Repertório 451 MHz,

O poeta jardineiro

Episódio especial reúne duas conversas do poeta e tradutor Leonardo Fróes sobre poesia e a vida perto da natureza

19dez2025 • Atualizado em: 01jul2026

Está no ar o 177º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição presta uma homenagem ao poeta, tradutor e ensaísta Leonardo Fróes (1941-2025), que morreu no último 21 de novembro, aos 84 anos. 

O episódio reúne os dois encontros de que Fróes participou n’A Feira do Livro 2025. Neles, o escritor compartilha sua visão sobre a natureza, o impulso da escrita e a decisão de abandonar a cidade grande para morar em um sítio no interior do Rio de Janeiro. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

Autor de livros como Poesia reunida: 1968-2021 (Editora 34, 2021) e Natureza: a arte de plantar (Cepe, 2021), Fróes atuou como jornalista, crítico literário e ensaísta, e nos últimos anos escrevia com regularidade para a revista dos livros. Com sua poesia, venceu os prêmios Jabuti e o prêmio Alceu Amoroso Lima – Poesia e Liberdade.

Como tradutor, verteu dezenas de livros do inglês, do francês e do alemão para o português. Em 2024, publicou Ensaios seletos (Editora 34), antologia de textos de não ficção da escritora inglesa Virginia Woolf — sobre quem falou no 138º episódio do podcast 451 MHz

O programa desta semana traz a gravação de duas mesas de que Fróes participou n’A Feira do Livro 2025. Na primeira parte, ele conversa com o editor e crítico literário Schneider Carpeggiani sobre o impulso de escrever. Logo no início, Fróes leu o seu poema “Maluco cantando nas montanhas”: “Todo mundo neste mundo tem a sua fraqueza. A minha é escrever poesia. Libertei-me de mil laços mundanos, mas essa enfermidade nunca passou”, recitou.

Leonardo Fróes conversa com Schneider Carpeggiani n’A Feira do Livro 2025 (Flavio Florido)

O autor explicou por que considera que escrever poesia é uma fraqueza: “Todos nós temos esses sentimentos poéticos. E apenas alguns se tornam, devido à sua fraqueza, especialistas em escrever poesia, não conseguem ficar de boca calada, não conseguem sentir a sua emoção e se bastar. Sentem uma necessidade incontrolável de transmitir isso aos outros”.

O escritor falou também sobre um capítulo fundamental de sua biografia: a mudança, ao lado da companheira, para um sítio em Petrópolis (RJ), após deixar um cargo concorrido em uma editora nos anos 70. Para ele, a vida profissional urbana se mostrava inconciliável com o tempo necessário à leitura e à escrita.

“Para o escritor, ao meu feitio, ler é parte da atividade profissional. Eu achava que era a minha vocação, que eu tinha que segui-la inevitavelmente, senão eu jamais seria uma pessoa satisfeita com a vida. E não me sobrava tempo, como diretor de uma editora”, disse.

A arte de plantar

No segundo bloco, Fróes conversa com o poeta e editor Tarso de Melo sobre Natureza: a arte de plantar (Cepe, 2021), volume organizado pelo professor Vitor da Rosa, que reúne parte das centenas de colunas publicadas nas décadas de 70 e 80 nos extintos Jornal do Brasil e Jornal da Tarde.

O autor relembrou a sua relação com o interior e com o mundo natural, da infância em Itaperuna, no norte fluminense, ao retorno à vida rural. “Quando eu voltei, com trinta anos, a viver no interior, numa zona rural, eu tive a sensação de que eu estava voltando para a minha infância, para os dez anos iniciais, onde eu andava pelo mato, eu sabia onde tinha um pé de pitanga, onde tinha um pé de jambo.”

Os poetas Leonardo Fróes e Tarso de Melo n’A Feira do Livro 2025 (Nilton Fukuda)

Durante anos escrevendo sobre espécies vegetais e animais, o poeta acabou alcançando uma popularidade inesperada. O sucesso da coluna foi tamanho que Fróes temeu se tornar mais conhecido como jardineiro do que como poeta. A solução, sugerida por seu editor no Jornal do Brasil, foi que ele publicasse seus textos literários com seu nome real e adotasse um pseudônimo para a coluna sobre plantas. Assim nasceu a coluna “A arte de plantar”, assinada então por Solano de Castro.

Ao ser questionado pela plateia sobre as semelhanças entre escrever poesia e plantar, o poeta jardineiro falou sobre como via as atividades como semelhantes. “De certa forma, escrever poesia é plantar palavras, não é? Nos meus poemas, eu nunca estou escrevendo de uma forma usual. Eu estou tentando fazer enxertos de palavras, plantações de palavras, semeando palavras.”

Mais na Quatro Cinco Um

Leonardo Fróes foi um colaborador frequente da Quatro Cinco Um. Em suas resenhas mais recentes, escreveu sobre a tradução brasileira insubmissa de Lord Byron, grande poeta romântico, duzentos anos depois, e sobre Catulo e sua lírica sexuada, após mais de vinte séculos de uma vida sem vestígios. Em maio, escreveu sobre as inovações geniais da escrita de Virginia Woolf e também participou do 451 MHz para falar sobre os ensaios da autora inglesa. Ouça aqui. 

Antes, em 2020, Fróes fez sua primeira participação no podcast da revista dos livros falando sobre como o ato de caminhar, restrito à época devido à pandemia, inspira poetas e pensadores desde a Antiguidade. Ouça aqui

O melhor da literatura LGBTQIA+

O episódio traz ainda uma dica literária da atriz Verônica Valenttino. Ela fez três indicações: a peça Brenda Lee e o palácio das princesas, de Fernanda Maia e Rafael Miranda (Ercolano, 2024), Cláudia Wonder: flor do asfalto, de Dácio Pinheiro (Ercolano, 2025) e Dando o nome: narrativa de humanidade de travestis, de Dediane de Souza (UFC, 2024).

“Essa é a dica pra gente resgatar e deixar viva a memória travesti do Brasil”, recomendou a atriz. 

Leia mais dicas da seção O Melhor da Literatura LGBTQIA+.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]