Literatura brasileira,

Cartas entre modernistas

Correspondência de Mário de Andrade com o amigo Rodrigo M. F. de Andrade traz discussões sobre o patrimônio artístico do país

19out2023 - 17h59 | Edição #76

Mário de Andrade e Rodrigo Melo Franco de Andrade se conheceram ainda nos anos 20. As primeiras cartas, de 1928, tratam do pedido feito por Rodrigo de um texto de Mário de Andrade sobre o Aleijadinho para um número especial de O Jornal, de Belo Horizonte, dedicado a Minas. Mário de Andrade conhecera o artista mineiro em uma das duas viagens que fizera em 1919 e 1924 e já preparava seu estudo “O Aleijadinho”, que seria incorporado mais tarde a Aspectos das artes plásticas no Brasil, nas Obras completas.

Ambos pertenceram à geração que promoveu, com o movimento modernista, a renovação da vida intelectual do país. O modernismo pretendeu inserir o Brasil no concerto das nações modernas, tendo assim um perfil universalista. Em um primeiro momento, os modernistas acreditavam que o sucesso de sua proposta dependia apenas da incorporação no contexto brasileiro das linguagens artísticas modernas. Em 1924, o movimento ingressou em uma outra fase. O ideal universalista permaneceu, mas ganhou uma nova feição: os modernistas passaram a defender que só pela afirmação dos traços nacionais da nossa produção artística e cultural seria possível assegurar a entrada no âmbito universal. Disso decorreu o aparecimento das várias vertentes nacionalistas, que vão desde o Pau-Brasil e a Antropofagia de Oswald de Andrade até o movimento verde-amarelo de Plínio Salgado.

Dentro desse contexto, Mário formulou diversas soluções para a questão da brasilidade. A primeira consistia em localizar no elemento popular o critério de definição da identidade nacional. Daí a enorme importância atribuída pelo escritor ao folclore. As manifestações folclóricas, ao atravessarem os tempos, parecem guardar uma identidade que pode ser associada ao caráter nacional. Também a valorização da tradição artística é um recurso na fixação da identidade brasileira. 

Mário de Andrade não é um preservacionista. Sua ideia de patrimônio artístico e cultural está vinculada à preocupação com a fixação da identidade brasileira e representa um estímulo para a produção contemporânea. Não é casual que a área específica de sua responsabilidade no Departamento de Cultura, quando foi seu diretor, tenha sido a de expansão cultural.

Em 1935, Mário de Andrade foi chamado pelo ministro Gustavo Capanema para elaborar o anteprojeto do futuro Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). Entre as suas atribuições como formulador do SPHAN estava a indicação de um nome para dirigir a nova repartição. Ele logo sugeriu ao ministro o nome de Rodrigo Melo Franco de Andrade, que foi prontamente aceito.

Diferente de Mário, que já apresentava um sólido e reconhecido currículo como escritor, o autor mineiro tinha apenas um livro de contos, Velórios, de 1936, e sua trajetória era como jornalista e advogado e, na política, assessor do ministro Francisco Campos. Sua sensibilidade para as questões relativas à preservação do patrimônio devia ser notória, o que explica o convite feito por Mário.
Não por acaso, o resgate e o estudo do patrimônio artístico é o assunto central nas principais partes de toda a correspondência de Mário e Rodrigo, que está reunida em Mário de Andrade/Rodrigo M. F. de Andrade: correspondência anotada, lançada pela editora Todavia, com organização de Maria de Andrade.

A correspondência pode ser dividida em dois tempos distintos. O primeiro cobre os anos de 1936 a 1939 e foi interrompido pela estadia de Mário no Rio de Janeiro, de 1938 até o início de 1941. O segundo vai de 1941 a fevereiro de 1945, poucos dias antes da morte do autor dos poemas de Pauliceia desvairada.

A direção do Departamento de Cultura foi uma virada na vida de Mário, tanto que chegou a chamar essa experiência de ‘salvadora’

As cartas dos primeiros três anos correspondem ao momento da criação do SPHAN e da direção de Mário no Departamento de Cultura da cidade de São Paulo. Ele ocuparia este cargo até 1938, tendo sido destituído logo depois da implantação do Estado Novo e de todas as mudanças políticas que se seguiram. O Departamento tinha cinco divisões que se ocupavam tanto do incentivo à produção cultural quanto da preservação do patrimônio.

Ele também foi contratado como assistente técnico do Serviço na 6ª Região. Pode-se acompanhar pelas cartas a complicada burocracia para a criação do SPHAN, desde a apresentação do projeto de Mário de Andrade até sua efetiva implantação em 1937. Também, a essa altura, começaram os primeiros tombamentos, acolhidos com má vontade pelo clero e pelos proprietários que temiam a desvalorização de seus imóveis. Mais adiante, Rodrigo providenciou a publicação da Revista do SPHAN. Mário colaborou com um artigo sobre a capela do sítio Santo Antônio, em São Roque, que mais tarde ele haveria de comprar para ser doado ao Patrimônio depois de sua morte.

Um momento cativante dessa etapa da correspondência tem a ver com a iniciativa de Rodrigo de organizar um livro comemorativo dos cinquenta anos de Manuel Bandeira, em 1936. Mário, um dos maiores amigos do poeta, foi logo convidado a participar. No entanto, ele estava ocupado com um enorme volume de trabalho na direção do Departamento e não conseguiu aceitar o convite. Rodrigo insistiu — chegando até a considerar o cancelamento do projeto, pois sem a participação do amigo o projeto não faria sentido. Finalmente, chegou-se a uma solução. Mário colaboraria com um poema — “Rito do irmão pequeno” — e uma carta.

Experiência salvadora

Nas cartas, Mário de Andrade comenta com Rodrigo sua atuação à frente do Departamento de Cultura. Foram muitas as suas iniciativas nesse período. A direção do Departamento significou uma virada na sua vida, tanto que chegou a chamar essa experiência de “salvadora”. Ela provocou a ruptura de um viés individualista na vida e obra do escritor e a entrada em uma ocupação que tinha um sentido claramente social. A criação de uma discoteca pública, de uma biblioteca ambulante, de conjuntos musicais, de cursos para a formação de pesquisadores em etnografia e a organização de uma expedição ao Nordeste foram algumas realizações do Departamento.

O patrocínio do 1º Congresso da Língua Nacional Cantada, em 1937, é lembrado na correspondência. O evento teve o intuito de estabelecer uma pronúncia padrão para o canto e a interpretação teatral a ser usada em todo o país. Dele participaram aproximadamente cem congressistas, vindos principalmente de São Paulo e do Rio de Janeiro, como Manuel Bandeira, Cecília Meireles e o filólogo Antenor Nascentes.

Já no período da correspondência de 1941 a 1945, Mário está de volta a São Paulo. Ele não é mais o chefe da 6ª Seção, mas continua trabalhando para o SPHAN. Uma importante incumbência lhe foi atribuída — o estudo da vida e da obra do artista do período colonial padre Jesuíno do Monte Carmelo, que trabalhou na região de Itu. Mário se dedicou de forma apaixonada ao trabalho até 1944. O livro, intitulado Padre Jesuíno do Monte Carmelo, publicado postumamente na coleção do SPHAN é sua última obra.

Em junho de 1941, Mário declarou ao amigo: “Agora vou me atirar ao frei Jesuíno”. Em outubro, terminou a pesquisa bibliográfica e passou a chamar seu objeto de estudo de “meu” padre Jesuíno. Em seguida, começaram as viagens de pesquisa pelo interior de São Paulo, especialmente a Itu.

Desde 1942, Mário de Andrade já tinha definido a estrutura do trabalho. Em primeiro lugar, ele se ocupou da vida do artista. Essa parte foi redigida em forma literária mais livre. A segunda consistiu em um estudo técnico da obra do padre Jesuíno. Apêndices foram acrescentados: notas muito detalhadas e fotos das obras do pintor.

O escritor tinha a intenção de dedicar o livro a Rodrigo e o consultou a respeito. O amigo reagiu — não era conveniente constar a dedicatória em um livro publicado pelo SPHAN dirigido por ele. O estudo saiu sem a dedicatória e com um prefácio de Rodrigo, mas sem sua assinatura.

Os anos de redação de Padre Jesuíno foram penosos para Mário. Ele relatou em diversas passagens de suas cartas as doenças que o deixavam por muito tempo indisposto. Por outro lado, há momentos de grande satisfação, como por ocasião da compra do sítio Santo Antônio, em São Roque, em 1944, e do 1º Congresso de Escritores realizado em São Paulo, em janeiro de 1945. Os dois amigos hesitaram antes de decidirem comparecer. Eles achavam que o congresso não conseguiria reagir, como seria necessário, à situação política do momento, com o país ainda sob uma ditadura.

Mário explicou: “Um congresso de ‘Intelectuais’ num regime destes, ou sai bagunça, tiro, prisão, ou é o avacalhamento da ‘Inteligentzia’ nacioná”. Afinal os dois amigos compareceram e, na última carta a Rodrigo, Mário de Andrade afirmou que vivera o congresso com “prodigiosa intensidade” e com “monstruosa seriedade”. Chegou mesmo a confessar que o congresso tivera para ele o sentido de um coroamento da sua carreira. Poucos dias depois, ele morreria de ataque cardíaco, aos 51 anos, deixando sem resposta as duas últimas cartas de Rodrigo.

O livro serve como uma apresentação de Rodrigo Melo Franco de Andrade, importante figura intelectual

Em 1981, Lélia Coelho Frota organizou para o SPHAN a publicação de Mário de Andrade: cartas de trabalho, com a correspondência de Mário para Rodrigo Mello Franco. As cartas eram acompanhadas de notas e um importante prefácio. Tudo isso foi incorporado a Correspondência anotada, junto a novas notas de Clara de Andrade Alvim, além das de Frota. A atual publicação inclui também as cartas de Rodrigo Melo Franco de Andrade.

O livro foi feito com esmero. Contém as notas, textos de apresentação e um apêndice com documentos importantes: o anteprojeto de Mário de Andrade, de 1936; o decreto presidencial que instituiu o SPHAN, de 1937; e os primeiros relatórios encaminhados ao órgão pelo escritor. Além disso, traz uma riquíssima iconografia, com fotos de Erich Joachim Hess, Herman Graeser, Marcel Gautherot e Pierre Verger, e imagens de arquivo inéditas.

A publicação de Correspondência anotada é relevante sob vários aspectos. Ela abre novas perspectivas para se considerar a biografia dos dois missivistas. No caso de Rodrigo Melo Franco de Andrade, menos conhecido que Mário, serve como uma apresentação de importante figura intelectual. O livro também ilumina uma época quando instituições como o SPHAN foram criadas. Além disso, trata-se de uma contribuição para a história do nosso modernismo, possibilitando a apreciação de mais um aspecto da ampla gama de atividades de iniciativa do movimento. 

Quem escreveu esse texto

Eduardo Jardim

Professor de filosofia, é autor de A doença e o tempo: aids, uma história de todos nós (Bazar do Tempo) e de Eu sou trezentos: Mário de Andrade, vida e obra (Edições de Janeiro).

Matéria publicada na edição impressa #76 em novembro de 2023.