Ciências Sociais,

Contra a camisa de força identitária

Reconhecimento da própria identidade não pode ser sinônimo de enclausuramento cultural, afirmam escritoras e artistas negra, judia e indígena

03dez2023 - 04h27 | Edição #76

Uma negra que só passou a se identificar com a negritude aos vinte anos, uma judia que também se define como budista e teve uma segunda mãe preta e uma indígena que faz questão de afirmar que os povos originários também são povos urbanos protagonizaram neste sábado (2), no Festival Literário do Museu Judaico de São Paulo, um encontro de diferentes mundos. Reunidas na mesa “Quando foi que me descobri?”, a escritora negra Bianca Santana, a atriz e dramaturga judia Clarice Niskier e a autora e educadora indígena Márcia Mura foram convidadas a debater seus diversos processos de descoberta da própria identidade e se tornaram agentes dos momentos mais emotivos deste 2º FliMUJ, que vai até domingo (3). 

Histórias de avós, coincidentemente, abriram as comportas da comoção. Mura, que nasceu e vive às margens do rio Madeira, no Amazonas, disse que sua identidade foi aprendida com a avó que lhe “ensinou a ouvir o canto dos pássaros, a navegar pelas águas e andar na floresta”. Niskier recordou os últimos instantes de vida da avó, judia e imigrante, que lhe ensinou a “amar o Brasil de uma maneira linda” e, perto de morrer numa cama de hospital, encontrou força para cantar “Cidade maravilhosa” com a neta. E Santana lembrou dos avós que “vieram todos do Nordeste”, de regiões da Bahia e Alagoas próximas ao rio São Francisco, terra ao mesmo tempo de muitos povos indígenas e de tradição negra, principalmente quilombola. 


Clarice Niskier em mesa do FliMUJ

As origens diferentes e bem definidas, no entanto, em pouco tempo ficaram para trás. “A minha identidade é confusa, sou uma judia que foi educada para também ser brasileira”, disse Niskier, que há 17 anos encena sua adaptação para o teatro de A alma imoral, livro do escritor e rabino Nilton Bonder que parte de conceitos bíblicos e filosóficos para refletir sobre as ideias de certo e errado e a necessidade de romper limites. “Sempre vivi entre dois mundos. O mundo do real e o do imaginário, o mundo judaico e o brasileiro, o mundo da poesia e o mundo pragmático. Não existe em mim uma integração que não seja feita de dualidade. Isso me constitui.”

Em tom confessional, a atriz revelou pela primeira vez diante de uma plateia que via como uma segunda mãe a sua babá Nilda, uma mulher preta que deixou os próprios filhos em Minas Gerais e foi trabalhar para a família Niskier no Rio de Janeiro. “Todo mundo fica dizendo que eu não devo contar essa história, pois parece que fui uma privilegiada com uma escrava em casa”, disse. “A Nilda não foi escrava, mas sei que o trabalho doméstico veio da escravidão, eu fui aprendendo. Mas o que eu faço com meu amor por ela?”, perguntou dirigindo-se a Santana.    

Quando você contou a história da Nilda, senti que você teve raiva”, comentou a autora de Quando me descobri negra, lançado em 2015 e reeditado em 2023. “Não te respondi com minha raiva porque hoje eu consigo, por uma série de razões, elaborar essa raiva, compreender o seu amor e falar da falta de escolha da Nilda como uma marca da violência que essa história provoca em mim”, prosseguiu Santana. “Nem todo mundo tem condições de fazer essa elaboração para não devolver a violência.”

Identidades fragmentadas

O espectro da babá conduziu a conversa para um questionamento às camisas de força identitárias, que muitas vezes desconsideram personalidades individuais e a complexidade da vida social. “A identidade não é única. A nossa identidade é composta de muitos fragmentos e ela vai mudando”, disse Santana. “Eu não quero viver enclausurada por uma ideia de negritude. Quero vir ao Museu Judaico e conseguir olhar para a Fernanda [Diamant, editora que mediou a mesa], ouvir histórias da família dela que veio da Ucrânia e sentir que se aproximam muito do que aprendi com a minha avó.” 


Bianca Santana em mesa do FliMUJ

Destacando a própria condição de negra de pele clara, a escritora lembrou que durante uma viagem à África foi acolhida como etíope na Etiópia (um dos dois únicos países africanos que europeus não conseguiram colonizar), queniana no Quênia (onde predominam pessoas de pele mais escura) e marroquina no Marrocos (cuja maioria da população é de origem berbere ou árabe). Ela atribui isso à sua aparência miscigenada, o que lhe garante o que chamou de “passabilidade” (do inglês passing), fenômeno pelo qual alguém que se considera parte de um determinado grupo racial pode ser aceito como integrante de outro.   

Mas para a autora, cujo mais recente lançamento é o infantil Diálogos feministas e antirracistas (nada fáceis) com as crianças, a experiência da “passabilidade” no Brasil não reproduz aquela observada em outros países, como os Estados Unidos. “O passing brasileiro significa que as pessoas da minha cor trabalham em posições subalternas, seja no emprego doméstico, seja na limpeza dos lugares. São as pessoas que ocupam as cadeias e os corpos que a gente mais vê no IML [Instituto Médico Legal]. Então o passing, pardo no Brasil, significa ser alvo de políticas de extermínio.”

Guerras e paz

Recusar a ideia de identidades estanques não significa, para as convidadas da mesa, abrir mão da necessidade de resistência. Mura, que em 2022 publicou Tecendo memórias do povo mura e outros parentes, em que compila saberes ancestrais do seu povo, falou sobre a experiência coletiva de sua comunidade no combate a invasores da terra indígena. “Nós guerreamos por cem anos, com nosso conhecimento geográfico e nossas próprias estratégias de guerra, para barrar exploradores europeus que queriam levar nosso cacau originário da Amazônia”, disse. “Com inteligência, porque até hoje tem gente que acha que nós não temos inteligência”, continuou, acrescentando que ainda se sente perseguida pelo Estado brasileiro por sua atuação como ativista.


Márcia Mura em mesa do FliMUJ

A menção ao tema da guerra, num momento em que o mundo passa pelos mais destrutivos conflitos armados em décadas — e tanto os confrontos na Palestina quanto na Ucrânia têm conotações raciais e identitárias —, trouxe um reforço do valor do diálogo. Questionada sobre como o budismo modificou sua vida, Niskier lembrou das palavras de um monge do Sri Lanka que, em meio a um tiroteio no antigo templo budista de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, não interrompeu a sessão de meditação.

Ele disse exatamente assim: ‘você, quando quis paz, porta do tempo aberta. Paz, momento difícil. Senta na estrada pra mato não fechar, estrada da paz aberta’. Isso foi uma lição. Às vezes as bombas estão caindo, podem um dia cair na nossa cabeça, mas se pisarmos na estrada da paz, o mato não fecha. O que a gente está fazendo aqui não é bobagem. Com esse diálogo, a gente está mantendo a estrada da paz aberta.”

Quem escreveu esse texto

Vitor Pamplona

Matéria publicada na edição impressa #76 em novembro de 2023.