História,

Um mundo triste, indefinível e vago

Historiadora resgata os escritos de uma viajante disfarçada do século 19 que trazem reflexões sobre identidade, gênero e liberdade

03set2022 - 04h51 | Edição #62

Isabelle Eberhardt tem cerca de dezoito anos e posa para uma foto vestida de marinheiro. Seus cabelos estão curtos, talvez raspados. Leva na cabeça um chapéu com letras garrafais dizendo “Vengeur” (Vingador). Sua expressão, porém, não é de ironia nem bravata. Pelo contrário, o olhar é acabrunhado. Vingar, então, o quê? Ou contra quem? Difícil dizer. Isabelle Eberhardt era uma dessas pessoas permanentemente tristes e nostálgicas pelo infinito. Em seus textos, tudo é “triste”, mas também “indefinível” e “vago”. Uma melancolia sem textura nem cor reveste seu mundo.

Nascida nos arredores de Genebra em 1877, filha ilegítima em uma família de elite, Eberhardt foi criada para uma vida inconformista: tinha um tutor russo — muito provavelmente, seu pai biológico — que lhe ensinou uma dezena de idiomas desde cedo, dentre eles o árabe clássico; inculcou nela ideais anarquistas e a incentivou a se vestir com roupas masculinas para que pudesse ter liberdade de circulação no mundo fora de casa. Até o fim de sua vida, aos 27 anos (morreu afogada em uma enchente repentina no meio do deserto), sustentaria essa associação entre a liberdade, estar no mundo e ser um homem.

Aos dezenove anos, mudou-se para a Tunísia com a mãe, e ambas converteram-se ao islã. Passados poucos meses, porém, a mãe morreu, e Isabelle se viu sozinha em terra estrangeira. Bradou pelo direito à errância, à vida na estrada. Sentia-se pronta para desbravar caminhos, para sair “à conquista do mundo”. Em seu diário, anotou: “Renunciei a ter um canto para mim neste mundo, uma home, um lar, a paz, a fortuna. Vesti a farda, por vezes bastante pesada, do vagabundo e do apátrida”.

Viajando pelo norte do Magrebe africano, assumiu diferentes identidades: a mais frequente era a de Si Mahmoud Saadi, um jovem estudante árabe e muçulmano. Vestia-se como tal a fim de frequentar o universo dos homens — frequentar, por assim dizer, o mundo da grande aventura. Cavalgadas no deserto e territórios em guerra, casas de chá e rodas de fumo são onde Isabelle/Mahmoud quer estar, e depositamos nessa personagem nossas esperanças de finalmente haver encontrado uma versão feminina de Indiana Jones, de Lawrence da Arábia. Um alívio, talvez, para a nossa canseira de só existirem protagonistas meninos nos livros de menino.

Contexto e crise

A organizadora do volume, Paula Carvalho, conta na introdução que chegou à figura de Isabelle Eberhardt em meio a uma longa pesquisa sobre viajantes disfarçados em um contexto colonial, tema de seu mestrado e de seu doutorado em história. Diz interessar-se sobretudo pelos viajantes cujo mergulho em uma nova vida é tão intenso que provoca uma espécie de “crise de identidade”: aqueles homens e raras mulheres que provocavam ansiedade em seus conterrâneos, levantando a suspeita de que seria possível para um europeu se “des-civilizar”. Sem idealizar Eberhardt, Paula debruça-se sobre sua vida como vem se debruçando há anos sobre a cultura do mundo árabe no contexto da colonização. Sua dedicação ao tema é notável, como se pode ver na coluna que mantém no blog da Tabla, editora especializada na literatura do Oriente Médio, e pelo conhecimento com que escreve a introdução ao livro, ponto alto da edição. A seleção que fez, juntando a produção íntima da autora (cartas e entradas de diário) à pública (seus textos jornalísticos e de ficção) é engenhosa e oferece um retrato que não foge ao princípio de contradição. Alguns dos textos já haviam sido publicados em edição anterior, e menos contextualizada, pela Cultura e Barbárie, que, em 2021, lançou Isabelle Eberhardt alias Mahmoud, com tradução de Fernando Scheibe e Marina Moros. Em 2015, a editora já havia feito uma edição artesanal do texto mais inspirador de Eberhardt, Vagabundagens, no qual a autora faz a afirmação (questionável) de que “só se é livre sozinho”. Esta nova coletânea (muito bem traduzida por Mariana Delfini) não esconde os textos mais vexatórios da autora. Acima de tudo, não reveste Eberhardt com mais uma identidade, uma que certamente não lhe caberia — a de heroína.

Embora tenha se libertado da domesticidade, Eberhardt agarrava-se à imagem da superioridade dos homens e, sobretudo, dos homens brancos. A autora argelina Lynda Chouiten sintetiza: “Ela não apenas via a autoridade como exclusivamente masculina e branca, como também valorizava a distância entre eles e as categorias que entendia como inferiores. […] Sua visão de gênero e raça era dicotômica e traçava uma linha separando o masculino do feminino, os brancos dos não brancos”. Para Eberhardt, os negros são animais (não sofrem com a escravidão!) e as mulheres são bonecas enfeitadas, ocas por dentro; o Oriente é a terra mágica, feita metade de prazeres, metade de barbárie — matança cheirando a sândalo. Enfim, é principalmente a ideia de quem Eberhardt foi que nos atrai. Como autora, bebeu de golão a influência dos ultrarromânticos europeus: na escrita de ficção, ela idealiza a necrofilia e o estupro de uma mulher, por exemplo. Aproximando-nos de Eberhardt, vemos que, pela via do inconformismo e da rejeição de uma existência convencional, ela se alinhou às piores convenções de sua época: a misoginia, o racismo, o orientalismo.

Ser ou não ser assim

Em suas andanças, Isabelle Eberhardt foi iniciada em uma linhagem tradicional do sufismo, a via mística vinculada ao islã. O mestre sufi afegão Omar Ali Shah (1922-2005) comentou certa vez que as pessoas no Ocidente são engraçadas: justificam seus erros dizendo “sinto muito, mas eu sou assim”, quando na verdade, nem sentem muito e nem são assim. O sufismo, como toda mística, promove um desapego das formas externas do mundo e das formas cristalizadas do Eu — é aí, então, que o coração torna-se “capaz de qualquer forma”, como escreveu Ibn Arabi, mestre sufi do século 12. Eberhardt assumiu múltiplas formas no mundo. E seu coração?

Quem escreveu esse texto

Sofia Nestrovski

É mestre em Teoria Literária pela USP.

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.