Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

Beleza invisível

Em Dias perfeitos, somos guiados pelo olhar do personagem para o sublime do cotidiano, em uma Tóquio que em nada lembra a metrópole de ruas vibrantes

01maio2024 - 04h03 • 13maio2024 - 15h29
Hirayama (Koji Yakusho) em cena de 'Dias perfeitos' (Reprodução)

Com o céu ainda escuro, o primeiro som do dia vem do sussurro suave do atrito da palha contra o asfalto da rua — uma senhora varre a calçada. É um anúncio de despertar, o início de uma rotina que se assemelha a uma coreografia desenvolvida sem esforço. Hirayama (interpretado por Koji Yakusho, que recebeu o prêmio de melhor ator em Cannes e também da Japan Academy pela atuação) desperta sem sobressaltos, organiza cuidadosamente o colchão dobrável e os lençóis dispostos sobre o tatame, faz a barba, borrifa água nas plantas cultivadas sob uma lâmpada ultravioleta. Recolhe pequenas moedas e as chaves. Ao abrir a porta de casa, seu olhar se volta para cima. Não é apenas um olhar para o céu, tão incomum para todos nós que já nos habituamos a sair de casa muitas vezes absortos na aceleração dos pensamentos e dos afazeres. Um dia que começa não é pouco, o ritual de deslocar os olhos é um pequeno momento de contemplação que registra devidamente sua importância.

A coreografia continua, agora já fora de casa. As moedas são utilizadas em uma máquina que cospe uma lata de café, tomado já dentro do carro. Nas costas do macacão de todos os dias é possível ler The Tokyo Toilet. E é assim que Tóquio se apresenta em Dias perfeitos, de Wim Wenders: a pequena escala do bairro afastado se conecta com a metrópole. Mas não é a cidade que costumamos ver retratada em cenas noturnas de arranha-céus imponentes, repleta de neons nas ruas vibrantes. Acompanhamos Hirayama nos espaços abertos de praças e parques, onde trabalha limpando os banheiros públicos.

Os banheiros que roubam a cena no filme foram construídos para os Jogos Olímpicos de 2020

Assim como um dia que começa não é pouco, limpar banheiros públicos também não o é. Hirayama limpa torneiras, registros e vasos sanitários com devoção. Tampouco são banheiros quaisquer. São peças impressionantes de arquitetura pública. Um deles é formado por três caixas de vidro colorido inteiramente transparentes e integradas à paisagem em volta. O vidro se torna opaco quando a porta é trancada por dentro, jogando com a visibilidade de um espaço que é, por excelência, de privacidade. Em outro, acessar os sanitários se faz por uma trilha de madeiras expostas, como se fosse o caminho de uma floresta convidativa. O equipamento é elevado a obra de arte.

Mas o sublime está no olhar de Hirayama para o mundo. Limpando sanitários, ele mesmo é invisível para a maior parte das pessoas. Quase não ouvimos sua voz, somos antes guiados a suas observações. Ele vê beleza na luz passando pela copa das árvores enquanto almoça um sanduíche e, sentado num banco, tira fotos do céu. Percebe pequenas mudas nos parques, que retira cuidadosamente da terra, levando-as para casa em um vaso-origami que carrega no bolso. Ajuda uma criança perdida na praça, promovendo o reencontro com a mãe, que nem sequer o agradece. Há imensa satisfação nessas observações cotidianas. E são contatos que só poderiam acontecer em um espaço que promove interações sociais, ainda que efêmeras.

Hirayama vive fora do tempo. Tira fotos com uma câmera de filme, ouve músicas antigas em fitas cassete, lê livros de papel. Limpar banheiros é uma tarefa ordenadora, num quadro em que tudo pode ser controlado e organizado para que funcione perfeitamente — e para que o dia possa seguir seu curso exatamente igual, sem projeções para o futuro. É uma postura não apenas de solidão, como de profunda renúncia. Não sabemos o que o levou a essa vida — e uma das belezas do roteiro é deixar qualquer explicação em aberto. Da interação com a sobrinha, que chega sem aviso à casa dele, é possível entrever a ruptura familiar. Podemos projetar um acontecimento trágico, uma dor profunda. Ou podemos simplesmente admitir a hipótese de que talvez não seja preciso um grande acontecimento desencadeador para que se possa decidir por uma vida austera, cuja ambição está em ver sentido em cada passo.

Limpeza e reverência

Dias perfeitos é, em parte, um filme sobre o espaço público dos banheiros de Tóquio. O personagem que passa a maior parte do dia limpando os sanitários não tem, ele mesmo, chuveiro ou banheira em casa. Faz uso de um lavatório público, em que se paga para tomar banho — lugar impensável para a maioria de nós. Em uma sociedade tão desigual quanto a brasileira, também é impensável que não tenha qualquer cena de violência no uso dos banheiros públicos: não há assédio ou depredação. Não há nem mesmo escatologia, vemos limpeza e reverência ao que é público.

Nem todos os banheiros públicos de Tóquio são assinados por arquitetos renomados. Os que roubam a cena no filme foram construídos originalmente para os Jogos Olímpicos de 2020, que, diante da pandemia, tiveram que ser postergados para o ano seguinte, sem público. Não houve estreia dos banheiros assinados. E é por isso que esse filme existe. Wenders foi comissionado por um conjunto de empresários japoneses para divulgar o projeto. E o nome que lemos no macacão de Hirayama não é da empresa municipal de limpeza, e sim do projeto que levou adiante uma mudança de percepção desses equipamentos na cidade, abarcando dezessete banheiros em Shibuya.

É aqui também que a história parece não funcionar. A recusa completa do protagonista — da família, das relações amorosas, do tempo — é inconciliável com um emprego em uma plataforma de limpeza de banheiros. Hirayama não usa celular e não precisa prestar contas a ninguém quando seu ajudante decide deixar o emprego, sua rotina é desorganizada e, pela primeira vez, é necessário ligar, de um celular antigo, para o empregador, que prontamente envia uma nova pessoa para o trabalho, sem que muito precise ser dito. É como se o personagem estivesse, também, fora do capitalismo. É difícil imaginar alguém empregado na limpeza de banheiros-conceito de Tóquio que não tenha que reportar cada passo do próprio dia. É um personagem que não parece encontrar as condições de existência nas estruturas do mundo de hoje.

Apesar disso, Dias perfeitos impressiona pelo jogo entre visível e público, por um lado, e invisível e íntimo, por outro. É magistral na trilha sonora, ecoando Lou Reed no título, e também no olhar humano para o que importa.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).