Poesia,
Morre o poeta e tradutor Leonardo Fróes
Autor de Maluco cantando na natureza, que traduziu Faulkner e Woolf, morreu nesta sexta, aos 84 anos
21nov2025 • Atualizado em: 24nov2025O poeta e tradutor Leonardo Fróes (1941-2025) morreu nesta sexta, 21 de novembro, aos 84 anos. Autor de Poesia reunida (1968-2021) e A arte de plantar (Cepe), Fróes atuou como jornalista, foi crítico literário e ensaísta, e nos últimos anos escrevia com regularidade para a revista dos livros. Com seus versos, foi vencedor do prêmio Jabuti de Poesia e do prêmio Alceu Amoroso Lima – Poesia e Liberdade.
Na tradução, verteu dezenas de livros do inglês, do francês e do alemão, e de autores como William Faulkner e Lawrence Ferlinghetti. Ano passado, teve sua tradução de Ensaios seletos, de Virginia Woolf, lançada pela Editora 34, sobre quem falou no podcast 451 MHz. Em 1998, ganhou o prêmio Paulo Rónai, da Biblioteca Nacional, pela tradução de Middlermarch: um estudo da vida provinciana, de George Eliot, publicado pela Record e em 2022 reeditado pela Pinard. Em 2008, venceu o prêmio de tradução da Academia Brasileira de Letras.
Além disso, manteve por mais de uma década colunas sobre meio ambiente nos antigos Jornal do Brasil e Jornal da Tarde. Nas palavras do poeta Tarso de Melo, as colunas de Fróes uniam a leveza da crônica, o voo do ensaio e o rigor da divulgação científica.
Nascido em Itaperuna, no Rio de Janeiro, em 1941, sua grande paixão era a poesia. Sua obra completa saiu pela Editora 34 no volume Poesia reunida (1968-2021), em 2021. A coletânea traz a produção desde Língua franca (1968) até A pandemônia e outros poemas (2021). “Eu só me tornei tradutor por necessidade de ganhar a vida, porque ninguém paga para alguém ser poeta”, disse Fróes. Mesmo assim, ele afirmou encontrar grande prazer na “ginástica mental” da tradução.
Jardineiro
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Em junho, Fróes participou de duas mesas n’A Feira do Livro, ambas cheias e muito aplaudidas. Na primeira delas, em conversa com o jornalista Schneider Carpeggiani, o escritor abordou um capítulo fundamental de sua biografia — a mudança, ao lado da companheira, para um sítio em Petrópolis (RJ), depois de abandonar o trabalho em uma editora.
“Em 1973, Leonardo Fróes publicou o livro de poemas Esqueci de avisar que estou vivo. Não era para menos: isolado desde 1971 em um sítio no distrito de Secretário, em Petrópolis (RJ), quando mudou radicalmente sua forma e estilo de vida, o poeta pouco dava notícia de seu paradeiro. Sem telefone em casa, seu contato com outras partes do mundo dependia do único orelhão que havia em Petrópolis e que atendia a todos os moradores do município. Nos casos mais extremos, recorria ao jipe que levou da capital”, escreveu Victor da Rosa em um texto sobre as crônicas de Fróes, em 2021.
Foi assim que, aos trinta anos, o poeta fluminense trocou a vida nas grandes cidades em que viveu, como Nova York, Paris e Berlim, pela vida no campo, onde morou até sua morte. No sítio, que antes servia de área de pasto para gado, ergueu uma grande floresta de árvores frutíferas e espécies nativas, que atraiu de volta muitas espécies de animais silvestres.
N’A Feira do Livro, Fróes contou que a decisão de abandonar a vida na cidade partiu de um entendimento de que a escrita era a sua vocação. “Eu tinha que segui-la inevitavelmente, senão jamais seria uma pessoa satisfeita”, disse. Um trabalho convencional parecia inconciliável com o ofício, preenchendo as horas em que ele gostaria de estar escrevendo e, mais ainda, lendo.
“Tive o privilégio de poder me dar esta vida, de deixar de ser o profissional que fui, para traduzir dezenas de livros e pagar esse luxo que é poder viver em contato com a natureza”, disse ele, que acabou por se tornar um importante tradutor literário.
Foi ainda essa experiência com a terra que inspirou o poeta a manter durante décadas a coluna “Natureza”, no Jornal do Brasil. O primeiro texto, “Estado de sítio”, fazia referência à mudança para a área rural e era também uma provocação à ditadura em que o país estava mergulhado.
Semear palavras
Durante anos escrevendo sobre diferentes espécies de plantas e animais, o poeta então iniciante se tornou mais popular do que o esperado. “Muitas vezes, as matérias saíram nas mesmas páginas que as crônicas de Rubem Braga e Clarice Lispector”, contou. “Uma vez o Drummond escreveu uma crônica sobre a minha [coluna], foi uma força extraordinária que ele me deu. Mas nunca o abordei, sempre fui muito envergonhado.”
A popularidade inesperada levou Fróes a pedir demissão do cargo por acreditar que ficaria mais conhecido como jardineiro do que como poeta. Foi então que seu editor no Jornal do Brasil sugeriu que publicasse os textos literários com seu nome real e adotasse um pseudônimo para a coluna sobre plantas. Assim nasceu Solano de Castro, nome misterioso por trás da segunda encarnação da coluna de crônicas, agora chamada de “A arte de plantar”.
Sua fraqueza era a poesia, para pegar emprestado os versos iniciais de um de seus poemas mais conhecidos, “Maluco cantando nas montanhas”. “De certa forma, escrever poesia é plantar palavras. Nos meus poemas, nunca estou escrevendo de forma usual. Estou fazendo enxertos, semeando palavras”, disse em junho.
Sua outra grande paixão, a natureza, foi tema do seu livro Natureza: a arte de plantar (Cepe, 2021), organizado pelo professor Victor da Rosa, que reúne parte das centenas de colunas que Fróes publicou durante as décadas de 70 e 80 no extinto Jornal do Brasil, e que mais tarde foram reproduzidas em outros veículos.
N’A Feira do Livro, Tarso de Melo brincou com Fróes sobre a pergunta feita por uma pessoa da plateia no dia anterior — se o escritor de 84 anos acreditava no fim do mundo —, para dizer que pensou numa questão ainda mais difícil para abrir a conversa: “Leonardo, qual a melhor planta para se ter num apartamento?”.
Bem-humorado, o poeta sugeriu espécies mais resistentes, como comigo-ninguém-pode (“que sobrevive até nos botecos do Rio”), espada de São Jorge e costela de Adão, assim como a jiboia. Sobre o fim do mundo, no entanto, disse não ter ainda uma resposta. “Dizem que o sol vai se resfriar em algum momento e isso vai impedir a vida na Terra. Mas isso é planejado para milhões de anos, então não estaremos aqui.”
Colaborações
Em 2020, em entrevista no podcast 451 MHz, Fróes ainda falou sobre como o ato de caminhar inspira poetas e pensadores desde a Antiguidade. Poeta da natureza, das trilhas e estradas, falou sobre poesia, literatura, filosofia, macetes de tradução — e sobre a opção pela vida no meio do mato.
Fróes era colaborador frequente da revista Quatro Cinco Um. Em maio, falou sobre Virginia Woolf no podcast 451 MHz. Em suas resenhas mais recentes, escreveu sobre as versões em português de Lord Byron, grande poeta romântico, duzentos anos depois de sua existência, e sobre Catulo e sua lírica sexuada, após mais de 20 séculos de uma vida sem vestígios.
CORREÇÃO > Uma versão anterior desse texto dizia que Fróes morreu na sexta, 24 de novembro, mas sexta foi dia 21 de novembro.
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