Ciências Sociais,

A morte não lhe cai bem

Como os homens não conseguem encarar de frente seu próprio fim, cada sociedade constrói uma “mentira vital” sobre sua imortalidade

13nov2018

O antropólogo norte-americano Ernest Becker [1924-74], vencedor do Pulitzer com A negação da morte, afirmava que o homem, por seu caráter narcisista, não consegue conceber a própria mortalidade. Por isso, cria o que ele chamou de “mentira vital” sobre sua perpetuidade, buscando construir formas heroicas de sobreviver à morte do corpo. Essa negação faria parte da composição do nosso ser e até justificaria muitos problemas da sociedade moderna ocidental.

A negação provoca uma interdição, um tabu descrito por Freud como um sentimento de ambivalência. Para o psicanalista, o que origina um tabu é o desejo. A ambivalência consiste no fato desse desejo ser direcionado a algo considerado perigoso. No caso da morte, seria o desejo inconsciente da morte de outras pessoas. 

A sociedade passa a compreender a morte como algo sagrado e, ao mesmo tempo, impuro. Freud conclui que o perigo da morte está no contágio, por isso, o medo de tocar os mortos. Aqueles que infringem um tabu correm o risco de incorporá-lo. 

Esses pontos podem nos ajudar a compreender o livro Sobre a morte: invariantes culturais e práticas sociais, organizado pelo antropólogo francês Maurice Godelier, que reúne pesquisas etnográficas de antropólogos em catorze comunidades ao redor do mundo, em diferentes períodos. 

Godelier chama de “invariantes” as bases comuns para as diversas elaborações culturais diante da morte. Não é um livro fácil de ler, por falta de contextualização de certos locais e períodos e de esclarecimento de terminologias, assim como escolhas feitas pela tradução. 

Podemos partir da premissa de que a morte de uma pessoa desestabiliza o coletivo no qual ela está inserida. Talvez, a falta de compreensão sobre o que acontece com quem desapareceu e o desejo de que as coisas voltem ao normal originem uma série de narrativas e, principalmente, condutas a serem seguidas. 

A primeira narrativa trata do surgimento da morte. Em todas as comunidades estudadas, a morte não existe desde o início dos tempos. Ela não é natural. Cada região tem uma forma particular de explicar sua origem, em mitos que se perpetuam como códigos de conduta presentes em diversas esferas. Por exemplo, há formas particulares de lidar com o moribundo em seus últimos momentos. Na China, na Índia e no budismo Tai, não se pode expressar a dor na frente do moribundo. Já entre o povo Baruya, da Melanésia, é uma manifestação obrigatória.

O homem, por seu caráter narcisista, não consegue conceber a própria mortalidade

Esses códigos se perpetuam na forma de preparação do corpo, do ritual e do luto. Na Roma Antiga, a preparação dos cadáveres era uma tarefa das mulheres. Na Índia, elas lavam o corpo e aplicam uma pasta de sândalo com açafrão e manteiga clarificada nos orifícios da face. No judaísmo, o ritual de purificação (taharat) é uma forma minuciosa de lavagem do corpo, começando pela cabeça. Entre os Baruya, o corpo não é preparado porque se decompõe dentro da casa onde morava, e as viúvas/viúvos usam pedaços como relíquias, como dedos ressecados, alinhados em um colar. Entre os Tai, o cabelo do morto é penteado com um pente que deve ser quebrado na frente de todos. 

A opção entre enterro ou cremação é uma marca muito forte em cada lugar e segue princípios específicos, como a localização do ritual (dentro ou fora da comunidade), a composição do cortejo (homens na frente, mulheres atrás), se serão coletivos e grandiosos ou simples e restritos. 

Na Índia, as cinzas são dispersadas em rios. O Ganges é o mais conhecido deles, por ser considerado sagrado de acordo com o mito que narra a origem dos tempos e do próprio morrer. Em algumas províncias da China, os ossos são desenterrados após alguns anos e colocados em ossários. Esse “duplo enterro” já foi muito comum ao redor do mundo. Hoje, a exumação é usual no Brasil e chega a ser obrigatória em diversas cidades. Não há leis federais no nosso país que regulamentem o serviço funerário, mas isso é assunto para outro momento. 

A prática do enterro no judaísmo contribuiu para que fosse possível identificar os intensos processos migratórios que ocorreram especialmente a partir do século 19 até a Segunda Guerra Mundial. A fé na ressurreição dos corpos não permite a cremação, que permanece um tabu.

Muitos povos deixam rastros no retorno do cortejo para despistar o morto e impedi-lo de segui-los. Os Baruya jogam plantas mágicas enquanto correm de volta ao vilarejo. Entre os hindus, o principal parente do morto despedaça seu crânio com uma vara de bambu, libertando a alma, que se lança no ar em forma de uma chama azul, mas corre o risco de permanecer como um espectro. Por isso, deixa-se espinhos e fios de algodão para desorientar o espírito. 

Luto

Após o enterro ou a cremação, inicia-se o processo de luto, que aparece também como uma série de condutas a serem respeitadas. Há vestes específicas e formas diversas de demonstrar a dor. Os Baruya cortam a testa e deixam o sangue escorrer, os indianos raspam a cabeça, os Ngaatjarra, da Austrália, vão para “espaços de tristeza”. Na China, há um código restrito chamado “os cinco graus do luto”, que identifica o parentesco com roupas e atribuições específicas. 

É comum os familiares não poderem cozinhar na primeira semana. Na Índia e entre os judeus, os vizinhos ou outros parentes devem alimentá-los. A aparência do enlutado demonstra dor: cabelos desarranjados, barba por fazer, roupas desarrumadas. No judaísmo, rasga-se um pedaço da roupa no enterro, que deve ser usada por uma semana. Camas e cadeiras são viradas ao contrário e espelhos recobertos com lençóis ou panos. Senta-se e dorme-se no chão. 

O luto costuma durar um ano, como na Índia e no judaísmo. Mas, em alguns casos, dura bem mais, como entre o povo Sulka, da Papua-Nova-Guiné. Os bens do morto devem ser transmitidos entre todas as pessoas do grupo, em troca de uma quantia em dinheiro, em um ciclo que leva muito tempo para se completar.

Nascimento e morte

A morte é explicada como oposição ao nascimento, e não à vida. Ela separa aquilo que, no início, foi unido. As religiões monoteístas (cristianismo, islamismo, judaísmo) dizem que o corpo é constituído por uma alma. Algumas etnias consideram noventa, outras 32, e os chineses, dez. Para os Tai, essas almas são dispersivas, elas passeiam. O corpo pode ficar doente se demorarem muito para voltar. O rito de “evocação das almas” se torna essencial para unir os componentes.

Há uma diversidade de crenças que justificam o fato de a morte não ser o fim da vida, mas todas parecem remeter às ideias de Ernest Becker, da negação do fim como algo enraizado em nossa psique narcisista. Entre as comunidades estudadas no livro, há aquelas que veem a imortalidade como a necessidade de permanecer vivo na memória, e as que criam novas “moradas dos mortos”. Na Grécia Antiga, por exemplo, o esquecimento era mais temido do que a morte, e a memorização oral era encorajada por cantos poéticos e orações fúnebres que exaltavam os mortos. Quando eram lidos em voz alta, “faziam reviver a memória do desaparecido”. 

Na China, era fundamental deixar um renome póstumo e permanecer na memória dos vivos. O culto ao ancestral, traduzido como “devoção filial”, era muito importante. Ele só podia ser praticado por homens e se constituía na entrega de oferendas aos ancestrais. Se não fosse cumprido, esses ancestrais fariam mal aos parentes vivos. Por isso, é tão importante na China, até hoje, ter descendentes do sexo masculino. 

A compreensão de uma sociedade passa pela forma como ela lida com a morte. Nesta hora, a maioria se volta para os rituais em busca de conforto

Entre o povo Miranha (Amazônia), o anonimato é a única forma de garantir a imortalidade. O nome do morto não pode ser pronunciado e o local onde ele morou deve ser evitado. Acreditam que sua alma vire estrela. Segundo o autor dessa etnografia, Jean-Pierre Ducloux, isso é reflexo do quase genocídio que esse povo enfrentou durante o crescimento da indústria automobilística, com a exploração da borracha. O esquecimento foi a forma que encontraram de deixar de ser vítimas e filhos de vítimas. 

Essas “moradas dos mortos” podem ser supraterrestres ou intraterrestres, superiores ou inferiores, ou outras dimensões dentro desse nosso mundo. Em muitas ocasiões, são necessários testes ou julgamentos para alcançá-las. Nem sempre são consequência de condutas morais. 

No Islã, a morte é uma continuação da vida e um tempo intermediário até o Juízo Final. Como diz o autor dessa etnografia, Christian Jambet “o interrogatório feito pelos anjos Munkar e Nakir é um dos acontecimentos mais temidos pelos mulçumanos”. Esses anjos verificam se o morto viveu de acordo com a lei e os costumes proféticos. Dependendo de sua reposta, “o espaço estreito da sepultura se amplia e o morto vê suas angústias se dissiparem ou, ao contrário, o espaço se estreita ainda mais e, na opressão física das paredes, o morto pressente sua futura condenação”. Os que morrem a serviço de Deus, em combate (jihad), são poupados desse interrogatório, e seus pecados são perdoados, garantindo o caminho ao paraíso.  

É comum a morte ser vista como uma libertação, como no hinduísmo, ou salvação, como no cristianismo e no islamismo. O hindu nasce com uma dívida que deverá ser quitada ao longo da vida por meio do cumprimento rigoroso dos rituais e da devoção ao deus escolhido. Após a cremação, o deus da morte, Yama, julgará se ele deve reencarnar, seguir ao mundo dos deuses ou se fundir ao universo. A libertação é alcançada quando a dívida da vida é paga e cessa o processo de sucessivas reencarnações, vistas como um fardo. 

Nas religiões que prometem uma salvação, a vida é uma preparação para a morte. A pessoa não tem uma dívida congênita quando nasce, mas acumula pecados que serão analisados no dia do Juízo Final, que antecede a ressurreição dos corpos. Algumas seitas do Islã acreditam na ressurreição física do corpo, outras, apenas do espírito. No judaísmo, espera-se a ressurreição física, mas alguns rabinos leem essa passagem dos textos sagrados como metáfora. 

Culpa e contágio

Se os rituais funerários não forem cumpridos como indicado, poderão ocorrer consequências graves. O morto poderá ser transformado em um espírito maléfico que assombra os vivos ou ir para um “mundo inferior”. Na Idade Média cristã, as aparições de espíritos, ou sonhar com eles, eram consequência de rituais que não foram conduzidos corretamente. Podemos ter herdado daí o sentimento de culpa que muitas vezes acompanha o luto no Ocidente. 

Na China, essa culpa é ainda mais latente. A morte separa dois tipos de almas. As sutis, yang, e as sombrias yin. O ritual fúnebre tem o objetivo de indicar a morada delas. As sombrias deveriam ir para o túmulo, e as sutis, para a “placa votiva” da família, instalada no altar doméstico, ou em um templo da linhagem familiar, onde ela aguardará até reencarnar em algum descendente. Na Índia, também há essa responsabilização dos vivos pelo destino dos mortos. Entre o povo Tai budista, a reencarnação depende totalmente dos atos meritórios realizados pelos parentes vivos. 

Retomando Freud, o tabu repercute no medo do toque, e a maioria das comunidades vê a morte como algo impuro e perigoso. Na Índia, os negócios pessoais do morto são banidos por um ano. Na Roma Antiga, todas as pessoas e coisas que entraram em contato com o morto deviam ser purificadas pela água e pelo fogo e desinfetadas com fumigações. 

No judaísmo, joga-se fora toda a água da casa, por medo de que tenha sido contaminada pelo Anjo da Morte. Entre os Sulka, a morte é tão contagiosa que a maior preocupação desse povo é sobreviver à morte dos outros. Como, para eles, toda morte tem um autor presumido e uma morte atrai outra, o ritual do luto serve para proteger a comunidade. Entre os aborígenes, tudo o que o morto possuía é interditado e se torna tabu. 

Diferente da morte, a velhice não é considerada algo contagioso, mas o comportamento diante dela muda muito entre as comunidades. Por exemplo, na Grécia Antiga, era vista com repugnância. Tudo o que distancia homens de deuses é ruim, e a iconografia grega demonstra bem essa exaltação aos jovens. Entre o povo Baruya, a velhice não inspira respeito, pois equivale à perda da autonomia. O mito sobre o nascimento da morte entre os Sulka vê a velhice como uma vilã: um dia, em vez de responderem ao apelo lançado por um caranguejo, responderam ao de um sapo e foram privados da capacidade de mudar de pele como faz o crustáceo. 

As mulheres

Pouco se fala sobre os rituais relacionados ao enterro feminino. O próprio organizador do livro identifica essa falha e admite que, em sete anos de pesquisa de campo com os Baruya, não viu um enterro feminino nem se perguntou se o ritual aconteceria da mesma forma. 

As mulheres são citadas em duas etnografias como praticantes de um suicídio considerado honroso. Na China, elas se matavam quando os maridos morriam, o que era encorajado, considerado uma virtude e trazia boa reputação à sua linhagem. Na Índia, as viúvas deviam se jogar na pira funerária junto ao marido. No sul da Índia, as jovens que se matavam por rejeitar um casamento arranjado eram veneradas como deusas. 

O antropólogo Émile Durkheim entendia que a sociedade deveria ser estudada como um todo, como um conjunto de crenças e significados que são maiores que a simples soma de seus indivíduos. De fato, um mergulho nas formas de conduzir a morte e o luto nos demonstra isso. 

A compreensão sobre como uma sociedade vive e se organiza passa, necessariamente, pela forma como lida com a morte e com os mortos. Muitos rituais se dissiparam ao longo dos anos ou foram proibidos. E apesar de vermos crescente o número de agnósticos ou ateus, na hora da morte, a maioria se volta para os rituais em busca de conforto. Por isso, ouso apostar que, se existe mesmo uma tendência de diluição dos rituais que marcam as passagens de nossas vidas, aqueles relacionados à morte serão os últimos a cair.  

Quem escreveu esse texto

Camila Appel

É escritora, fundadora do blog Morte sem Tabu, roteirista da TV Globo e documentarista.