Crítica Literária,
Palavras ao vento
Coletânea de ensaios reúne os diversos interesses de Leonardo Fróes, poeta que viveu com liberdade uma peculiar errância intelectual
18ago2026 • Atualizado em: 17ago2026 | Edição #109No texto introdutório ao livro póstumo O fascínio das palavras, Leonardo Fróes afirma: “Assim que aprendi a ler, os livros logo se tornaram meus brinquedos prediletos”. Mencionando as estantes herdadas do seu bisavô Silva Borges, “um mestre-escola que vinha do século 19 e sozinho formou sucessivas gerações de crianças numa cidadezinha do interior do Brasil”, ele alude aos “24 grandes, grossos e vistosos volumes da Biblioteca Internacional de Obras Célebres” que despertaram seu fascínio “por aquele mundo de letras e ilustrações sugestivas” — num primeiro momento, pouco compreensíveis. Só após muitos estudos lhe foi possível retornar à coleção do bisavô, na qual Fróes encontraria dois dos seus “futuros heróis”: Machado de Assis e Fernando Pessoa.
Grifei esse parágrafo quando pela primeira vez o li e, tendo fechado o volume, percebi em que medida ele parece oferecer elementos para uma compreensão do pensamento que perpassa os ensaios ali coligidos. Dos dois “heróis” nomeados, apenas um reaparece na obra: o poeta de Mensagem, abordado no ensaio “Uma aprendizagem de desaprender — Fernando Pessoa (1888-1935) e a natureza” (originalmente publicado como posfácio a uma compilação da poesia completa de Alberto Caeiro).
Abordando seu “herói” e um de seus mais caros temas, Fróes menciona um episódio em que o escritor católico e ativista político Thomas Merton comoveu um já idoso Daisetz Teitaro Suzuki, notório divulgador do zen-budismo no Ocidente, lendo trechos da poesia de Pessoa. No mesmo ensaio, dissertando sobre “convergências de espírito ou de forma entre poetas e prosadores separados não só por suas línguas, como também pela passagem de etapas seculares de tempo”, Fróes especula sobre aproximações entre a poética de Caeiro e as obras do persa Rumi e do indiano Kabir.
Muitos dos ensaios reunidos em O fascínio das palavras podem ser lidos, de fato, tanto como exercícios de admiração — sobre os objetos e campos de interesse do autor — quanto como exercícios de reflexão em um sentido lato, quer dizer, como exercícios contemplativos de alguém que, preservando o privilégio de admirar-se perante o mundo, jamais abria mão da prerrogativa de interrogá-lo e de especular acerca dele.

Fróes não era um acadêmico, e isso oferece importantes pistas sobre o seu pensamento. Nascido em 1941 em Itaperuna, no noroeste do Rio de Janeiro, emigrou para a capital do estado em 1950; trabalhou como jornalista, viveu em Nova York, Paris e Berlim. Em 1971, passou a residir no sítio em Petrópolis em que permaneceu até sua morte, em 2025. Ao defini-lo como “poeta sem lugar na sociedade”, “poeta visionário”, o editor Cide Piquet sintetiza o perfil do poeta que reúne as condições para construir sua própria dissidência, vivenciando sua liberdade como uma peculiar errância intelectual.
Detalhe da paisagem
A organização dos ensaios em blocos é bem-sucedida, ordenando os textos a partir de temas, tempos e lugares. “No campo, no cosmo” reúne os ensaios sobre literatura e natureza, no qual está o já mencionado texto sobre Pessoa. A seção se abre com “Um detalhe na paisagem — a paz do campo na poesia americana”, que principia evocando o modo como a antiga literatura latina fazia contrastar a tranquilidade do campo e a agitação urbana para, após diversos comentários sobre a literatura estadunidense do século 20, concluir com uma reflexão de Fróes:
Mais Lidas
Creio achar mais sentido em resumir-me a um ‘detalhe da paisagem’ do que em viver amedrontado numa ‘floresta de nervos’ onde eu talvez me perdesse, torturando-me com fabulações egocêntricas.
O segundo bloco, “Acontecimentos da língua inglesa”, é o mais volumoso, algo aliás justificado pelo editor: o inglês foi o idioma do qual Fróes mais traduziu e, provavelmente, em que mais lia. Em “Movimentações literárias”, o autor se debruça sobre o romantismo e o simbolismo brasileiros. “Interlocuções brasileiras” colige ensaios sobre a literatura nacional, inclusive textos sobre António de Alcântara Machado e Joaquim Cardozo, tantas vezes esquecidos. Em “Outros tempos”, há textos sobre temas tão diversos quanto Popol Vuh, o livro sagrado do povo maia; poesia chinesa; arte erótica japonesa; a obra de Tagore e a figura de Esopo; a propósito deste, importaria questionar as figurações da escravidão e da negritude associadas ao fabulista tornado “herói protopicaresco”.
O editor sintetiza o perfil do poeta que reúne as condições para construir sua própria dissidência
O volume se encerra com “Outros lugares”, em que Fróes aborda Tolstói, Tchekhov, a correspondência entre Freud e Jung e os escritos de La Fontaine e de Saint-Exupéry, encerrando com um ensaio sobre René Daumal. Este último ensaio, “As últimas leituras da noite — René Daumal (1908-1944)”, fecha o volume por explícito desejo de Fróes, como comenta o editor na apresentação (além disso, o ensaísta apenas solicitou que não houvesse uma ordem cronológica). No parágrafo que encerra o texto, lemos:
Nenhum mecanismo verbal pode criar verdade. Nenhuma ideia real pode ser expressa em palavras se não tiver sido vivida. Mas o emprego constante da linguagem falada, nas relações humanas, gera a ilusão de que a linguagem possa trazer em si mesma um conhecimento.
O trecho difere dos outros não apenas por ser mais literário, mas também pelo desfecho, de teor francamente filosófico. Talvez por isso a exigência de que o ensaio fechasse a coletânea: porque, embora seja um dos mais antigos textos no volume, transparece a compreensão de Fróes acerca dos limites da linguagem e da relação dessa com o conhecimento. Algo não muito distante pode ser encontrado na poética de “Fileiras cerradas”, publicada em Argumentos invisíveis (“toda escrita se processa em dois planos, um pretensamente narrando, discutindo, outro, e é o que importa, mostrando as vísceras do autor como se fossem vogais”). Tanto no ensaio sobre Daumal quanto no poema, evidencia-se o pendor do autor para exercitar seu discurso para além dos convencionalismos. Ou, como afirma no já citado texto introdutório: “Nunca entendi nem pratiquei com clareza a divisão da literatura em gêneros. Para mim tudo são apenas textos, ou palavras ao vento”.
Matéria publicada na edição impressa #109 em agosto de 2026. Com o título “Palavras ao vento”
Chegou a hora de
fazer a sua assinatura
Já é assinante? Acesse sua conta.
Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.
Há nove anos nutrindo leitores onívoros!
Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil
Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.
Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.
Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.

