Coluna

Bianca Tavolari

As cidades e as coisas

Na corda bamba

Contos de José Falero retratam a desumanização e as desigualdades que marcam nossas metrópoles

01dez2022 - 05h51 | Edição #64

É bem provável que, todos os dias, você registre distâncias a partir de referências ao tempo. Leva uma hora até lá, em quinze minutos chego aí. São marcadores temporais que nos acompanham cotidianamente. Mas também são marcas territoriais. Representam trajetos na cidade. Mas, de novo, não é qualquer percurso: são caminhos que desenhamos na nossa cartografia pessoal. A unidade de tempo muda se decidirmos dobrar a esquina ou seguir em linha reta, se vamos a pé, de ônibus ou com o vidro fechado dentro de um carro com ar-condicionado, se há ou não barreiras.

Os personagens de Vila Sapo, livro de contos de José Falero, entendem muito bem que as unidades de tempo, aparentemente abstratas, tem uma territorialidade muito concreta. “O trecho até o fluxo é grande. Da vila Sapo até as rua tranquila do Petrópolis é dois bonde, quase uma hora de viagem. E agora nós tava ali, no momento de tensão. Aquela região ali não combina nada com a gente, é só bater os olho no naipe dos vagabundo e comparar com as calçada limpa e com os prédio alto: nada a ver, nada a ver, algo errado, algo errado”, diz o narrador de “Dignidade-relâmpago”, um dos jovens que decide experimentar dar um rolê sem miséria por um dia e se divertir com o carro e o dinheiro derivados de um sequestro. “Às vezes eu fico pensando… Do meu barraco de pau caindo aos pedaços, lá na vila Sapo, até o imponente e magnífico Shopping Total, no bairro Floresta, levou só uma hora. E o que é uma hora, perto duma vida inteira? Uma hora não é porra nenhuma.”, conta o narrador de “Um otário com sorte”.

Se uma hora não é nada perto de uma vida inteira, é tempo suficiente para registrar uma cidade dividida. A clivagem se dá não apenas no plano do espaço construído — “as calçada limpa e os prédio alto” contrastando com ruas sem asfalto que abrigam o “barraco de pau caindo aos pedaços”—, mas também a partir da experiência social das personagens com o espaço urbano. “Aquela região ali não combina nada com a gente” marca os obstáculos invisíveis e, ao mesmo tempo, muito claros para quem tem que negociar sua existência e sua subjetividade na corda bamba dessas desigualdades.

José Falero é um dos maiores escritores que nós temos. Vila Sapo foi seu livro de estreia, republicado agora pela editora Todavia com um conto a mais. As histórias são duras e profundamente envolventes, ganham o leitor e a leitora de saída, com um profundo domínio da forma do conto. Assim como seus personagens, o autor dança entre a vida e a morte com as palavras, nas fronteiras entre o dentro e o fora da Vila Sapo, favela na Lomba do Pinheiro, na periferia de Porto Alegre.

Em “Atotô”, conto que abre o livro, a negociação cotidiana com a morte em território marcado pela violência de Estado atinge seu ápice. “Nas rua selvagem da selva periférica, ser malandro é obrigação. A morte não dorme nunca, a morte não descansa nunca, a morte tá sempre rondando; a gente aprende a sentir o cheiro da morte desde piá. E seguinte: quando a morte tá pela volta, é melhor ficar esperto. Não dá pra ratiar.”

Vida e morte estão no horizonte de cada passo e cada decisão. Mas tampouco são um destino: “Eu não sei por quê, tá ligado, eu não sei explicar, mas é massa, é gostoso ver que a morte passa perto o tempo todo, e ver que a gente tem a manha pra driblar ela, ou ver que a sorte paga pau pra nós e vive salvando nosso pescoço. Claro que é foda ver que a nossa vida tá sempre numa porra duma corda bamba, só que cada vez que ela balança e se equilibra de novo, cada vez que parece que ela vai cair e não cai, aí não tem jeito, mano: a gente sente no peito que a gente é foda, e o sorrisão abre de orelha a orelha.”

Personagens equilibristas

O drible é uma dança nesse fio muito tênue que pode decidir o caminho de uma vida, é uma negociação entre a habilidade de se virar e a sorte. Fio condutor de todos os contos, os personagens equilibristas barganham espaços para desenvolvimento da subjetividade entre essas marcas sociais e territoriais. Execuções, tiroteios e assassinatos lembram que as fronteiras são rígidas, enquanto contos como “Aconteceu amor” relata um primeiro beijo adolescente que suspende temporariamente o imperativo da morte e da necessidade constante de estar alerta para preservar a própria existência.

A desumanização é a tônica de Vila Sapo porque ela talvez seja uma das marcas mais profundas do nosso mundo e das nossas cidades. “O que tem no mundo que as pessoa se trata que nem bicho?”, pergunta o narrador de “Dignidade-relâmpago”. Falero oferece uma chave para olhar à nossa volta com a inquietação e a revolta que essas desigualdades naturalizadas deveriam suscitar. Uma hora não é só um marcador de tempo. Uma hora entre a vila Sapo e a rua tranquila de Petrópolis, ou até o Shopping Total, é um marcador da cisão das nossas cidades e das vidas que precisam negociar cotidianamente o valor da existência. 

Quem escreveu esse texto

Bianca Tavolari

É professora da Fundação Getúlio Vargas e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.