Literatura brasileira,

O jardineiro de Secretário

Por uma década, o poeta Leonardo Fróes registrou no jornal os segredos de botânica que encontrou no sítio onde mora

17fev2021 - 05h37 | Edição #43

Em 1973, Leonardo Fróes publicou o livro de poemas Esqueci de avisar que estou vivo. Não era para menos: isolado desde 1971 em um sítio no distrito de Secretário, em Petrópolis (RJ), quando mudou radicalmente sua forma e estilo de vida, o poeta pouco dava notícia de seu paradeiro. Sem telefone em casa, seu contato com outras partes do mundo dependia do único orelhão que havia em Petrópolis e que atendia a todos os moradores do município. Nos casos mais extremos, recorria ao jipe que levou da capital. 

Mas Fróes estava vivo — e ocupado em terminar a construção de sua casa, que ele mesmo levantou, com a ajuda da mulher, Regina. “O pedreiro só ajudou a levantar o telhado, até instalação elétrica e hidráulica eu tive que aprender”, relembra. Nas horas vagas, realizava caminhadas cada vez mais longas pelas matas da região e passou a plantar árvores frutíferas no grande pasto recém-adquirido, de quase 50 mil metros quadrados. Daí nasceu o sítio Petiterra, registrado em cartório e com firma reconhecida. No auge da repressão da ditadura militar, o lugar foi uma espécie de “país à parte”.

Cinquenta anos depois, o pasto se transformou em uma fazenda arborizada aonde os bichos vão em busca de alimento, e Fróes, um dos grandes poetas do país, continua no mesmo lugar, ao lado de Regina. A mudança para o sítio, já conhecida dos leitores mais assíduos de sua poesia, além de provocar uma virada repentina em sua obra, fez do poeta também — naturalmente — um naturalista amador, observador e estudioso das plantas e dos bichos, além de montanhista. Um dos seus poemas mais belos e conhecidos, “Introdução à arte das montanhas”, relata uma de suas caminhadas ao pico mais desafiador de Petrópolis, o Maria Comprida. E as referências aos mais variados elementos da natureza, do tiê-sangue às beterrabas, das casas de marimbondos à “paciência dos insetos”, passam a ser figuras frequentes em sua obra poética. 

Leonardo Fróes foi um desbravador não apenas nas matas de Petrópolis, mas também na difusão de ideias ecológicas no país. E não apenas por meio da poesia e da experiência em Secretário. Foi a partir do mesmo ano de 1971, na edição de 5 de novembro, que o poeta passou a assinar uma coluna semanal sobre ecologia no Jornal do Brasil, a que deu o título de “Natureza” — e que seria reproduzida logo em seguida também em São Paulo, no Jornal da Tarde, como “Verde”. 

A coluna, que durou até 1983, impressiona também pela longevidade — são em torno de seiscentos textos publicados no total —, e fez tanto sucesso que o autor chegou a adotar um pseudônimo, Solano de Castro, reservando o nome de berço aos livros de poesia e artigos sobre literatura. O pseudônimo vem do latim Solanum aculaestrum, pequeno arbusto da família dos tomates — mas os leitores se referiam ao personagem como “professor Solano”. 

“Desde adolescente meu sonho era ser poeta, eu queria ser conhecido pela minha poesia, e todo mundo passou a me identificar como ‘jardinólogo’, até programa na Globo me chamaram para fazer”, relembra Fróes. Enquanto os seus livros de poesia saíam em edições artesanais de trezentos exemplares, o JB chegou a alcançar tiragens de quase 200 mil.

Ao longo dos anos 1960, Fróes trabalhou em Nova York, estudou alemão em Berlim e passou aperto em Paris. De volta ao Rio, chegou a atuar como executivo de uma editora multinacional (a Bruguera) e crítico de arte nos jornais cariocas. Largou tudo isso para se dedicar à análise da vida das begônias, dos antúrios e dos manacás, aos cuidados com a terra e a outros saberes sobre a jardinagem, assim como ao estudo das principais descobertas científicas na área de zoologia e botânica. 

Entre os leitores da “Natureza”, Carlos Drummond de Andrade, em crônica de 1975, dá uma ideia do alcance do tema ecológico naquele momento. “Por que todo mundo está levando vasos de flor para casa, por que todo mundo lê no jornal a página de natureza, por que o jornal criou esta página de natureza?”, perguntava Drummond, que foi tão marcado pela destruição das montanhas de Itabira pela mineração, como mostrou José Miguel Wisnik em estudo recente sobre o tema. O cronista arriscou uma resposta, não muito otimista: “Deve ser porque a natureza está morrendo, e a gente acordou, não digo a tempo de salvá-la, mas pelo menos a tempo de recolher um souvenir do que foi o quadro da nossa vida”. 

Na sequência ainda apresenta a coluna nos seguintes termos: “Então, lemos o Leonardo Fróes, aprendemos com ele o sono das plantas, a hora e a vez de florescerem, os mínimos cuidados que cada espécie requer para nos fazer companhia – a mais discreta, harmoniosa e gratificante das companhias”. 

No caderno B do Jornal do Brasil, então o mais importante suplemento cultural do país, “Natureza” chegou a dividir a mesma página com as crônicas de Clarice Lispector e do próprio poeta de Itabira, aos sábados. A fórmula misturava divulgação científica, perfis de naturalistas, de escritores e de jardineiros amadores, e sobretudo pequenos guias para que os leitores pudessem cultivar o próprio jardim em casa ou mesmo em apartamento. A coluna ganhou ainda mais destaque quando foi deslocada para a Revista de Domingo.

Extremamente versátil, às vezes com estilo saboroso de cronista, outras se valendo de saberes enciclopédicos e novas descobertas científicas, mas sempre com um texto acessível a qualquer interessado no assunto, a coluna de Fróes, além de agradável e instrutiva, era extremamente útil.

Thoreau

Qual o melhor modo de combater as pragas? Quais plantas são indicadas para espaços pequenos e com pouco sol? O que fazer para melhorar a avenca que não tem desenvolvido bem em apartamento? Qual é a melhor época para renovar a terra dos vasos? 

Em meio a soluções caseiras, Fróes introduzia também ideias menos acessíveis, como a do naturalista estadunidense Henry Thoreau (1817-62), espécie de avô do movimento ecológico que durante anos “viveu em uma cabana na mata, comendo o que plantava em sua horta e submetendo-se a duras caminhadas”. Fazia perfis de jardineiros amadores, como o escritor Rubem Braga, “o mágico hortelão de Ipanema” que tantas crônicas escreveu sobre os pássaros e que mantinha uma espécie de “chácara aérea” no terraço de sua cobertura em pleno coração da cidade. Eventualmente, resenhava livros de ciências naturais, sobretudo em torno de botânica e comportamento animal.

Pelo que se conclui da leitura de “Natureza”, eram ainda escassos os livros publicados no Brasil tanto a respeito de jardinagem quanto sobre temas da natureza em geral — e os livros que existiam, na maioria das vezes, estavam fora de catálogo. Em “O que ler sobre plantas”, em 14 de outubro de 1973, Fróes fazia um apanhado bibliográfico aos “muitos leitores que escrevem a esta seção pedindo informações bibliográficas”, mas avisa que “têm de se contentar com incursões pelos sebos onde, com alguma sorte, poderão encontrar bons livros, de iniciação, em português”. 

Tarimbado tradutor literário, Fróes traduziu livros de ecologia e fez pesquisas sobre o tema. A vida secreta das plantas, um best-seller que causou grande polêmica à época ao propor métodos alternativos de cultivo e de relação com a natureza, e O jardim e a mini-horta, guia de jardinagem que até hoje é utilizado por botânicos e amadores. Além disso, já em 1990, publicou um fascinante estudo sobre Fagundes Varella, andarilho e poeta como ele, pouco lido mesmo nas universidades e que é interpretado por Fróes como um “precursor do sentimento ecológico”.

Ou seja, a atuação como ecologista, em torno de sua coluna, apresentava empenhos variados: ao mesmo tempo que se dirigia a jardineiros iniciantes e interessados na natureza em geral, especialmente a um público urbano que podia cultivar jardins em espaços pequenos e limitados, também fazia divulgação científica e sobretudo propunha um novo modo de se relacionar com essas outras espécies — animais e vegetais. 

Diferentemente da avaliação de Drummond, a natureza não é tratada por Fróes como um souvenir — ou como “objeto”, segundo um velho preconceito das ciências biológicas que é posto em questão pelo neurobiólogo Stefano Mancuso em seu livro Revolução das plantas — e sim como um ser vivo, com suas necessidades próprias e caprichos. O poeta recorda que as plantas costumavam ser estudadas secas, em herbários, e não no campo. Em uma crônica sobre os cactos, por exemplo, ele chega a afirmar que “quem quiser garantir o seu desenvolvimento harmonioso tem de tratá-los como organismos vivos — e não como objetos de arte —, deixando-os ao ar livre, pelo menos uma parte do dia”. 

Discreto, o colunista quase nunca fala de sua própria biografia — apenas quando alguma experiência ou observação em sua terra pode ser interessante ou útil aos leitores — e muito menos romantiza a vida no campo. Em “Carta aos novos roceiros”, na coluna de 25 de março de 1979, em resposta aos leitores que perguntavam ao colunista sobre as vantagens da vida no campo, Fróes é taxativo: “Não acredito muito na transmissão pessoal de experiências nem me parece que o destino de alguém seja realmente mudável a partir de conselhos”, e diz, em raro momento de confissão: “Eu tenho uns dias esquisitos aqui também”.

Fróes foi não apenas um estudioso da ecologia; foi também, e segue sendo, um praticante, alguém que vive a ecologia em seu cotidiano e que fez uma escolha de vida não pragmática, mas existencial. De modo que muito do que ele escreve em “Natureza” é resultado não só de um saber livresco, mas também empírico e mesmo espiritual. 

Professores

Para avaliar a riqueza e mesmo a boa repercussão que a página alcançou junto aos leitores, creio ser fundamental entender a trajetória e a singularidade de uma figura como Fróes. Além de grande escritor e tradutor, Fróes não é um especialista em botânica ou zoologia, e sim alguém que teve que aprender por conta própria tais saberes — e práticas —, e que portanto podia conhecer muito bem as dúvidas dos leitores, o que influía na hora de ensinar. Em muitos casos, ensinava em setembro o que tinha aprendido em agosto. E teve que aprender de dois jeitos: com a própria experiência, no sítio, e também com os livros — sobretudo estrangeiros, nas mais diferentes línguas. “Mas meus principais professores foram mesmo os camponeses da região”, relembra.

A qualidade da escrita, junto de seu empenho como pesquisador e erudição cultural, vai se refletir também em um estilo que, nos seus pontos mais altos, valeria por seu próprio valor literário, cujos achados se veem logo nos títulos: “Teia em transe”, “Papagaio gaio”, “No começo era o berro”, “Recatos e requintes do gato”. Se a “Natureza” foi criada principalmente para oferecer um serviço, aos poucos arregimenta seguidores que acompanham a coluna pelo prazer da leitura.

Fróes misturava saber empírico, pesquisa científica e gosto literário — mistura que ele valoriza na obra de outro naturalista que também chega a perfilar em 14 de janeiro de 1972, Alexander von Humboldt (1769-1859), conhecido como o pai da biogeografia e que passou anos na Amazônia, afim de estudar a natureza local. Sobre ele, Fróes afirma, em comentário que poderia ser estendido ao próprio poeta: “[…] num momento em que a Ciência tendia cada vez a especializar-se e a separar-se da vida, Humboldt reagia, com uma vivência e uma visão integradoras, em direção ao universal”.

Mas nem sempre a coluna “Natureza” foi consenso entre os leitores. Em 2 de março de 1978, uma carta de Carlos da Silva Ramos Perry, com o título “Lamento”, publicada na página 2 do jornal, reclamava de um texto de Fróes sobre cogumelos, “O efeito alucinógeno e a trombeta das bruxas”. De acordo com o leitor, que dizia nutrir grande admiração pelo colunista, o texto sobre os efeitos alucinógenos dos cogumelos nada acrescentou aos amantes de plantas e jardins, apenas “aos frequentadores de bares e esquinas desse pobre Rio”, para quem as “receitas” oferecidas no artigo são “um subsídio de sucedâneos mais baratos que maconha e cocaína”. Como se vê, não tinha como agradar a todos.

Beleza

Mas talvez a grande beleza da “Natureza” esteja ainda em outro lugar, digamos que nos efeitos ou resultados que almeja. O filósofo italiano Emanuele Coccia, ao ser questionado recentemente por Ailton Krenak sobre a visão que os europeus têm sobre a Amazônia, argumenta que é uma visão confortável, na medida em que a selva é observada do outro lado do oceano. Nesse sentido, a Amazônia seria confortável não só para o europeu, mas para todos aqueles que vivem na cidade, com sua forma de vida definida pela monocultura, onde as espécies humanas imperam.

E deveria ser o contrário, propõe Coccia: nós deveríamos construir uma Amazônia em cada cidade, reconstruir essa multiplicidade de vidas em todos os territórios. E vai além: a Amazônia deveria estar dentro da nossa casa, ou mesmo dentro da gente. Para o filósofo, a Amazônia seria não apenas uma região, mas a metáfora de uma forma de vida. “Pois trazemos dentro de nós pedaços da floresta amazônica, e entender isso altera a ética de nossa relação com a terra, com Gaia”, conclui. 

Esse talvez seja o espírito da “Natureza” de Fróes: a possibilidade de construir e espalhar pequenas e variadas selvas por aí, inventar novos mundos cidade afora, seja nas ruas e nos parques perto de casa, seja nos terraços como o de Rubem Braga, seja dentro de um quarto e sala, para que ao menos as plantas se lembrem de nos avisar que estamos vivos.

Quem escreveu esse texto

Victor da Rosa

É crítico literário e co-organizador da antologia 99 poemas de Joan Brossa (Demônio Negro).

Matéria publicada na edição impressa #43 em fevereiro de 2021.