Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

Cartografia da repressão

Entre a história e a fabulação, ‘Madri 1940’ relata o avanço do fascismo sobre o espaço urbano, onde controlar território é também garantir poder

01abr2024

Madri, minha Madri, era o fantasma de uma cidade, uma desolação de cães e bondes, com a praça Cibeles recém–desvendada, como uma múmia, a Puerta de Alcalá como um peito de pedra e de metralha, Carlos III fuzilado por Franco, carteiros mortos nas esquinas e a derrota comendo de si mesma, nos terrenos baldios, entre gatos e cachorros que desjejuavam morte e jantavam fuzilados no meio da noite, sob a lua cheia do medo.

Um fantasma, uma múmia, um terreno baldio, uma desolação. Madri se revela como um vulto de uma cidade que já havia sido e agora havia deixado apenas alguns rastros que permitiam que fosse reconhecida, a praça Cibeles e a Puerta Alcalá como âncoras de orientação em meio às ruínas.

O escritor espanhol Francisco Umbral [Elisa Cabot/Reprodução]

Somos apresentados a Mariano Armijo, personagem principal de Madri 1940: Memórias de um jovem fascista, em sua chegada à cidade, logo depois da Guerra Civil ter sido vencida pelo general Francisco Franco em 1939, com apoio fundamental das tropas nazifascistas. Armijo é um jovem disposto a cavar seu espaço em meio aos vencedores, com a obstinação necessária para ascender socialmente e com uma bússola moral bastante frouxa para permitir que os degraus fossem rapidamente escalados. A ambição se voltava para uma carreira literária ou jornalística; o personagem vê a si mesmo como um homem de letras.

A insígnia da Falange que usava no uniforme e no terno indicava sua filiação a José Antonio Primo de Rivera, um dos fundadores do partido e ditador da Espanha entre 1923 e 1930. Mas suas convicções não eram ardorosas. Numa conversa com Dionisio Ridruejo, um escritor e político de viés autoritário, é convidado a se juntar à unidade militar de voluntários espanhóis que se perfilaram com Hitler contra a Rússia, ao que responde: “Mas eu queria ser falangista em Madri, no mais confortável da Falange”.

Somos guiados por Armijo em sua busca por um apoio confortável à ditadura, que lhe garantisse benefícios a curtíssimo prazo, como acesso a doses de uísque inglês e à cama de uma série de mulheres, mas também mais longos, como uma almejada fama pelos artigos e poemas publicados em jornais. Numa pensão pobre, estabelece contato com Juan Aparicio Lopes, que assumiu posição central na censura da imprensa espanhola, para quem oferecia textos. Com tempo livre, Armijo se perfila entre aqueles que esperam para ver Franco e, assim, estabelece contato com a amante de um dos ministros do regime:

Eu era um daqueles que, à espera de um emprego, de uma colaboração qualquer, se juntavam ao povo comum nas filas para ver o Caudilho e saudá-lo à romana, como me ensinara Juan Aparicio, porque a fila para ver Franco era como a fila dos ovos, do óleo, da roupa ou do Cristo de Medinaceli, a quem iam pedir coisas os poucos que não precisavam de nada.

Suas andanças pela cidade revelam uma radiografia da vida pública
de Madri sob o domínio imediato de Franco, entre jornais, cafés, cinemas, galerias. É um mapa dos lugares e das pessoas que de fato importavam para o poder; há uma apresentação dos costumes da época, em que Armijo, como um cronista, nos abre as camarilhas das ruas, do debate público, das festas e das alcovas. E aqui vemos como Francisco Umbral tece, com maestria, fios entre a história e a fabulação. Madri 1940 transita entre o registro histórico, com figuras que de fato existiram, como Ridruejo e Juan Aparicio, mas navega no terreno ficcional.

Madri não é apenas um pano de fundo contra o qual a arquitetura de poder franquista se desenvolve

Em sua luta sem escrúpulos para abocanhar uma fatia do pão da vitória franquista, Armijo traça uma cartografia da repressão. E, aqui, Madri não é apenas um pano de fundo contra o qual a arquitetura de poder franquista se desenvolve. A cidade é inteiramente parte do mapa, na medida em que o personagem principal relata o avanço do fascismo sobre o espaço urbano, onde controlar o território é também garantir poder:

Os instrutores da Escola de Comandantes José Antonio eram a mais esmerada imitação do nazismo. As Tropas Universitárias eram mais afins a um fascismo mussoliniano, universitário e almofadinha, que teria feito as delícias de Malaparte. Madri ia enchendo-se de uniformes e desfiles, era uma cidade/quartel.

Numa narrativa saborosa justamente sobre o máximo do horror, Armijo descreve “terrenos baldios que recendiam primaverilmente a cadáver fresquinho” e narra a expulsão dos pobres, varridos para fora de Madri, uma vez que a imagem da miséria era prejudicial ao regime.

O personagem encontra seu lugar como delator. Apaixona-se pelo poder de decidir se uma pessoa irá ou não ser torturada, presa ou executada. E tudo isso por meio da pena, ao denunciar suspeitos — ou qualquer pessoa que minimamente cruzasse seu caminho — em artigos de jornal. A denúncia pela denúncia é vista por ele como uma forma pura, um gesto estético e intelectual de filtragem. Comemora os números de mortos, comemora os escritores vermelhos que delatou, comemora a oportunidade de penetrar o corpo de uma mulher recém-morta, no necrotério. Mas Armijo é mais do que a escalada e a justificação do mal e do assombro. Há uma tensão entre os modos de ser fascista: a figura de Franco lhe é deplorável, para ele a vitória vai se perdendo na medida em que os valores, principalmente estéticos, da Falange também vão sendo deixados de lado pelo regime.

Madri vai da cidade fantasma à vibração das cores do fascismo em ruas e cafés, deixando as ruínas para trás. Os desfiles coreografados das tropas tornam a cidade um quartel a céu aberto. A eletricidade da narrativa também evoca a eletricidade da rua, ainda que o que esteja em jogo aqui, o tempo todo, seja uma tensão com cheiro putrefato de sangue em meio à voltagem do medo.

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).