Repertório 451 MHz,

Viagem no país da crônica

Os cronistas Humberto Werneck e Luís Henrique Pellanda conversam sobre o que fez o gênero literário florescer no Brasil e ganhar aqui um sabor especial

06fev2026

Está no ar o 182º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, o programa apresenta um bate-papo entre os cronistas Humberto Werneck e Luís Henrique Pellanda sobre a crônica à brasileira e o que levou o gênero literário a florescer em nosso país.

Os convidados contam histórias de sua experiência como cronistas e casos saborosos envolvendo medalhões da crônica brasileira, como Rubem Braga, Fernando Sabino e Carlos Drummond de Andrade. O encontro aconteceu durante A Feira do Livro 2025 e foi mediado pelo jornalista Ruan de Sousa Gabriel, do jornal O Globo. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

Escritor e jornalista nascido em Belo Horizonte, Humberto Werneck é editor sênior da Quatro Cinco Um. É autor de O desatino da rapaziada (Companhia das Letras, 2012), sobre grandes escritores mineiros que foram jornalistas, e de várias coletâneas de crônicas. Em 2025,  publicou, pela Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um), Viagem no país da crônica, que reúne colunas publicadas no Portal da Crônica Brasileira, e acaba de lançar, em reedição da Seja Breve, Pequenos fantasmas, coletânea de contos de juventude, escritos nos anos 60.

Já o curitibano Luís Henrique Pellanda, também escritor e jornalista, é editor dos livros de ficção da editora gaúcha Arquipélago Editorial. Publicou coletâneas de contos, como O caçador chegou tarde (Maralto, 2023), e de crônicas, como Asa de sereia (2013) e Na barriga do lobo (2021), ambas pela Arquipélago. No ano passado, lançou pela mesma editora A crônica não mata: notas do isolamento, sobre a experiência de ficar confinado em casa durante a pandemia.

Anos dourados

No começo da conversa, os autores falam dos primeiros contatos com a crônica e dos fatores que explicam por que o gênero caiu no gosto dos brasileiros, principalmente a partir de meados do século passado. Werneck lembra que os anos 50 e 60 foram a era de ouro do gênero na imprensa. “Cada jornal tinha o seu cronista”, diz. 

Para Pellanda, a crônica se adaptou muito bem ao nosso ambiente literário, já que grandes escritores — Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Antônio Maria, Rachel de Queiroz, Clarice Lispector e outros — acabaram se destacando também como cronistas. Ele ainda destaca que, dado o problema do acesso à leitura no país, a crônica foi “um recurso para entregar literatura a um público não habituado a ler literatura de uma forma mais ou menos democrática”. 

Os convidados também falam sobre as origens da crônica. Werneck lembra que, apesar de ter florescido por aqui, o gênero não é nativo do Brasil. “Não é um gênero brasileiro; é uma coisa que veio da França, trazida em meados do século 19. A comparação que eu faço é com o futebol. Ele chegou com o Charles Miller e não tinha a ‘cintura’ que o futebol veio a ganhar no Brasil.”

Luís Henrique Pellanda, Humberto Werneck e Ruan de Sousa Gabriel n’A Feira do Livro 2025 (Flavio Florido)

Para o cronista, o ar de conversa informal das boas crônicas fez com que o gênero caísse no gosto dos brasileiros. Ele exemplifica com a afirmação de Machado de Assis de que as crônicas se assemelhavam à conversa de duas vizinhas que fofocavam sobre o tempo e sobre a vida do morador da casa em frente”.

Crônica e política 

Questionados sobre como os cronistas traduzem assuntos de diversas áreas — economia, ciências, artes e, especialmente, a política — em textos leves e saborosos,  os autores dizem que é impossível não ser afetado pelo que acontece no país, mesmo quando isso não aparece explicitamente nas crônicas.

“Tudo pode virar crônica”, ressalta Werneck, a depender da habilidade do cronista. “Vai aparecer algum cara que vai pegar o tema mais horroroso e transformar aquilo em uma coisa gostosa de ler, uma coisa que tem sobrevida”, diz.

Já Pellanda relata a experiência durante a “ebulição política” dos últimos anos em sua cidade natal, no cenário de intensa polarização, instabilidade e crise institucional no país. “Curitiba é uma cidade que, durante esse período, se transformou de maneira absurdamente negativa em um dos centros do debate político brasileiro, por causa da Lava Jato e da prisão do Lula.” 

“Quem não estava lá no momento não é capaz de imaginar a toxicidade do ambiente”, diz. “Eu passei a ser xingado na rua, a ser hostilizado nos lugares que eu frequentava, sem falar diretamente sobre política.”

Histórias contínuas

Recheado de boas histórias envolvendo grandes nomes da crônica brasileira, o episódio também traz uma reflexão sobre o papel do cronista, que Pellanda vê como alguém que recebe histórias e as repassa. “É o que fazemos desde que nos civilizamos. Contar uma história para a geração seguinte, essa geração aprimorar essa história e continuar contando. Algumas pessoas não vão gostar da história, mas a história vai continuar.”

Os convidados ainda falam sobre a matéria-prima da crônica: os acontecimentos,  reflexões ou curiosidades que viram um bom texto. Tanto para Pellanda quanto para Werneck, os assuntos que mais rendem crônicas estão nas ruas, não dentro de casa. “O assunto está sempre fora”, diz o belo-horizontino. “Não é que você sai por aí xeretando vida dos outros. Mas, eventualmente, sim”, brinca.

Livros e afins

Veja os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas pelos convidados durante a conversa:

  • Viagem no país da crônica, de Humberto Werneck (Tinta-da-China Brasil, 2025)

  • A crônica não mata: notas do isolamento, de Luís Henrique Pellanda (Arquipélago, 2025)

  • Na barriga do lobo, de Luís Henrique Pellanda (Arquipélago, 2021)

  • Boa companhia: crônicas, organização de Humberto Werneck (Companhia das Letras, 2005)

  • Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa (José Olympio, 1956)

Mais na Quatro Cinco Um

A edição #90 da revista dos livros, de fevereiro de 2025, trouxe uma entrevista de Humberto Werneck, que na época completava oitenta anos, ao jornalista João Pombo Barile. O texto passeia pela trajetória de Werneck, que fala da Belo Horizonte da sua juventude e do seu início no jornalismo. 

“A cidade no final dos anos 60 era muito diferente do que é hoje. Era de um abafamento existencial assustador. Prova disso é que praticamente não havia bares ao ar livre: era tudo huis clos, os lugares eram fechados e enfumaçados”, diz o cronista a Barile. “Hoje o panorama é radicalmente diferente. Não é só para fazer graça que digo que Belo Horizonte melhorou muito depois que me mudei de lá.” Leia na íntegra.  

O livro A crônica não mata: notas do isolamento, de Luís Henrique Pellanda, foi resenhado na edição #94 da Quatro Cinco Um por Marcelo Moutinho. 

“Um dos grandes cronistas de sua geração, Luís Henrique Pellanda tenta desvendar essas questões [em relação à atuação dos cronistas durante a pandemia] em A crônica não mata. O livro é uma reunião de estilhaços: 130 textos numerados, nos quais brinca com a forma — há listas, aforismos, pensatas — e expõe sua perplexidade diante de um mundo que virou de cabeça para baixo.” Leia a resenha completa aqui. 

O melhor da literatura LGBTQIA+

No quadro de dicas literárias LGBTQIA+, o episódio traz recomendações do jornalista Ícaro Jatobá, que indica dois livros: Antes que anoiteça (BestSeller, 2009), do escritor cubano Reinaldo Arenas, e Amolando o fio da Alma (Urutau, 2025), de Roberto Muniz Dias.

As minhas duas indicações literárias de hoje vão para os livros Antes que anoiteça, do escritor cubano Reinaldo Arenas, que faz um importante relato sobre a perseguição do regime de Fidel Castro contra os homossexuais — mas também é um forte adeus do autor, que se suicidou nos Estados Unidos após dar de cara com a ilusória liberdade norte-americana. A segunda indicação é uma leitura recente: o livro Amolando o fio da alma, do escritor Roberto Muniz Dias, que aborda os desejos, medos e abusos sofridos por uma criança em seu processo de aceitação homossexual”, diz.

Leia mais dicas da seção O Melhor da Literatura LGBTQIA+.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]