Literatura brasileira,

Despedidas do pai

Em novo romance, Natalia Timerman fala das pequenas chances que nos chamam antes do ‘nunca mais’

07ago2023 - 12h48 | Edição #73

Este livro é uma joia. Daqueles que você abraça, de tão lindo. Quer manter perto do peito. Às vezes escondido, às vezes escancarado para todo mundo ver. Reluzir, o medo. Todo grifado e com marcas de lágrimas. Momentos-tesouro eternizados nesta escrita particular da identificação.

Ao narrar a perda de seu pai, Natalia Timerman consegue nos colocar em cena. Identificamos sentimentos e percepções que nem sabíamos que tínhamos. Na leitura, parecem óbvios. São nossos, também. Eu li a primeira parte em um arquivo pdf, com marca d’água do meu nome e sobrenome bem no meio de cada página. Parecia me dizer: “Essa é você, amanhã”. Ou será que já sou, hoje? Fico me perguntando qual é o início do fim. Tento sentir algum alívio na prospectiva da dor. Ah, então será assim. Pode ser bonito. Dilacerante, também.

A narradora Natalia diz: “Perdi o medo do luto e dos seus rituais”. Eu ainda estou na leva dos que se desesperam com o fim. Com a prospectiva terrível do nunca mais. “É sempre tão pouco tempo perto do nunca mais, e nunca mais é tanto tempo”, escreve Natalia. Ela nunca mais veria Artur, o Tutu, o Tuta. O pai, em um sábado às 9h43, suspirou pela última vez. Na leitura, senti que esse se tornou o horário dele. Em cada segundo que alguém nasce e alguém morre, algo se dissipa no ar. O experimento do peso da alma, os 21 gramas. É um mito. Não se pesa o que some do mapa.

Um sepultador me disse que a morte é um ponto no tempo. Desse ponto, Natalia faz o caminho reverso

9h43, sábado de Carnaval. A hora em que abriu uma fenda no tempo, no espaço, no corpo de Natalia. Como é possível o mundo continuar, o relógio seguir e marcar 9h44? Um sepultador, Osmair Cândido, me disse um dia que a morte é um ponto no tempo. Só isso, um ponto no tempo. Desse ponto, Natalia faz o caminho reverso.

O último abraço do pai, a última alimentação, a última foto, a última gargalhada, a última peça de teatro. A cena é inesquecível: pai, marido e filha irrompem Teatro Oficina adentro. O pai, no andador, acompanhando a entrada da trupe de atores vestidos de anjos pretos. Invadindo o meio da cena enquanto cantavam e dançavam.

Quando somos mais novos, sentimos o tempo passar mais devagar. As emoções das primeiras vezes mais intensas. O primeiro beijo, a primeira viagem, a primeira embriaguez. Na morte, as últimas coisas também têm essa sensação. A iminência dos últimos. Ela não espera um instante, como diz o título do conto “Espere um instante” de Lucia Berlin, citado por Natalia.

Fendas

A narrativa de As pequenas chances começa com um encontro no aeroporto. À espera de um voo, a filha reencontra o médico paliativista que cuidou de seu pai. Será que ele lembraria o nome dela? Sim, ele lembra. Os cuidados paliativos são uma especialidade da medicina, muitas vezes chamada de filosofia. “Os paliativistas sempre puxam uma cadeira para se sentar”. Os congressos parecem uma turma de acampamento celebrando um encontro. De repente, param, falam sobre assuntos sérios, pesquisas. Dali a pouco já se abraçam e perguntam sobre famílias, pacientes. Contam histórias, se emocionam. Por isso é bonito ser o olhar amoroso desse médico, quatro anos depois, o que desenrola  o fio da despedida de Natalia do seu pai.


As pequenas chances, de Natalia Timerman

O pai também esperou — os paliativistas dizem que a morte espera — sua outra filha, Gabi, engenheira naval, vir de uma embarcação em alto mar lá em Camarões. Ela estava ao lado dele no último suspiro. O pai não seria entubado — decisão tomada por uma família de médicos, e que muitas outras não tomam por falta de informação sobre os momentos finais. A medicina tradicional não costuma operar em nome de conforto, mas de protocolos e falta de comunicação, de medo das conversas difíceis. Assim, muitos acabam não tendo a possibilidade de vivenciar esse grande acontecimento que Natalia e sua família testemunharam. O acontecimento de um corpo parando de funcionar.

A morte é estranha. Rídicula. Bonita. Morrer, não. Morrer não deveria ser um verbo 

Natalia está no aeroporto a caminho da Ucrânia, para a olimpíada de matemática do filho mais novo, mas sua jornada paralela é descobrir as origens de sua ancestralidade. A busca pelo ponto inicial da emigração judaica da Rússia para o Brasil aparece como um desvio de percurso deste torneio de matemática que não deu certo. Nas páginas finais, ficamos sabendo que a viagem não aconteceu, a autora pegou emprestadas outras memórias — da jornalista Thais Bilenky, cuja avó nasceu no mesmo vilarejo que o avô de Natalia, e a quem a autora endereça a carta que constitui o epílogo do livro —, misturadas ao que ela poderia ter vivido, caso tivesse feito a viagem que tinha planejado.

Pode ser pequenez minha, mas senti uma leve decepção ao perceber que a viagem que acompanhei nas páginas nunca aconteceu. Até aquele momento, eu estava mergulhada em As pequenas chances como uma experiência real, acompanhando nomes verídicos, descrições verídicas. A mistura me causou estranhamento.

Os rituais fúnebres são teatrais, como o enterro e a cerimônia que o antecede. Me sinto um pouco má ao afirmar isso, como se fosse pejorativo ver algo tão simbólico como teatral. A associação parte da sequência roteirizada de eventos, em que cada um tem um papel a encenar. Um roteiro ancestral. No enterro de Artur, Natalia se sente a protagonista.

O judaísmo é apresentado no livro como a religião que compreende os mortos como memória, história a ser preservada. Os rituais fúnebres oferecem uma série de etapas e uma delas é rasgar a roupa dos familiares do morto, um símbolo lindo. A visibilidade da dor. Talvez a sabedoria ancestral queira, com esse ritual — rasgar a roupa e depois jogá-la fora —, reiterar que é também no plano material que o luto acontece, prenunciar o que sentiremos ao lidar com os objetos que ficam.

Natalia esvazia o armário do pai, divide pertences com os irmãos e com a esposa dele. O cheiro das camisetas. Ela fica com o computador, acessa os e-mails. Na hora, pensei: o que vão encontrar ao revirar o meu computador, o meu armário? E importa? “A morte é abstrata mas dói em detalhes concretos, e essas duas instâncias, a concreta e a abstrata, nunca se encontram, daí a estranheza”, escreve no livro. A morte é estranha. Ridícula. Bonita. Um acontecimento. Morrer, não. “Morrer não deveria ser um verbo, é o oposto do verbo. Ao morrer, findam-se as conjugações. O tempo verbal. O tempo”, afirma a autora. Gilberto Gil parece concordar. Na canção “Não tenho medo da morte”, ele diz que estar morto tudo bem, o problema é “o medo de morrer”.

O título As pequenas chances foi crescendo em mim durante a leitura. “Sempre achamos que haverá tempo suficiente para as perguntas mais importantes.” O nunca mais é inevitável. As pequenas chances também. Estão ao redor. Latentes, nos chamam.

Estou tentando aproveitar as minhas. Até o limite da experiência.

Quem escreveu esse texto

Camila Appel

É escritora, fundadora do blog Morte sem Tabu, roteirista da TV Globo e documentarista.

Matéria publicada na edição impressa #73 em agosto de 2023.