Crítica Literária,

Cordial discordância

Dramáticas, mas cheias de afeto, cartas entre Mário de Andrade e Alceu Amoroso Lima mostram que divergir pode ser uma arte

30abr2019 - 22h00 | Edição #22 mai.2019

Os dois nasceram em 1893. Alceu, de família rica com perfil aristocrático, pôde fazer parte de seus estudos na França. Mário, vindo de meio bem mais modesto, formou-se professor de piano no Conservatório Dramático e Musical, na capital paulista. Sua geração foi a primeira a chegar à idade adulta, já no Brasil republicano, podendo pesar os acertos e — muito mais — os erros do novo regime. Sua avaliação demonstrou que tudo ainda precisava ser feito. Jovens como Alceu Amoroso Lima, Mário de Andrade e tantos outros — os que participaram do movimento modernista, da renovação católica no Centro Dom Vital, do movimento Escola Nova, da Ação Integralista Brasileira, do incipiente Partido Comunista — se atribuíram como tarefa dar ao país uma nova direção. 

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Alceu Amoroso Lima ou Tristão de Athayde — nome usado para assinar suas crônicas — foi o primeiro crítico a comentar a poesia de Mário de Andrade (o livro Pauliceia desvairada, de 1922), na coluna dominical de O Jornal, do Rio, em 1923. Depois de um encontro pessoal, os dois iniciaram, em 1925, uma correspondência, que, com alguns intervalos, perdurou até pouco antes da morte do poeta, em 1945.

Este importante conjunto de cartas é publicado em versão integral, pela Edusp e puc-Rio, com organização e notas de Leandro Garcia Rodrigues. O volume é enriquecido com anexos que contêm os comentários que os amigos fizeram um sobre o outro em artigos e notas, algumas inéditas. 

É conhecida a trajetória de Mário. Principal representante do movimento modernista, defensor do nacionalismo cultural nos anos 1920, folclorista, chefe do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo de 1935 a 1938, diretor e professor do Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal, colaborador do ministro Gustavo Capanema na criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico. 

Menos conhecida hoje é a trajetória de Alceu. Começou como crítico literário em 1919. O contato com Jackson de Figueiredo, do Centro Dom Vital, motivou sua conversão ao catolicismo. Tornou-se a principal liderança leiga católica no país até sua morte em 1983. Foi autor de dezenas de livros, professor de literatura brasileira na Universidade do Brasil (atual UFRJ) e fundador da PUC-Rio. Por anos foi um crítico feroz tanto do comunismo quanto do liberalismo, defendendo posições muito dogmáticas. Quando o conheci, nos anos 1970, era um homem sereno, de muita autoridade, extremamente gentil — e um dos críticos mais contundentes do regime militar de 1964.

O espírito do catolicismo

Alceu e Mário partilhavam de preocupações muito semelhantes, mas, em geral, as expressavam de forma muito diferente — por vezes, com grandes divergências. Dois temas mais importantes são abordados nas cartas. O primeiro diz respeito ao peso do catolicismo na formação do Brasil. Da apreciação desse assunto dependeria uma orientação para se intervir na vida do país. Para Alceu, o Brasil é um país católico. Ele reconhecia que o espírito da catolicidade estava adormecido, mas era urgente despertá-lo. A Igreja precisava assumir um papel de liderança na condução da vida nacional. Mário se baseava em suas pesquisas de muitos anos sobre cultura popular para afirmar uma posição oposta. Entre os brasileiros, a adesão ao catolicismo era superficial e tosca. Ele tinha razão quando afirmava que não se devia contar com as religiões para formular um projeto de nação. 

Mário tinha razão quando afirmava que não devíamos contar com as religiões em nosso projeto de nação

O segundo tema das cartas pode ser expresso numa pergunta. É possível fazer crítica literária ou  mesmo exercer atividade intelectual quando se toma por referência uma verdade inquestionável de qualquer natureza, seja de ordem religiosa ou política?

O problema foi apresentado por Mário num comentário sobre Estudos, de Alceu, feito em 1931, retomado no livro Aspectos da literatura brasileira, de 1943. Nele, Mário afirmava que, com a conversão de Alceu, o Brasil tinha perdido seu melhor crítico literário para ganhar um pensador católico sectário. Ele faria a mesma avaliação negativa a propósito de Mitos de nosso tempo, livro de Alceu de 1943. Para o modernista, a dependência de qualquer crença, seja católica, seja comunista, comprometeria o exercício da crítica.

Segundo Mário, a fruição e a avaliação de uma obra de arte exigem a suspensão de toda posição interessada. Apenas com a suspensão de todo parti pris, a obra poderá ser vista em sua inteireza. Uma posição interessada pode ser tanto um ponto de vista político quanto uma doutrina moral ou o saber de um especialista. Assim, quem for capaz de se aproximar  sem preconceitos de uma obra de arte experimentará a fruição estética como uma entrega, até mesmo amorosa. Esse seria o pressuposto de qualquer crítica. 

A reação de Alceu se deu em dois tons. Em primeiro lugar, acusou Mário de ser também um sectário, não da grande Igreja Católica, mas de alguma igrejinha, como as dos moços que andava frequentando. Em outro tom, argumentou que a referência a um princípio superior, como Deus, não invalidaria a imparcialidade da crítica. Ao contrário, seria como um princípio de ordem moral inspirador do bom ajuizamento. Para Alceu, Mário também reconheceria, sem explicitar, a existência de um valor inquestionável que o guiava em seu trabalho.  

As cartas do início dos anos 1940 apresentam intensa carga dramática. Ao comentar o sectarismo de Alceu, Mário amplia suas considerações: “A civilização vai mudar, Tristão. A Civilização Cristã chamada, e que não sei se algumas vezes V. não confunde um bocado com Cristo, está se acabando e vai ser um capítulo da História.” 

A discussão não é conclusiva. No Natal de 1943, Alceu escreveu uma carta comovente em que confirmava sua grande amizade. “Sou muito diferente de você — a distância que separa um extremista e um antiextremista. Mas sempre o amo como a um amigo verdadeiro e o admiro como um mestre autêntico.” 

Em 1944, ao assumirem de forma transparente as divergências, a amizade se fortaleceu. Dois grandes homens conversavam. Que falta nos fazem conversas assim!  

Quem escreveu esse texto

Eduardo Jardim

Professor de filosofia, é autor de A doença e o tempo: aids, uma história de todos nós (Bazar do Tempo) e de Eu sou trezentos: Mário de Andrade, vida e obra (Edições de Janeiro).

Matéria publicada na edição impressa #22 mai.2019 em abril de 2019.