com a linguagem descritiva e analítica da ciência, seriam difíceis de reter. Por exemplo: ao descrever o funcionamento das distintas camadas de ar que compõem a atmosfera, ele se detém por um momento na estratosfera, onde a temperatura, conforme a concentração de ozônio, pode exceder os 30 graus Celsius. “A relativamente alta densidade dessa camada quente lhe confere extraordinários poderes de condutividade”, escreve. E, para fixar essa observação, arremata o trecho com uma imagem factual: “Os estrondos das grandes baterias de canhões disparados no funeral da rainha Vitória em 1901 foram ouvidos nitidamente em regiões da Alemanha, mas pularam os quinhentos quilômetros de França e Bélgica que havia no meio”. Quer dizer: os sons viajaram pela estratosfera (camada que se estende aproximadamente dos quinze aos cinquenta quilômetros acima das nossas cabeças) e não pela troposfera, na qual vivemos.

Tropos, recorda Watson, em grego significa “direção”, mas também “volta, giro, torção”. O termo dá nome ao nosso hábitat, pois é de fato na troposfera que os ventos giram e torcem, e por isso mesmo — como ensina a sabedoria popular — estamos sujeitos a chuvas e trovoadas. Na tropo concentram-se 75% da massa de ar que compõe a atmosfera e virtualmente todo o vapor de água existente no planeta. Nela os ventos não só giram e torcem, mas também secam e molham, conforme reúnem ou dispersam a umidade, arrastam as nuvens, criam correntes de calor e de frio, zonas de alta e baixa pressão, num circuito expresso dos polos para os trópicos, onde ascendem novamente para retornar aos polos e recomeçar seu movimento. Nessa circulação incessante, o vento transporta consigo não só uma infinidade de partículas com distintas qualidades físicas e químicas, mas também toda uma fauna e uma flora que acabam moldando a vida e os humores em nosso planeta. A sua ação impele as correntes marítimas, dá forma às regiões costeiras, influi na pesca, na agricultura e num sem-número de atividades humanas e define, no fim das contas, se teremos um lindo dia de verão ou um aguaceiro torrencial, com nuvens carregadas de eletricidade e gelo.

A ação do vento dá forma às regiões costeiras, influi  na pesca, na agricultura e num sem-número de atividades humanas

Para Watson, o clima de uma região é em si algo abstrato e aquilo a que realmente reagimos é o tempo, no sentido metereológico do termo. Por isso, argumenta, o melhor sistema de classificação climática não é aquele tradicionalmente reconhecido pelos geógrafos, calcado na distância com relação à linha do equador — e que postula a existência de quatro grandes zonas climáticas (tropical, subtropical, temperada e polar) —, mas sim um que se baseie na “circulação atmosférica. No vento, que é, em último caso, o responsável tanto pela temperatura como pela umidade”.

Ciente de que está escrevendo para leigos, ele parte via de regra de um esquema amplo, que abarca em linhas gerais o tópico que pretende abordar, e vai pouco a pouco introduzindo complexidades no esquema. Por exemplo, ao tratar do regime circulatório dos ventos, ele apresenta o desenho das grandes correntes aéreas, seu funcionamento até certo ponto simétrico nos dois hemisférios e explica o efeito Coriolis; em seguida, passa a levar em conta as especificidades da superfície terrestre em diferentes regiões e vai particularizando instâncias e acontecimentos até deter-se em ventos específicos.

Várias páginas são dedicadas ao fenômeno das monções na Ásia, mas também a ocorrências similares na Austrália, no leste do Mediterrâneo e até mesmo na Europa. Na seção dedicada às nuvens, Watson parte da tipologia do pioneiro Luke Howard (1772-1864), que aplicou o sistema de Lineu à classificação dos fenômenos atmosféricos e, com suas definições de cumulus, stratus e cirrus, deu origem a uma taxonomia que hoje compreende dez gêneros e 26 espécies de nuvens. Watson descreve cada uma delas de forma sucinta e precisa.

Das nuvens aos tornados (do latim, tornare, “girar”) é apenas um passo. Aí, ao mesmo tempo que explica o modus operandi de tormentas, furacões e trombas-d’água, ele encadeia uma série de historietas que beiram o inimaginável (colchões que giram no ar sem que uma criança desperte do sono; casas que são sugadas para o alto e o dono, distraído, abre a porta da frente e despenca no vazio tal como num desenho animado; um homem que, arrastado pela tempestade, agarra o rabo de um cavalo em pleno ar, e por aí vai).

Exageros à parte, o que interessa ao autor é dar o máximo de concretude ao movimento invisível das correntes atmosféricas, que coloca em contato realidades distantes. “Eu sou o vento que lança a areia do Saara/ sobre os automóveis de Roma”, canta Caetano em “Reconvexo” — e na página 61 eu me deparo com o que imagino ser a sua contraparte científica: “Na primavera do Hemisfério Norte, quando uma série de áreas de baixa pressão avança em direção ao leste do Mediterrâneo, as pessoas no litoral sentem o bafo quente do Saara. O ar se precipita do interior, aquecendo-se ainda mais à medida que perde altura, e atinge as planícies desertas quase verticalmente, lançando no ar milhões de toneladas de poeira. Este é o sirocco do Marrocos, o chili da Tunísia e o ghibli da Líbia. No Egito é chamado de khamsin […]”.

Essa e outras passagens — relativas não só à incidência geográfica dos ventos, mas também à sua física, química e biologia (o capítulo dedicado às formas de vida que o vento transporta ao redor do planeta reserva inúmeras surpresas) — garantem o interesse e, mesmo, o fascínio da leitura.

Os problemas do livro, entretanto, surgem em outros lugares. Ao tratar da influência do vento em acontecimentos históricos e ciclos civilizacionais, o autor opta por permanecer no plano dos grandes painéis, repletos de generalizações e formulações ora de difícil comprovação, ora francamente questionáveis. Se o declínio das civilizações da Mesopotâmia há cerca de 10 mil anos foi provocado (como é sugerido nas entrelinhas) por uma mudança no regime dos ventos é algo que não tenho condições de avaliar, mas quando o autor declara que as razões para um maior desenvolvimento econômico do Brasil em relação a Angola devem ser buscadas nos ventos e nas correntes marítimas no Atlântico Sul, parece-me que ele resolveu passar por cima das complexidades das interações humanas e pisar decididamente em terreno pantanoso.

Há um outro ponto ainda.

Embora o autor tenha nascido na África do Sul, Heaven’s Breath é, no conjunto, um livro escrito no e para o Hemisfério Norte. Como os ventos dizem respeito a todo o globo terrestre, e penso que a cultura deve levar em conta o lugar em que é produzida, faço aqui um contraponto.

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Passei os últimos dias de dezembro e o início de janeiro em Barra do Ibiraquera, município de Imbituba, Santa Catarina. O lugar fora escolhido meses antes a partir de referências muito vagas, um tanto aleatórias, e acabou se revelando mais do que adequado. Ali soprava um vento forte, encrespado, que aliviava o calor e casava perfeitamente com a leitura que eu fazia então de Heaven’s Breath.
Já na primeira manhã, numa conversa de praia, soube que se tratava do nordeste, o “vento predominante” nessa região do litoral catarinense — “por isso mesmo”, explicou o morador com quem eu conversava, “de Florianópolis para baixo, todas as dunas são alongadas para o sul, empurradas pelo vento”. Gostei da expressão “vento predominante”, que meus ouvidos imediatamente transformaram em “vento impregnante”, “vento sem tréguas” — pois era isso o que eu experimentava enquanto conversavámos à beira-mar.

Interessa ao autor dar o máximo de concretude ao movimento invisível das correntes atmosféricas,  que coloca em contato realidades distantes

“No inverno, o vento muda de direção e passa a soprar do sul” — ou do sudeste, não entendi bem. “Nessa época”, seguiu com empolgação, “se o vento canaliza entre as ilhas de Santana de Dentro e Santana de Fora, ali se formam esquerdas simétricas perfeitas” — e continuou acelerado, enquanto eu vagamente intuía que ele estava se referindo a algum tipo de onda predileta dos surfistas. 

Era isso mesmo. Na sequência, ele disse que a praia do Canto da Vila (que ficava a seis ou sete quilômetros de onde estávamos) já tinha recebido duas etapas do World Championship Tour, o circuito mundial de surfe. Concluiu com orgulho indisfarçável, dizendo que guardava como um trunfo de sua juventude ter visto o Kelly Slater saindo de um tubo rente à praia, bem na sua frente.

Não foi preciso muitos dias para me dar conta de que boa parte da economia de Ibiraquera gira em torno do vento. A poucos metros dessa primeira conversa, o mar vivia coalhado não de banhistas, mas de kite-surfistas, que varavam as ondas em todas as direções, fazendo piruetas dois ou três metros acima da explosão das cristas. Numa fotografia que tirei à distância, o que parece ser, à primeira vista, gaivotas sobrevoando a areia são, na verdade, kite-surfistas testando o equipamento antes de se lançarem às ondas.

Na lagoa de Ibiraquera, a “lagoa salgada”, como a chamávamos, o trecho próximo à praia fica lotado de veranistas; ali, em certas horas do dia, é difícil encontrar dois metros quadrados de água livres só para si. Mas no seu interior amplo, agreste e despovoado, batido por um vento bom e áspero que se intensifica no período da tarde, os windsurfistas cortam a superfície da lagoa a uma velocidade, para mim, absolutamente inesperada.

Alerta para a importância econômica do vento na região (que não se limita à prática do surfe, kitesurf, windsurfe, bodysurf, skatesurf, mas inclui o aluguel de voos com planadores, voos panorâmicos, saltos de paraquedas etc.), a prefeitura de Imbituba baniu esportes aquáticos movidos a diesel ou gasolina. Assim, ali não há lanchas nem jet skis, mas pipas, velas, silenciosos motores elétricos e os ruídos do vento.

Além do som — e das dunas de areia clara que ficam no caminho entre a lagoa de Ibiraquera e a praia da Ribanceira —, o vento produz outras marcas na paisagem, perceptíveis até para um iniciante como eu. Na trilha que liga a praia do Luz ao Porto Novo, por exemplo. Logo no início da caminhada, vê-se claramente que, na vertente do morro não exposta diretamente às rajadas do nordeste, a vegetação cresce de modo uniforme, mas ainda há pequenas diferenças de altura de um arbusto para outro, com galhos que sobressaem, tufos de folhas que se lançam para o alto. Mas uma vez que se começa a descer a outra encosta, aproximando-se da prainha do Porto Novo, ali uma idêntica cobertura vegetal se mostra rigorosamente aparada à mesma altura — literalmente “modelada” pelas correntes de ar —, a tal ponto que é quase possível enxergar os túneis por onde corre o vento nessa parte da montanha. Isso é ainda mais evidente na cavidade de um barranco, uma espécie de ravina na qual o nordeste bate de chapa e não tem como escapar a não ser espanando para os lados na forma de um leque, feito um bando de carneiros assustados.

Na praia do Porto Novo, junto a grandes barracões de madeira que durante a pesca da tainha chegam a abrigar dezenas de homens, encontrei João, da família Siqueira. Ele tinha passado por ali apenas para conferir o estado dos barracões já que, com o afluxo de turistas nessa época do ano, a rapaziada que frequenta a praia do Rosa costuma esticar até o Porto Novo para passar a noite bebendo e zoando naquela baía escondida. Ele tinha medo de que um bêbado botasse fogo. Mas estava tudo em ordem nos barracões.


João Siqueira, de tradicional família de pescadores, no barracão da prainha do Porto Novo [Foto do autor]

Perguntei a ele sobre o vento. Respondeu que nessa época do ano não saía para pescar. “Só em maio, junho, quando o vento começa a virar” — e explicou que “o vento sul é que traz as tainhas, elas vêm subindo a costa desde a lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, e mais de baixo ainda, desde o Uruguai”. Por isso toda essa parte do litoral catarinense é pontuada por pequenas construções de madeira, bastante precárias, que abrigam um homem só: são os espias, que ficam no alto do morro vigiando o mar e a chegada dos cardumes. Nesse período, disse João, os surfistas não pegam ondas para não atrapalhar o trabalho dos espias. (Gostei de saber que pescadores e surfistas fazem, todo ano, uma partilha do mar.)

No final do segundo dia, caminhando na praia entre o mar e a lagoa salgada, vi que o vento soprava areia na direção das dunas. Era uma areia branca, muito fina, que contrastava com a areia escura e passava por mim a toda a velocidade, formando rajadas, esteiras, serpentinas. Os grãos eram tão leves que, mesmo soprados na altura do tornozelo, não doíam, passavam por mim e seguiam em frente ziguezagueando e conferindo à praia, naquele fim de tarde, um aspecto de rio encachoeirado, repleto de correntezas. Correntezas de areia. Como não tinha um celular comigo, prometi que voltaria para fotografá-las outro dia. Seria como pegar o vento em flagrante.

Não foi preciso muitos dias para me dar conta de que boa parte da economia de Ibiraquera gira em torno do vento

Mas no dia seguinte, depois do almoço, descobrimos perto de casa uma lagoa de água doce, e esse passou a ser nosso destino definitivo todas as tardes. Na única vez em que consegui voltar à praia no entardecer, chovia. A areia molhada formava outros desenhos, mas era pesada demais para ser carregada pelo vento. A frustração me levou a tentar outra experiência. Resolvi fotografar da varanda da casa as dunas que eu avistava a uns oitocentos metros de distância. Imaginei que repetindo essa operação todos os dias, sempre no mesmo horário, ao cabo de uma semana eu teria obtido algum tipo de “documentação sobre o vento”.

A distância, porém, era considerável, a câmera do celular não tinha lá grandes recursos e eu não sou fotógrafo. No terceiro ou quarto dia, ao estudar as imagens, não consegui identificar nenhuma alteração significativa no perfil das dunas. No entanto, uma outra coisa aconteceu. O fato de voltar os olhos todos os dias para o mesmo ponto, esperando captar alguma coisa que a princípio não era inteiramente visível, parece ter tido algum efeito sobre a percepção, pois o que aconteceu não aconteceu, num primeiro momento, dentro do campo de visão da máquina, mas fora dele, deslocado à sua direita. Desapontado porque as fotos que tirei não revelavam nenhum sinal de ação do vento, baixei o celular e deixei os olhos correrem soltos pela linha de horizonte, entre as dunas e o céu. Só então, fora da janela para a qual eu havia até esse momento apontado a câmera e dirigido o meu olhar, percebi que havia uma outra coisa acontecendo, embora eu não pudesse ver exatamente o quê.

Quando ergui outra vez o celular e, com o zoom no máximo, mirei o ponto que me deixara curioso, vi que o vento batia a duna — e aqui vai uma imagem literária — como se esta fosse uma toalha de mesa sacudida ao sol, lançando no ar todas as suas migalhas. A diferença com a literatura é que ali não havia toalha alguma, tecido algum. Tudo era só areia — pura areia no vento. Pura poeira, infinitesimal demais para ser capturada.

Resignei-me com o fato de que eu jamais conseguiria fotografar o vento; e voltei para a praia, para a sua areia molhada e pesada. Ainda tive alguma sorte, pois num momento de estiagem consegui fotografar a passarela pela qual havíamos passado livremente três dias antes e que agora se encontrava parcialmente coberta de areia.


A areia soprada pelo vento pode cobrir as passarelas de um dia para o outro [Foto do autor]

Antes de voltar para casa, me abriguei numa cabana de espia que fica no topo de um pequeno morro bem defronte da ilha do Batuta, para onde todas as tardes bandos de pássaros retornam a fim de passar a noite. Eu já tinha visto essa revoada de relance no primeiro dia e achei que eram dezenas de aves, mas hoje tenho certeza de que são milhares. Elas surgiam no céu com certa regularidade, mas a intervalos imprevisíveis, e quando eu percebia elas já voavam sobre a minha cabeça cruzando o ar isoladamente ou aos pares ou em grupos numerosos, com formações ora simétricas, ora perfeitamente desordenadas. Poucas tentavam alcançar a ilha em linha reta. No meio do caminho, a maioria fletia à esquerda, posicionava-se de lado, dava uma, duas ou várias voltas no alto, bem acima da água, e só então baixava quase até o nível do mar e arremetia em direção à ilha, ascendendo como se estivesse deslizando para cima numa pista de ar. Para os outros pássaros, aqueles que no meio do percurso tentavam seguir em linha reta ou investir pela direita, a rota parecia não ser tão fácil e eu os via baterem as asas por vários minutos sem sair do lugar. Voltei a pensar em Heaven’s Breath: quando o vento é obrigado a contornar um obstáculo de certo porte, como uma ilha, formam-se poderosas correntes aéreas nos seus flancos. Isso explicava, por um lado, o grande afluxo de kite-surfistas precisamente naquela região do mar e, por outro, a dura travessia daquelas aves. O fato de saber voar não significa que se sabe o que fazer diante de uma ventania, e a vida no ar não é necessariamente mais fácil do que na terra.

Vendo os pássaros cruzarem em direção à ilha do Batuta, ora aproveitando com graça as rajadas de vento, ora lutando contra elas, me reconciliei em parte com Watson. A verdade é que muita coisa passaria despercebida no meu radar se não estivesse lendo o seu livro e, voltando para o carro debaixo da chuva, pensei que há mesmo muitas maneiras de modular o vento. Lembrei das xilogravuras de Oswaldo Goeldi, nas quais o vento, as nuvens e a chuva têm tanto peso, acossando os transeuntes nas vielas do Rio de Janeiro ou sendo estudados por um grupo de pescadores apreensivos antes de sair para o mar. Nas telas de Ernesto de Fiori, sobretudo nas marinhas e naquelas que retratam regatas em Guarapiranga, o vento é quase sempre excessivo, algo feroz. Nas pinturas e águas-fortes de Evandro Carlos Jardim bate um vento de outra natureza, que sopra as folhas na calçada, levanta as cortinas e abre o interior das casas aos acontecimentos do lado de fora. Brincando um pouco com Aristóteles e os gêneros literários, eu quase diria que o vento em Goeldi é dramático, em De Fiori tende para o épico e na obra de Jardim é lírico e se assemelha à brisa, que tudo permeia e torna possível viver.

3

Lyall Watson nasceu em Joanesburgo, na África do Sul, em 1939, e ingressou com quinze anos na Universidade de Witwatersrand, onde se diplomou em botânica e zoologia. Depois de um doutorado sobre comportamento animal na Universidade de Londres (mais tarde ele obteria diplomas também em geologia, química, biologia marinha, ecologia e antropologia), embarcou numa carreira multifacetada que incluiu, entre outras coisas (mas não necessariamente em ordem cronológica), produzir documentários de natureza para a bbc, desenhar zoológicos (foi diretor do zoológico de sua cidade natal), chefiar expedições científicas em Bornéu e no Amazonas, escrever mais de vinte livros (alguns dos quais se tornaram best-sellers nas décadas de 1970 e 80), apresentar torneios de sumô na televisão inglesa e, como comissário das Ilhas Seychelles, desempenhar um papel fundamental na criação de um santuário de baleias no oceano Índico, reconhecido internacionalmente.

Tamanha diversidade de interesses tem rédeas soltas em Heaven’s Breath. Como observa a bela introdução de Nick Hunt (ele próprio um escritor-viajante freelancer), este não é um livro para quem deseja ter acesso a fatos numa sequência linear: “Aqui as narrativas constantemente se entrelaçam e se sobrepõem, e Watson tem prazer em demorar-se nos meandros”. Não só: Watson tem prazer também em ligar pontos aparentemente desconexos, e por isso é praticamente impossível listar o número assombroso de temas, perspectivas, hipóteses e palpites que pululam em suas páginas.

Num momento ele se debruça sobre o comportamento da Physalia physalis, uma água-viva ligeiramente azulada, quase transparente, conhecida entre nós como “caravela”. Ela é basicamente um invólucro cheio de ar, rodeado de tentáculos, e possui no alto uma crista ou membrana, a qual tem o poder de enrijecer e, desse modo, tirar proveito das brisas marinhas. Essa “caravela” — e aqui o nome faz muito sentido — não vive à mercê do vento, mas, segundo Watson, é capaz de ajustar a sua “vela” e assim dirigir seu próprio curso. Remontando a pelo menos 500 milhões de anos, a Physalia physalis tornou-se conhecida em inglês, desde o século 15, como “Portuguese Man-of-War”, isto é, “caravela-portuguesa”, pois era (e continua sendo) encontrada em todos os mares, tal como eram então essas embarcações.

Da Physalia, Watson salta para os navegadores polinésios, pelos quais nutre uma verdadeira reverência devido a sua capacidade de se orientar na vastidão do Pacífico tendo por guia indícios naturais como o Sol, os astros, o voo das aves marinhas, os reflexos das nuvens, mas, sobretudo, os movimentos ondulatórios do mar causados pelo vento.

Heaven’s Breath é repleto de passagens como essas, nas quais se misturam informações de física, química ou biologia, pitadas de história e insights de natureza variada. Há páginas surpreendentes sobre a história das pipas na China e no Japão, sobre o desenvolvimento dos moinhos de vento no Ocidente, sobre cometas, vírus, aeroplâncton e possíveis berçários de micro-organismos nos espaços interestelares. Mas a certa altura tamanho ecletismo começa a cansar. Não só várias de suas páginas passam a lembrar catálogos de curiosidades como o autor não hesita em usar como exemplos, lado a lado, trechos de cientistas reconhecidos e almanaques agrícolas do Meio-Oeste americano do século 19.

Watson, que se autodefinia como um “cientista nômade”, não parece se importar com isso e talvez tenha feito de tais procedimentos uma estratégia. Seu segundo livro, Super-Nature: a Natural History of the Supernatural (Supernatureza: uma história natural do sobrenatural), de 1973, vendeu mais de 750 mil exemplares e tornou-se um best-seller imediato, seguido dois anos depois por The Romeo Error (O erro de Romeu), que investiga a hipotética existência da vida após a morte. Ao longo de sua trajetória, o autor deixou claro seu interesse em explorar os fenômenos tradicionalmente relegados à margem da ciência e de abordar, no seu trabalho de divulgação científica, “the soft edge of science”, a face menos rigorosa da ciência.

Porém, mesmo quando recorre às artes e às humanidades (entendidas, em termos metodológicos, não como hard mas como soft sciences) para dar sustentação a suas teses, também aí falta um corte mais nítido e preciso. No capítulo “A percepção do vento”, os apanhados que o autor faz da percepção do vento na literatura e nas artes visuais são rasos para qualquer pessoa enfronhada nessas matérias. No capítulo “A filosofia do vento”, mitos dos quatro cantos do mundo são reportados em quatro ou cinco linhas e, embora cada um deles tenha interesse, vão se tornando repetitivos e monótonos, e um certo sabor de salada new age acaba vindo à tona.

No final do volume há um curioso “dicionário de ventos”, que reúne cerca de quatrocentos nomes colhidos na meteorologia e na literatura clássica e moderna, seguidos por uma breve definição. Há comparativamente poucos ventos sul-americanos e apenas dois deles sopram no Brasil: o Abroholos (sic), definido como “uma lestada, frequente entre maio e agosto na costa sul do país”, e o conhecido minuano. Portugal comparece com mais alguns, e pelo menos duas denominações divertidas: o vento de baixo, que vem do mar, e o vento coado, “brisa brincalhona que sopra entre as frestas das casas nas colinas”.

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No último parágrafo das “Considerações introdutórias” do Cosmos, ao tratar das relações entre a linguagem e o pensamento no trabalho do cientista, Humboldt escreve: “Quando a linguagem empresta encanto e clareza à apresentação, e seu conjunto de imagens e sua construção orgânica favorecem o trabalho de delimitar com precisão a totalidade da observação da natureza, ao mesmo tempo ela bafeja, de modo quase imperceptível, seu alento vivificante sobre a própria miríade de pensamentos”. Se entendo bem a passagem, ela diz que, além de conferir “encanto e clareza”, cabe também à linguagem “o trabalho de delimitar com precisão” o objeto de sua observação; ao fazer isso ela reverte um “alento vivificante” sobre a própria atividade do pensar.

Era uma areia branca, muito fina, que contrastava com a areia escura e passava por mim a toda a velocidade, formando rajadas, esteiras, serpentinas

Na mesma linha de raciocínio, Alexander von Humboldt conclui o parágrafo afirmando com pesos idênticos “a fantasia que cria” e “a razão que interroga”. Páginas adiante esse mesmo par retorna, saudado como “a razão que procura por uma relação causal” e “a imaginação ativa, necessária e promotora de toda descoberta e criação”. O que acontece é que, em Heaven’s Breath, a fantasia acaba soprando com mais força do que a razão. Para que a poesia leve a ciência a sério, esta precisa ser mais afiada do que isso.

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Não sei se este será o final mais apropriado para uma resenha, mas não quero terminar de outra maneira. No penúltimo dia em Ibiraquera, andamos pela trilha do costão da Ribanceira. A certa altura, minha filha e eu entramos na água gelada de uma minúscula baía. Logo depois apareceram um avô e seu neto. Começamos a falar das baleias que nos meses de setembro e outubro costumam visitar a região. O garoto, que se chamava Iago, entre um mergulho e outro mostrava alegremente a sua grande pança redonda e gritava que seu apelido era Baleote — “acho que dá pra saber por quê” — e ria entusiasmado, antes de mergulhar outra vez. O avô tinha um nome esquisito, Cleuri. Passara a vida inteira em Canoas, no Rio Grande do Sul, e ao se aposentar tentou morar em Florianópolis, mas não se adaptou. Agora vivia ali na Ribanceira, a uma quadra do mar. Contou que muitas vezes ele e a mulher acordavam no meio da noite com os guinchos das baleias nadando perto da praia. Não acendiam a luz. Sentados na cama, ele ficava quieto, ela chorava. 

Nota do editor 
Os trechos de Cosmos foram traduzidos por Claudia Abeling.

Este texto foi realizado com o apoio do Instituto Serrapilheira
 

Quem escreveu esse texto

Alberto Martins

Escritor e artista plástico, prepara o lançamento da novela Violeta pela Editora 34.
 

Matéria publicada na edição impressa #35 jul.2020 em maio de 2020.