Arte,

O artista, a cidade e as florestas

Entre a correspondência de Lasar Segall e a história de Vilna, a capital lituana, livros mostram a história cultural e os deslocamentos dos judeus durante o entreguerras

01fev2022 - 04h51 | Edição #54

A certa altura do primeiro volume de Em busca do tempo perdido, Marcel, o narrador, diz que é capaz de se apaixonar por uma cidade mesmo antes de conhecê-la, apenas pelo seu nome, pois algumas sílabas bastam para ativar a imaginação e fazê-lo sonhar. Talvez seja o caso de Vilna (hoje, oficialmente, Vilnius), a capital da Lituânia, que, ao longo de seus setecentos anos de história, foi também Wilno, Wilna, Vilnè. O fascínio exercido pela multiplicidade de nomes e grafias, aliado à indeterminação geopolítica — no limiar entre a Europa e a Ásia, rodeada de charcos e florestas, a antiga capital do Grão-Ducado da Lituânia já foi reivindicada por tantas nações que jamais desenvolveu o sentido de uma “identidade única” —, confere à cidade um elemento de sonho. Dois livros publicados recentemente vieram dar lastro e espessura a esse nome, sem contudo diminuir o seu potencial para o devaneio.

Correspondência

Todo artista transporta um mundo consigo. Frequentemente, mais de um. No caso de Lasar Segall (1889-1957), é sabido que, ao viajar pela segunda vez ao Brasil, em 1923, ele trazia consigo o mundo explosivo da arte moderna que havia irrompido na Alemanha, poucos anos antes, em grupos como O Cavaleiro Azul, A Ponte, a Secessão de Berlim e outros movimentos. O Museu Lasar Segall, no bairro de Vila Mariana, em São Paulo, guarda em seu acervo exemplos da correspondência do pintor com artistas como Wassily Kandinsky, Paul Klee, Ernst Ludwig Kirchner, Lyonel Feininger, Erich Heckel, Kurt Schwitters, Georg Grosz, Karl Schmidt-Rottluff e outras figuras de vanguarda que ajudaram a definir o que foi a prática da arte na primeira metade do século 20.

Em 2019, o fundo documental do Acervo Lasar Segall trouxe à luz outro mundo habitado por Segall, do qual já se tinha conhecimento, porém não nessa medida. Com organização de Vera d’Horta, pesquisadora e intérprete da obra segalliana, e tradução do professor e historiador Nachman Falbel, Querido e fiel Lasar é um amplo volume (publicado por ocasião dos 130 anos de nascimento do pintor) que, como sintetiza Celso Lafer em texto de abertura, “torna de conhecimento público, pela primeira vez, a correspondência que o pintor recebeu, em iídiche, predominantemente de seus familiares, mas não apenas deles, em um arco de tempo que se estende de 1912 até 1955”. Mas não só. “O livro também abrange recortes de jornais em iídiche sobre Segall, fotografias relacionadas a pessoas mencionadas na correspondência e obras do artista que têm conexão com fontes de inspiração procedentes da atmosfera intelectual do mundo judaico de onde proveio: o de Vilna, onde nasceu e cresceu até ir estudar na Alemanha em 1906.”


Lasar Segall em 1911
 

São 62 cartas, meia centena de fotos e ainda outros documentos, publicados de forma intercalada: cartas e cartões-postais manuscritos em iídiche ao lado da tradução para o português (acompanhadas de notas explicativas), alternando com páginas de desenhos, gravuras e pinturas, além de fotos do artista e seus familiares em distintos momentos da vida. 

Se as obras de Segall aqui estampadas já haviam sido reproduzidas em livros anteriores, há um prazer renovado em ver os desenhos de Vilna realizados pelo artista entre 1909 e 1911 — quando, já morando na Alemanha, ia passar férias na cidade —, reproduzidos no contexto de sua formação familiar e ao lado das imagens do fotógrafo polonês Jan Brunon Bulhak (1876-1950), que se estabeleceu em Vilna em 1912. Lá está, por exemplo, em foto e desenho, a figura do Carregador de água, sustentando os recipientes numa vara atravessada sobre os ombros, duplicando assim o delicado equilíbrio de um arco de alvenaria que, acima dele, conecta os dois lados da rua. Lá estão também os desenhos a grafite do Velho talmudista concentrado na leitura e do Rabino de perfil com alunos. Lá estão a carroça e o cavalo na transversal da rua de casinhas de madeira que se afunila cada vez mais. Lá estão — marca inconfundível no primeiro Segall expressionista — os ângulos oblíquos e o equilíbrio precário das vielas e do casario de Vilna, com seus planos empilhados uns sobre os outros, traçados com urgência pelo grafite, numa linha que é sempre risco, corte.

A imagem que abre o volume, entretanto, não é de autoria de Lasar, mas sim do seu pai, Abel Guirchovitch Segall (1850-1927). Trata-se de um surpreendentemente belo e bem elaborado pergaminho gravado a mão por volta de 1885 em micrografia (literalmente, “escrita minúscula”), compondo com versos dos Salmos desenhos próprios da iconografia judaica. Abel era um sofer, um escriba de textos sagrados. Uma nota à página 55 esclarece que “no fundo do terreno [de sua casa], havia uma oficina, onde era preparado o pergaminho para o Torá e os mezuzót” — o rolo de pergaminho fixado no umbral das portas. No auge de seus negócios, Abel chegou a empregar de cinquenta a sessenta ajudantes para dar conta das encomendas, que exportava para a África, a Austrália, a América do Sul e os Estados Unidos.

Lasar Segall, como observa Vera d’Horta, foi definitivamente marcado pela imagem do pai, “concentrado em seu trabalho, empunhando a pena de pato que servia como caneta e tendo à sua frente o pote de tinta preparada por ele mesmo, ‘negra como o piche’, conforme relatou o artista”. Diante da qualidade inventiva e do zelo artesanal presentes nesse pergaminho, não é difícil compreender que o menino Segall ficasse fascinado pelo desenho das letras e que o ofício do pai tenha influído de maneira decisiva em seu desejo de tornar-se pintor.

É de Abel também a primeira carta do livro. Enviada em agosto de 1912, de Vilna para Hamburgo, onde Lasar então se encontrava, é uma mensagem terna, na qual tenta insuflar confiança no filho, que, estudando pintura na Alemanha desde os quinze anos, andava tomado por inquietudes. Que diferença para a carta seguinte, redigida em julho de 1914, duas semanas após o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, que desencadeia a Primeira Guerra Mundial (1914-18). O tom da segunda carta, que principia na mesma frequência amável da primeira, logo vai se tornando tenso e angustiado. 

Aí se fala de travessias e contatos (as dificuldades para os russos cruzarem as fronteiras do Império já haviam começado), da necessidade de Luba, irmã de Segall, obter um visto de saída, de viagens iminentes mas que não se realizam, de outras que só se realizam após muitos percalços e adiamentos, e — tema que será dominante no conjunto da correspondência — da falta de dinheiro, da necessidade premente de ajuda econômica, de remessas pendentes. 

O acontecimento inaugural do século 20, a guerra de 1914, se abateu sobre a esfera familiar, produzindo, além da ansiedade que contamina a pena de Abel, uma tumultuada rosa dos ventos. A partir daí, as cartas vão cruzar o Atlântico em múltiplas direções, dando e pedindo notícias do pai, do filho, dos avós, das irmãs e dos irmãos, sobrinhos, cunhados etc., formando (tomo aqui emprestada a formulação precisa de Vera d’Horta) uma “intrincada rede” que conecta Vilna, Dresden, Nova York, Rio de Janeiro, Boston, São Paulo, Gênova… 


Cidade velha de Vilna, por volta de 1939
 

São muitas vezes cartas em trânsito, algumas escritas a bordo de um navio e depositadas em algum porto do caminho. Nelas, microacontecimentos da história familiar se entrelaçam ao andamento da guerra, aos altos e baixos da economia, às duras condições de vida dos mais pobres, desenhando o destino mais ou menos afortunado de cada membro da família.

A guerra se abateu sobre a esfera familiar, produzindo uma ‘intrincada rede’ que conecta Vilna, Dresden, Nova York, Rio, São Paulo…

O missivista mais presente no livro é o irmão mais velho de Lasar, Jacob, pai do pianista Bernardo Segall. Após um período no Brasil, Jacob mudou-se para os Estados Unidos, contando que ali o filho teria melhores condições para desenvolver o seu talento e fazer uma carreira de sucesso. A situação econômica, entretanto, não ajuda e os pedidos de socorro financeiro são uma constante na correspondência de Jacob.

Humor judaico

Querido e fiel Lasar traz apenas as cartas que o pintor recebeu, isto é, sua correspondência passiva, e acaba se tornando, inevitavelmente, um livro aberto à imaginação do leitor. Se este acionar o “modo de leitura ficção”, mais atento às construções do que ao simples relato dos eventos, vai deparar com pitadas, voluntárias ou não, de legítimo humor judaico. Por exemplo, na carta enviada por Jacob de Nova York para Dresden (onde Segall se encontrava) em dezembro de 1914, lê-se: “É uma pena que você esteja afastado de nós e quanto a isso não há nada a fazer. Na verdade, é terrivelmente triste a situação em que se encontra toda a humanidade e isso, de certa forma, alivia nossa dor, pois permite lembrar o ditado que diz: um corcunda ao ver outro fica alegremente aliviado”. 

Noutra carta de Jacob a Lasar, enviada de São Paulo a Paris em dezembro de 1929 (outro ano de crise mundial), encontro este trecho, que poderia dar margem a uma pequena peça de ficção na linha de Isaac Bábel: “O Gordon, de fato, esteve melancólico durante certo tempo. O que causou sua melancolia foi o fato de que, há alguns meses, ele, que estava morando numa pensão, quis se suicidar com gás do banheiro. Lamentavelmente essa gente que procura a morte não a encontra facilmente. Assim, ele foi salvo. Mas o gás foi aspirado por seu corpo e por isso ele ficou um certo tempo melancólico”.

A publicação de cartas e fotografias lado a lado também gera, eventualmente, (des)encontros curiosos. Assim, enquanto o irmão Oscar se queixa ansiosamente em uma mensagem de tribulações de toda ordem (problemas com viagens, dinheiro, negócios familiares), o pintor aparece em foto da página seguinte com o corpo largado, a roupa em desalinho, o olhar enevoado ao fim de uma farra com amigos, regada a muito álcool. 

Claro que a principal linha de força do livro é a história familiar, mas ela se amplia, ao final do volume, para abarcar sua correspondência em iídiche com críticos e historiadores de arte judaicos, e também com instituições como o YIVO, o Instituto Científico Judaico, fundado em Vilna em 1925, cujo acervo remanescente foi transferido para Nova York após a Segunda Guerra Mundial (1939-45).

É um mérito dos trabalhadores, museólogos, pesquisadores, conselheiros e colaboradores do Museu Lasar Segall levar adiante um trabalho como este — trabalho de exceção no panorama brasileiro, quando deveria ser a regra. Pois é precisamente essa operação contínua de leitura, pesquisa, estudo, tradução, organização e publicação que permite a uma coletividade, em contato com o legado de um artista, realizar o trânsito do mundo para a obra e da obra para o mundo, operação exemplar no caso de Lasar Segall e que se desejaria ver estendida a outros artistas brasileiros.

Vilna

O outro livro mencionado acima, e que também conta com prefácio de Celso Lafer, é Vilna, cidade dos outros, do lituano (residente em Toronto) Laimonas Briedis — e tem a propriedade de enriquecer e ampliar a leitura do livro anterior, na medida em que as relações da família Segall podem ser vistas como chaves no interior de uma trama histórica vasta e agitada o suficiente para impor à cidade os destinos mais contraditórios.

Briedis abre seu livro com uma introdução escrita especialmente para a edição brasileira, na qual ensaia, de forma bastante engenhosa, pontos de aproximação entre Brasil e Lituânia, e aquilo que à primeira vista pareceria ser pura distância acaba se revelando permeado por pequenas proximidades. Uma delas diz respeito ao fato de a Lituânia aparecer pela primeira vez num mapa, no século 14, acompanhada pela legenda “terra dos gentios” — tal como seria indicado o “sertão” brasileiro nos mapas do século 16 ao 19. Outro termo de aproximação é o barroco jesuítico, que floresceu com vigor em Vilna e em várias cidades brasileiras quando já declinava em Roma e noutras capitais europeias. Por fim, o autor encontra um ponto de apoio em Machado de Assis: dois poemas de Crisálidas (1864) ecoam explicitamente temas lituanos do romântico Adam Mickiewicz (1798-1855), o grande poeta nacional da Polônia… e também da Lituânia. Embora escrevendo em polonês, Mickiewicz nasceu numa região da Lituânia hoje pertencente a Belarus (ou Bielorrússia, “Rússia Branca”), passou a juventude em Vilna, onde cursou a universidade, até que, perseguido pelas autoridades russas, exilou-se em Paris, tendo para sempre como figuras centrais de seus poemas os rios e as florestas de sua terra natal. 

Lembro de ter lido há muitos anos, em Paisagem e memória, de Simon Schama, uma observação sobre Mickiewicz que o historiador estendia a toda uma região: nos territórios compreendidos pelos antigos Reino da Polônia e Grão-Ducado da Lituânia as fronteiras políticas eram tão instáveis que a população local havia construído sua identidade não em torno da noção de país, mas de suas florestas — e apontava a obra de Mickiewicz como o exemplo maior disso. 

Mais adiante voltarei às florestas, mas por ora preciso alertar o leitor: não faria sentido nem haveria graça em resumir aqui o que o autor desenvolve em nove capítulos repletos de nuances, testemunhos (o escritor Alfred Döblin, autor de Berlin Alexanderplatz, tem passagens luminosas sobre Vilna), análises e interpretações — e que se lê com proveito e prazer na tradução de Fernando Klabin. Talvez o único reparo a fazer ao livro seja a falta de um índice remissivo que ajude o leitor a reencontrar as passagens que deseja reler. No amplo painel histórico que Briedis traça desde as “cruzadas nórdicas” lideradas pela Ordem dos Cavaleiros Teutônicos, no século 14, contra os pagãos da Lituânia, até a independência do país em 1991, cabe destacar um ponto: o ano de 1941 assinala, na memória da cidade, o corte mais profundo.

Desde o período medieval, Vilna havia se afirmado como um dos mais importantes centros de irradiação da cultura judaica, a ponto de ser chamada a “Jerusalém do Norte”. No verão e no outono de 1941, com a entrada das tropas ss na cidade, milhares de judeus askhenazis foram mortos por nazistas e colaboradores do nazismo na colina de Paneriai, onde no século anterior as tropas de Napoleão haviam morrido de fome e de frio. Para que se tenha uma ideia da dimensão do massacre: em Vilna residiam, nas primeiras décadas do século 20, entre 60 e 70 mil judeus; “não mais que 3 mil”, diz Briedis, viram o fim da Segunda Guerra Mundial (aqueles que não foram assassinados em Vilna foram levados para os campos de extermínio na Estônia). 

Desde o período medieval, Vilna havia se afirmado como um importante centro da cultura judaica

A profundidade do corte implica uma anulação da memória que terá prosseguimento após a guerra, com outras modalidades. Na Lituânia soviética, o polonês e o iídiche foram substituídos oficialmente pelo russo e pelo lituano, conformando uma amnésia linguística em relação à própria história. A nova república se empenhou em apagar da cidade a memória judaica, destruindo também seus dois antigos cemitérios (um dos quais já era usado antes da chegada de Colombo à América), enquanto, simultaneamente, transferia para lá populações que não tinham nenhum laço com a história da cidade. O resultado, como Briedis dá a entender no capítulo final, “Redemoinho europeu”, é uma forma aguda de desenraizamento contemporâneo: por um lado, a memória de Vilna viu-se dispersa pelo planeta com a diáspora judaica e lituana; por outro, a cidade em si mesma foi se tornando uma “cidade dos outros”, onde todos são estrangeiros. Não é difícil perceber como um elemento de sonho se transforma em pesadelo.

As florestas

Na última Bienal de Arte de São Paulo, encerrada em dezembro de 2021, que teve como mote o verso Faz escuro mas eu canto, uma sala no segundo andar reuniu um número significativo de pinturas e desenhos de Lasar Segall com um único tema: florestas. Os primeiros registros desse tema são de 1910, quando Segall, estudando na Academia de Dresden, foi a Vilna passar férias. De certo modo, pode-se dizer que ele tinha feito o mesmo trajeto da madeira que era extraída dos bosques lituanos (então russos) e embarcada nos trens para a Alemanha. 

As últimas pinturas são de 1957, o ano de sua morte. Têm como motivo imediato as florestas de pinheiros e araucárias da serra da Mantiqueira, onde o pintor tinha uma casa de campo. Nessas telas intensas, verticais, em que os troncos praticamente despidos de galhos e folhagem filtram várias tonalidades de luz, Laimonas Briedis reconheceu as cores das florestas lituanas no verão — o que permite supor que, tal como Mickiewicz, Segall também compôs sua identidade pessoal (de judeu, russo e, em menor medida, brasileiro naturalizado) com os apelos das florestas da Lituânia.

Enquanto finalizo este texto, descubro na internet que nessas mesmas florestas lituanas, parte delas hoje em território bielorrusso, alguns milhares de refugiados vindo do Norte da África e do Oriente Médio se encontram neste momento presos numa zona de exclusão, em pleno inverno, entre as fronteiras da Polônia e Belarus. Foram atraídos para lá pelo que parece ser uma jogada perversa do presidente de Belarus, Aleksandr Lukashenko, que alimentaria a crise migratória como forma de pressão contra as sanções que lhe foram impostas pelos Estados Unidos e pela Europa. Do outro lado da zona de exclusão, moradores de cidadezinhas polonesas na fronteira montaram uma rede de apoio clandestina para levar água, comida, agasalhos e baterias de celular àqueles que conseguem atravessar a floresta. Digo clandestina, pois hoje na Polônia é proibido prestar auxílio a imigrantes e refugiados.

Quem escreveu esse texto

Alberto Martins

Escritor e artista plástico, prepara o lançamento da novela Violeta pela Editora 34.
 

Matéria publicada na edição impressa #54 em outubro de 2021.