Cinema,

O poeta do cinema

Em tradução direta do russo, textos de Dziga Viértov mostram como o cineasta e teórico elevou o documentário a estado de arte

01out2022 - 04h51 | Edição #62

 

O título do ensaio de Roman Jakobson, de 1931 , vale como uma divisa retrovisora e profética: “A geração que esbanjou seus poetas”. Ao diagnosticar o recém-suicida Maiakóvski, fez o prognóstico do destino de honrosa legião de artistas na estação terminal stalinista. No corpus defunto e insepulto, a (v)arar os campos das letras às artes plásticas, brilha a obra cinematográfica de Dziga Viértov (1896-1954). Além de obras-primas como O homem com a câmera (1929), Entusiasmo (Sinfonia de Donbass) (1930) e Três cantos sobre Lênin (1934), ele é autor de consistente obra teórica. Criou conceitos-chave vertidos em filmes: kino-glaz (Cine-Olho: a vida apanhada de surpresa, 1924) e kino-pravda (Cine-Verdade, série de cinejornais, 1922-25).

Cine-Olho: manifestos, projetos e outros escritos, com tradução, organização, apresentação e notas de Luis Felipe Labaki, é objeto de devoção cultural para os estudos do cinema e da literatura. Livro-relicário de impecável primor, equivale a obras-te-sésamo sobre gênios do cinema como Hitchcock/Truffaut (1966), This is Orson Welles (1992, Peter Bogdanovich), Jean-Luc Godard Documents (2006, Nicole Brenez) e Eisenstein at Work (1982, Jay Leyda e Zina Voynow). A obra de Viértov é pródiga em prodígios, e o trato prodigioso que lhe deu o jovem pesquisador paulista não merece economias nos encômios.

Divididos em oito partes cronológicas, de 1918 a 1954, os escritos do diretor de A sexta parte do mundo, em tradução direta do russo, incluem manifestos (como “Kinocs. Revolução”), artigos (“Sobre meu amor pelo homem vivo”), rascunhos (“Minha trajetória”), propostas (“Um dia do mundo”), roteiros (“O homem com a câmera”) e poemas (“Start”). Operando no gênero khrônika (filmes de não ficção), ele elevou o documentário ao estado de arte. Sua prática fílmica é indissociável da reflexão teórica, daí o valor do livro, que ainda alça a laçadas decisivas a montadora Elizaviêta Svílova (1900-75), com quem Viértov se casou em 1923.

O caudaloso volume de 704 páginas é um manancial-matrióchka de maravilhas. Labaki explica a recuperação e a recepção dos escritos de Viértov na ex-União Soviética e alhures e exibe atualização bibliográfica e intervenção crítica, com notável manejo de fontes primárias e erudição metodológica.

Nomear as coisas

Em coro com padrões de transliteração e com o foco na grafia como canal de pronúncia, o tradutor propõe Viértov em vez de Vertov. Se nomear as coisas é um vetor da função poética, o expediente é timbre do extraordinário projeto consumado no livro. David Ábelevitch Kaufman adotou o prenome com que a babá ucraniana o chamava: dziga (pião). Segundo o cinegrafista Mikhail Kaufman, seu irmão e parceiro, o vocativo reverberava o som (“d-z-z-z”) dos pratos da mesa de montagem em movimento. O nome traz as figuras do vento (viéter) e do girar e rodar (vertiét).


Cenas do filme O homem com a câmera (1929) [Divulgação]

A criteriosa edição contextualiza Viértov em vertente histórico-estética e realiza atilada análise textual. Lista as influências vindas de vários fronts: psiconeurologia experimental, música de Scriábin, produção de agitação e propaganda, construtivismo, poesia futurista de Maiakóvski e Khliébnikov. Com referência às fontes primárias, o organizador oferece regalos de rigor, como nas alusões ao RGALI (Arquivo Estatal Russo de Literatura e Arte). Exemplos: menções a estenograma de reunião de estúdio, a cópias autenticadas e assinadas de documentos, ao datiloscrito “Sobre o estilo, o método e o título do filme” — este é um documento inédito, publicado pela primeira vez na edição brasileira.

Cabe lembrar que Dziga Viértov advogava ‘a decifração comunista da realidade

As preciosas introduções e as minuciosas notas comprovam a excelência do trabalho do pesquisador, cuja dissertação de mestrado na Universidade de São Paulo (USP), em 2016, versou sobre os escritos de Viértov. Nada escapou de seu radar; ou quase. Senti falta de uma menção a Peter Kubelka, restaurador do sincronismo sonoro de Entusiasmo, “um dos mais fascinantes experimentos do início do cinema sonoro”, segundo o tradutor.

Autor que manifesta o específico do cinema e desafia seu caráter intermediático, Viértov tem forte pegada literária. Das telas — convocou Ródtchenko para desenhar cartelas de filmes — a letra vaza na composição de artigos e na apresentação de projetos. Antes de Man Ray chamar Emak bakia (1926) de cinépoème, Viértov deu a Kino-Pravda nº 13 (1922) o subtítulo Um cine-poema dedicado às comemorações de Outubro. Já Kino-Pravda nº 21 (1925) é Um cine-poema sobre Lênin. E definiu Canção de ninar como “cine-poema sobre a mulher soviética” em 1937, quando se achou “o único autor-realizador de filmes poéticos”.

A presente publicação é atual por sua “retórica social-tecnológica focada em práticas midiáticas” (John MacKay) e seu incentivo à arregimentação de coletivos. A guerra na Ucrânia traz outras lentes para Sinfonia de Donbass, de seu “período ucraniano” (1927-31). E cabe lembrar — para horror dos autoritarismos de extrema direita — que Viértov era um intransigente procurador-geral da república do povo e das artes revolucionárias, advogando “a decifração comunista da realidade”.

Rastreando os ecos restritos da recepção de Viértov no país, Labaki repara que, em 12 de fevereiro de 1954, o cineasta morria de câncer no estômago em Moscou enquanto em São Paulo se inaugurava o Festival Internacional de Cinema do Brasil. Na ocasião, Paulo Emílio Sales Gomes programou O homem com a câmera, cuja possível “exibição inaugural em solo nacional” talvez “tenha sido também uma das primeiras sessões póstumas do filme no mundo”. O que pode ser coincidência póstuma seria algum augúrio para os pósteros. Em tempos de tanta paupérie, não convém esbanjar a parca poesia que ainda nos resta.

Quem escreveu esse texto

Carlos Adriano

Doutor em cinema pela USP, escreveu Peter Kubelka: a essência do cinema (2002) e dirigiu o filme A voz e o vazio: a vez de Vassourinha (1998).

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.