Flip, Literatura,

O piso frágil do presente

Romance de Bessora mostra as relações entre nazismo, ‘apartheid’ e a contemporaneidade

07nov2022 - 15h36 | Edição #64

Duas crianças são enviadas para adoção. Duas crianças alemãs no pós-guerra, Wolfgang e Barbara, gêmeos, depois de viverem até os oito anos em um orfanato. Elas vão acompanhadas de dezenas de outras, todas brancas, ou melhor, arianas, que viajam da Alemanha rumo à África do Sul como parte do projeto de substituição da população negra por aquela que Hitler denominou de raça pura. Na partida, fotógrafos e políticos dão a dimensão do festejo público que aquela ocasião significa para os dois países; a voz de Wolfgang, ainda menino, narrando desde um presente que transcorre e modifica essa mesma voz, dá a dimensão íntima e trágica daquela brusca transformação de sua vida e da de sua irmã gêmea, para quem a história é sempre narrada.


Os órfãos, primeiro romance de Bessora publicado no Brasil

É assim que se inicia Os órfãos, primeiro romance de Bessora publicado no Brasil. Mas os sofrimentos dos gêmeos não param por aí. Os tempos de orfanato são idílicos perto do que os espera numa pequena cidade da África do Sul. Seus pais adotivos, Michèle e Lothar, protestantes, africâneres, encarnam a hipocrisia que há por trás de seu fanatismo religioso. Não tarda muito para os gêmeos flagrarem Lothar recebendo sexo oral da esposa do pastor e para vir à tona que o pai adotivo visita a filha no escuro da noite. Michèle também não demora para mostrar seu lado cruel e ressentido. Professora da escola onde os filhos estudam, ela tenta dissipar a infelicidade conjugal e a vergonha por não ter conseguido engravidar escrevendo um livro em que prega a importância da separação das raças.

A fazenda onde os gêmeos passam a viver e onde se cultiva o vinho com trabalho negro é “terrivelmente bonita”. Vivem ali também Jacob, o avô, e a única criatura por quem ele demonstra afeição, seu cachorro; Graça, a criada da família; e Thando, seu filho, que logo se afeiçoa aos irmãos. As relações entre esses personagens são determinadas por sua cor, mas não por isso tratadas de forma a simplificá-las. Graça, negra, protege e cuida de seus senhores como se o ancião não agredisse cotidianamente seu filho; os gêmeos são inicialmente excluídos pelos colegas na escola por serem brancos demais. É entre os zulus, em um ritual com Mongezi, colega de Gustav Jung, que Wolfgang tem os vislumbres iniciais do que podem ter sido seus primeiros anos durante a guerra que matou seu pai. 

É para o mesmo ritual oferecido pelos zulus que Wilhelm, o filho que Michèle consegue enfim parir, é levado; os cabelos dele, crespos, e sua pele que se bronzeia facilmente são o indício de que a família Schultz guarda muitos e inadmissíveis segredos. 

Fica nítida a fragilidade de democracias por baixo das quais pairam os escombros de genocídios 

De sofrimento em sofrimento, o tempo transcorre, palco dos absurdos do século passado na África do Sul. Um passado próximo demais: a década de 90 ainda viu o apartheid; um passado não tão localizado, pois a narrativa se expande para a França e volta para a Alemanha, onde os racismos vêm à tona. Marianne, a segunda filha de Wolfgang, que tem a pele escura por herança de sua mãe, indiana, é confundida com uma babá por uma europeia que se surpreende pela gafe: “Como eu me confundi assim, se não sou racista?”, ela se pergunta. 

Imaginação prolífica

Bessora nasceu em 1968, em Bruxelas, mas tem ascendência gabonense, suíça, francesa, alemã e polonesa. Trabalhou com finanças por muitos anos até estudar antropologia e lançar seu primeiro romance, em 1999. Desde então, publica quase um livro por ano. Se isso já não é marca suficiente de uma imaginação prolífica, podemos encontrá-la em sua escrita, na construção do enredo de Os órfãos, assentado sobre segredos que se revelam continuamente sem se esgotar e sem, revelando-se, interromper o fluxo da narrativa. A infância dos irmãos Schultz seria, por si, material suficiente para todo um romance, mas a voz de Wolfgang narra também, de modo infatigável, seu crescimento, suas mudanças, seus casamentos e a busca por sua origem. 

E se não há descanso para o narrador, tampouco há para o leitor. Como romance que tematiza algumas das principais feridas que o século passado nos legou, Os órfãos não oferece pontos de apoio: quase não há rotina para que se instaure uma proximidade convidativa dos personagens, tudo é acontecimento, tudo é motor, quase tudo é tragédia. Num mesmo dia, enquanto num canto do mundo Wolfgang protagoniza uma briga de bar, sua irmã Barbara o faz saber depois que a fazenda de seus pais adotivos assistiu, no intervalo de minutos, a um assassinato, uma morte por acidente, outra por infarto e um aborto. 

Quando há elementos prosaicos, eles mais servem como contraste que como tomada de fôlego narrativo, como em “Ele tira um papel velho do dossiê e o coloca sobre a toalhinha, entre os cravos e o bolo. Helge olha para o documento como se lhe queimasse os olhos”, os cravos e o bolo como que sublinhando a excepcionalidade do dossiê sobre a desnazificação feito pelos aliados no pós-guerra. 

A voz de Wolfgang também não pode ser tranquilizadora ao narrar as agruras que a História imprime a sua vida. Trata-se de uma pessoa volúvel, impulsiva, muitas vezes egoísta e leviana que, no entanto, se transforma, o que se deixa ver principalmente na diferença entre sua relação com a primeira e a segunda filha, a quem enfim consegue se dedicar como pai e amar. Cartas da irmã e da mãe adotiva se alternam a esse narrador, assim como passagens em forma de um diálogo que se dá no futuro, no entorno de um Wolfgang moribundo que não tem mais como narrar.

Um dos grandes méritos de Os órfãos é tornar nítida a íntima relação entre apartheid e nazismo, e como suas consequências vigem até a contemporaneidade. Fica nítida, também, a fragilidade de democracias por baixo das quais pairam os escombros de passados e de genocídios jamais suficientemente elaborados. No Brasil, encontra-se uma delas, e nunca, desde o fim da ditadura, estivemos mais próximos dessa verdade, de que nosso solo democrático pode se esfacelar a qualquer momento.

Quem escreveu esse texto

Natalia Timerman

Psiquiatra e escritora, é autora de Copo vazio (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.