Sally Field interage com polvo em cena da série Animais extraordinariamente brilhantes (Cortesia da Netflix)

Crítica Literária,

Escrever o bicho que escreve

Novo jeito de pensar e fazer literatura dá protagonismo aos animais em prol de uma vida sustentável na Terra

07maio2026

Humanos são, na maior parte do tempo, entediantes e tolos. A observação é do narrador de Criaturas extraordinariamente brilhantes (Alta Novel, 2024), de Shelby Van Pelt. No romance, um polvo-gigante-do-Pacífico, preso em um aquário, sente um profundo desdém por seus captores — seres intelectualmente limitados, monótonos, previsíveis, com “habilidades de comunicação absurdamente limitadas” e uma linguagem que “é pura baboseira”.

Com uma adaptação da Netflix marcada para maio, o best-seller é um dos vários romances narrados a partir da perspectiva animal que foram lançados recentemente. Nos últimos meses, foram publicados ainda Malária (trad. Claudia Abeling, Tinta-da-China Brasil, 2026), espécie de autobiografia de um mosquito, escrito pela alemã Carmen Stephan; Só um pouco aqui (trad. Silvia Massimini Felix, Instante, 2025), da colombiana María Ospina Pizano, uma alegoria sobre as crises migratórias protagonizada por fêmeas de diferentes espécies; e Certo azul (trad. Leonardo Pinto Silva, Zain, 2025), do costa-riquenho Fernando Contreras Castro, que acompanha uma banda de jazz composta por felinos. Para o próximo semestre, a Âyiné prepara Minhas estúpidas intenções, uma fábula protagonizada por uma fuinha, assinada pelo italiano Bernardo Zanoni e com tradução de Pedro Fonseca.

Eles se juntam a best-sellers como Relatos de um gato viajante (trad. Rita Kohl, Alfaguara, 2017), de Hiro Arikawa, que no ano passado ganhou o spin-off O gato do adeus, pelas mesmas editora e tradutora. E também dialogam com títulos brasileiros do início da década que experimentam com a narração de animais em primeira pessoa, como O som do rugido da onça (Companhia das Letras, 2021), de Micheliny Verunschk, e Onde pastam os minotauros (Todavia, 2023), de Joca Reiners Terron.

Os animais saem da mera alegoria e aparecem como sujeitos, com valores, sentimentos, opiniões

São livros que, ao dar voz à fauna, rompem com uma tradição de séculos no que diz respeito à forma como a representamos na literatura.

Mateus Vinicius Barros Uchôa, professor de filosofia na Universidade Estadual do Ceará (UECE) e autor de uma tese de doutorado sobre o tema, afirma que, historicamente, animais foram usados na ficção como “instrumentos retóricos a serviço do humano”, espelhos por meio dos quais refletimos sobre a nossa condição. Ele cita as fábulas de Esopo, em que a formiga é uma metáfora para o esforço e a dedicação, e o lobo, para o engano e o ardil.

Em contraponto, ficções contemporâneas, como as aqui citadas, buscam emular o ponto de vista dos próprios animais. Com isso, tiram esses seres do campo da mera alegoria para que apareçam como sujeitos, com valores, sentimentos, opiniões. “É o animal por ele mesmo, ainda que esse ‘ele mesmo’ tenha que ser especulado e aproximado da nossa linguagem”, resume Uchôa.

Paradigma

Uma série de fatores contribuiu para essa mudança de paradigma. Em Animalidades: zooliteratura e os limites do humano (Instante, 2023), a escritora e pesquisadora Maria Esther Maciel, pioneira nos estudos sobre esse assunto no Brasil, identifica como um dos primeiros desses fatores o darwinismo, que apontou para a origem comum de humanos e animais no fim do século 19.

É essa visão mais ética da animalidade que permearia o bestiário de Franz Kafka, por exemplo. O compêndio de personagens animais do escritor vai muito além do inseto de A metamorfose e inclui contos protagonizados por um macaco (“Um relatório para uma academia”), um cachorro (“Investigações de um cão”) e um camundongo (“Josefina, a cantora ou O povo dos ratos”), entre outros. A mesma postura pode ser observada em escritos de brasileiros como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Hilda Hilst e Clarice Lispector — uma coletânea com textos de Machado sobre bichos, organizada por Maciel e Fabiane Secches, intitulada Na arca: Machado de Assis e os animais, foi publicada pela Fósforo no ano passado.

Sally Field em cena da série Animais extraordinariamente brilhantes (Cortesia da Netflix)

Mas as muitas crises da atualidade, incluindo o colapso ambiental e emergências sanitárias como a Covid-19, parecem ter aumentado o interesse da literatura pelas perspectivas animalescas.

“Há uma crise de confiança em relação à ‘máquina antropológica’”, afirma Uchôa, tomando emprestado um conceito do filósofo italiano Giorgio Agamben que designa os mecanismos criados pela humanidade para se diferenciar dos animais e subjugá-los. “Essa máquina, por séculos, tentou nos convencer, através de diversas narrativas, que nós somos o centro e a medida de todas as coisas. Mas ela se desmantelou”, afirma ele. “A literatura animal nos força a abandonar a ilusão de que somos os únicos narradores do mundo para podermos encarar a complexidade de habitar um planeta cheio de outros seres.”

A crítica ao mito da autossuficiência é expressa pelos bichos dessa nova literatura

A crítica ao mito da autossuficiência humana é muitas vezes expressa diretamente pelos bichos dessa nova literatura. Eles denunciam, por exemplo, a destruição do meio ambiente pelos homens, que com isso arruínam os próprios habitats, e a ignorância deles quanto à inexorabilidade de sua ligação com a natureza.

“Vocês se embrenharam em florestas, derrubaram árvores […]. Vocês se comportam feito um parasita e, desse modo, possibilitam que outro parasita os destrua”, acusa o narrador de Malária, cujo arco narrativo se baseia justamente no afeto que o mosquito nutre pela mulher picada por ele. A natureza, diz em outro momento, não separa; “ela une, amarra seus nós onde pode, mesmo por meio da morte”. Carmen Stephan, a autora do livro, conta que encarregar um inseto de narrar a própria experiência de quase-morte não foi sua primeira escolha. Ao mesmo tempo, ela sabia que o animal que lhe transmitiu a doença do título teria de ser um dos protagonistas da história. “Eu não estava sozinha. Alguém tinha sumido na floresta com o meu sangue. E não há conexão mais íntima que a sanguínea”, diz.

Estranhas criaturas

Enquanto isso, a espécie não identificada que surge em O mundo desdobrável: ensaios para depois do fim (Relicário, 2021), de Carola Saavedra, remete ao polvo de Criaturas extraordinariamente brilhantes quando afirma que não pretende dar nada além do “seu mais profundo desprezo” aos cientistas que a mantêm longe de seu habitat natural, “estranhas criaturas” com “sérios problemas de cognição e muita dificuldade para entender ironia”.

Saavedra levou ao extremo a experimentação com narradores alternativos em seu último romance, O manto da noite (Companhia das Letras, 2022). Sua protagonista é um ser em constante metamorfose, e, em uma das seis partes que compõem o livro, a principal interlocutora dela é a cordilheira dos Andes, numa expansão da chamada zooliteratura em direção a outros elementos da natureza.

A escritora, nascida no Chile e criada no Brasil, conta que passou os últimos anos se reconectando com suas origens mapuches. Nesse processo, afirma, deixou de ver sentido em contar histórias dentro da tradição de realismo urbano em que iniciou seu percurso como ficcionista. Optou então pelo que chama de um “realismo onírico”, uma tentativa de acessar saberes inconscientes que se revelam por meio de metáforas e símbolos — um tipo de conhecimento rejeitado categoricamente pela tradição ocidental.

“Comecei a pensar que forma de escrita é essa possível para chegar a algo que não controlamos, mas que pode ir-se dizendo à nossa revelia”, diz a escritora. “Para a gente, o conhecimento está no lugar da vigília, da razão. Para os povos indígenas, não — ele está no lugar do sonho. O xamã, quando vai pronunciar as palavras de cura, o faz do lugar do transe.”

Ela, que é professora de literatura na Universidade de Colônia, na Alemanha, acrescenta que a América Latina parece estar mais bem equipada do que a Europa para acessar essas outras vias de saber.

Lá, ela afirma, houve um corte marcado entre o humano e a natureza, que vem desde a Idade Média, com a caça às bruxas. Aqui, a colonização até tentou operar o mesmo corte, mas não foi totalmente bem-sucedida. “As forças telúricas, digamos, são mais fortes, porque somos influenciados pelo pensamento dos povos indígenas, das religiões de matriz africana. Elas estão na cultura mesmo que achemos que não. E que bom que estão, porque são parte de uma possibilidade de transformação.”

Saavedra critica ainda a tendência histórica de reduzir à literatura infantil textos que adotam uma perspectiva não humana. “Quando os povos indígenas estão narrando uma história que é contada por um tatu e uma onça, achamos que ela é menor, porque não sabemos ler. No fundo, estamos falando da dificuldade ocidental de ler a alteridade.” 

Estranhas criaturas, para citar um de seus personagens.

Quem escreveu esse texto

Clara Balbi

Jornalista, foi editora-assistente da Ilustrada, caderno de cultura da Folha de S.Paulo

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