Cinema,

Devoto incorrigível

Reedições de obras do crítico Ismail Xavier reforçam atualidade de suas pesquisas, reflexões e da própria experiência cinematográfica

20nov2018 - 17h06 | Edição #12 jun.2018

Sétima arte. O termo é corriqueiro para se referir ao cinema, mas poucos conhecem ou explicam sua origem. Ismail Xavier é um deles. Em Sétima arte: um culto moderno (1978), que passou anos esgotado e agora é relançado em versão revista e ampliada pelas Edições Sesc São Paulo, o crítico dedica um capítulo inteiro ao intelectual italiano Ricciotto Canudo, que cunhou a expressão em 1912.

A busca pela raiz da expressão no manifesto de Canudo — que concebia a experiência estética do cinema como “complemento da vida” e propôs a ampliação da lista originária das seis formas artísticas propostas por Hegel — revela um traço marcante do brasileiro: seu rigor de análise e pesquisa. Marca também sua opção por abordar o momento de inflexão em que o cinema — resultado direto de uma nova tecnologia — passa a ser percebido como arte e se legitima como objeto de estudo, até mesmo acadêmico.

Cinema refletido

Ainda que tenha sido publicado depois de O discurso cinematográfico A opacidade e a transparência (1977), Sétima arte é o primeiro trabalho reflexivo de Ismail, elaborado a partir de sua dissertação de mestrado concluído na Faculdade de Letras da USP em 1975.

O livro traça uma genealogia do pensamento sobre o cinema na virada do século 19 e início do século 20, num resgate não só histórico, mas também político, ideológico e social. Embora mantenha o foco na teoria francesa (com seu pioneirismo natural) e nos Estados Unidos (com laços mais fortes com a indústria de entretenimento), ele dedica a segunda parte do livro ao Brasil (com produção e ponderações um tanto primitivas). 

Se o cinema é apelidado como uma arte a mais, Ismail argumenta que o seu desenvolvimento se dá pela contraposição às demais formas artísticas. Os adeptos da nova arte acreditam na “existência de algo nas próprias coisas que, estando descoberto, será desvendado pela imagem cinematográfica”; concluem pela superioridade desta e se tornam seguidores desse “culto moderno” — num sacerdócio criticado pelo autor.

Os pensadores da época veem dicotomia inclusive dentro do próprio cinema, com oposição entre o filme e o ator como vedete (bandeira carregada por Louis Delluc), entre palavra e gesto (este último como a única expressão fiel da verdade da sociedade), entre documental e ficcional (que Dziga Vertov identificava como lugar de mentira e alienação associado a um modelo burguês de cultura), entre a produção francesa e a americana.

Em se tratando de Brasil, o crítico deixa claro que o cinema se estabeleceu num país industrialmente atrasado, sem uma cultura do livro consolidada. A chegada dos cinematógrafos com produções exclusivamente estrangeiras revela, ainda, uma face peculiar do colonialismo tropical: eles não são vistos como dominação, tem-se orgulho da rápida assimilação da novidade pela população.

A sétima arte é valorizada nos meios intelectuais nacionais, como indica o primeiro número da publicação lançada por Mário de Andrade e outros integrantes da Semana de Arte Moderna de 1922: “[A revista] Klaxon sabe que o cinema existe. (…) A cinematografia é a criação artística mais representativa da nossa época. É preciso observar-lhe a lição”. 

Contudo, o crítico deixa clara sua percepção de que questões morais e pedagógicas (essas oriundas do mimetismo em relação ao cinema americano) deixaram o debate estético em segundo plano no Brasil. Isso talvez explique sua preocupação, em obras posteriores, como Sertão mar: Glauber Rocha e a estética da fome e Alegorias do subdesenvolvimento, em demonstrar o valor da plástica do cinema brasileiro moderno.

A predileção pelos cinemas de vanguarda (e mesmo underground como forma de contestação do modelo dominante americano) já estava anunciada no livro de 1978, mas se consolida em A experiência do cinema (1983), em que Ismail abraça a dicotomia arte versus indústria.

A obra, também esgotada e relançada há alguns meses, reúne textos de autores estrangeiros que sofisticam a investigação sobre o pensamento cinematográfico, formando um corpo teórico que evidencia o entendimento do cinema como “um olhar que ultrapassa limites definidos pela cultura”.

Deslumbramento

Se Sétima arte padece do acesso restrito do autor a filmes e material de pesquisa — Ismail se valeu principalmente de acervos particulares, como o de Paulo Emílio Sales Gomes, seu orientador —, pode-se ver a obra de 1983 como resultado do deslumbramento com as fartas bibliotecas de Nova York, onde viveu de 1975 a 1980.

Não espanta que, 35 anos depois, a coletânea ainda seja referência acadêmica no Brasil. Mais do que uma simples compilação, trata-se de material instrumental na composição da imagem que Ismail faz da sétima arte: desde a codificação do cinema clássico, passando à exploração de novas dimensões (poética, sonora, visual, onírica) até chegar à relação mesma do espectador com o filme, numa dimensão quase corpórea.

Escapando à ingrata posição em que se colocou no primeiro livro — “no meio de duas devoções: uma estilizante, outra cientifizante”, como declararia mais tarde —, o crítico consegue dar um passo importante e aborda o cinema enquanto experiência humana individual, com maior interferência de aspectos filosóficos e psicanalíticos.

Salta aos olhos, porém, a ausência de Gilles Deleuze. É também de 1983 a primeira publicação de A imagem-movimento: cinema 1, na qual o francês devolveu o tempo como ingrediente fundamental do cinema moderno — o texto deve ter escapado do radar do brasileiro já de volta às nossas terras.

Ainda que a “relação filme/espectador” seja destacada por Ismail na introdução de Experiência, a preocupação com o que acontece na sala escura é comum às duas obras. Daí o leitor sentir falta também de menções a filmes, até como exemplos concretos daquilo que se teoriza — deficiência especialmente forte no primeiro livro. O próprio autor viria a reconhecer, posteriormente, que é “importante olhar o filme e menos o que está em volta”. 

O caráter excessivamente teórico das obras resulta em reflexões que podem soar desinteressantes para o leitor não especializado. Mas não se pode negar que, talvez por isso mesmo, os livros contribuíram para que o cinema ganhasse status no Brasil, até como ciência.

Ismail, que foi aluno da primeira turma da ECA e se tornou professor emérito da escola no final do ano passado, continua ensinando “sétima arte” ao cinema brasileiro. Mas talvez pudesse moderar sua crítica à exaltação do “culto moderno” e reconhecer que o cinema continua sendo “a criação artística mais representativa de nossa época”, quase um século depois da declaração dos modernistas.

Afinal, sua trajetória pessoal deixa evidente que, se o cinema é um culto moderno, Ismail Xavier personifica seu devoto mais incorrigível. 

Quem escreveu esse texto

Helen Beltrame-Linné

Graduada em direito pela USP e em cinema pela Sorbonne-Nouvelle, foi diretora da Fundação Bergmancenter. 

Matéria publicada na edição impressa #12 jun.2018 em junho de 2018.