Repertório 451 MHz,
O Nordeste contra o estigma
Octávio Santiago fala sobre a origem do preconceito contra o povo nordestino e como os estereótipos foram reforçados na imprensa, cinema e televisão
29ago2025Está no ar o 161º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, o jornalista e pesquisador Octávio Santiago conversa com Amauri Arrais, editor da Quatro Cinco Um, sobre a origem dos estigmas associados ao Nordeste e aos nordestinos, tema de seu livro Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste.
No bate-papo, que aconteceu em junho durante A Feira do Livro 2025, Santiago também explica como esses estigmas, que seguem muito presentes até hoje, foram reproduzidos e reforçados na imprensa, no cinema e na televisão ao longo do século passado. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Só sei que foi assim é fruto da pesquisa de doutorado realizada pelo autor potiguar na Universidade do Minho, em Portugal, e foi publicado em maio deste ano pela editora Autêntica. A obra investiga as raízes da visão negativa sobre o Nordeste e sua população, alvo de estereótipos que se tornaram hegemônicos no restante do país, e também analisa como os meios de comunicação ajudaram a moldar esse imaginário.
Segundo Santiago, a origem dos estigmas remonta ao início do século 20, época em que o Brasil foi oficialmente dividido em regiões — até então, as únicas divisões geográficas eram entre províncias, a antiga denominação dos atuais estados. Ao longo do século passado, essa divisão regional sofreu alterações, tanto em seus limites quanto no nome de cada região. O atual Nordeste foi até os anos 40 chamado oficialmente de região Norte Oriental, ainda sem englobar a Bahia e Sergipe.
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Mas, de acordo com Santiago, o marco inicial do preconceito contra o Nordeste que subsiste hoje se dá quando o primeiro nordestino chegou à Presidência da República. “Um presidente paraibano assume a cadeira [em 1919], que é Epitácio Pessoa. Ele decide, então, concentrar esforços governamentais nessa porção do Brasil que sofria com a seca”, conta o autor no episódio.
Essa decisão, prossegue Santiago, desagradou lideranças políticas do eixo São Paulo-Minas Gerais, que se alternavam no comando do país e não queriam dividir os recursos federais nem ver as elites nordestinas retomarem o protagonismo perdido no século 19.
Diante dessa disputa, conta o pesquisador, uma campanha midiática passou a difundir imagens negativas da população nordestina. “Estou falando aqui de material jornalístico que foi difundido ao longo da década de 1920 para justificar por que a população do Nordeste era indigna de receber qualquer atenção governamental. Porque ela era indolente, preguiçosa, feia, desqualificada. Uma população que era menor, que deveria ocupar um espaço que não esse de protagonismo, um espaço de subalternidade”, diz Santiago.
O pesquisador lembra que esses estigmas também estavam ligados ao racismo e às políticas de branqueamento do período. “Essa campanha cumpria o papel de garantir que os empregos em São Paulo fossem entregues aos imigrantes europeus. Era uma política eugenista, de substituição genética”, afirma.
Estereótipos vivos
Embora a origem do preconceito tenha mais de cem anos, Santiago ressalta na conversa que essas narrativas continuam vivas no presente. “As mesmas linhas que estão presentes nesses textos que agora têm cem anos são as linhas, são as frases que nós escutamos, lemos, presenciamos, vivenciamos e experienciamos ainda nos tempos atuais. Infelizmente, o Brasil da época ainda é o Brasil de hoje nesse quesito”, diz.
Ele destaca ainda que os estereótipos nunca nascem por acaso e permanecem porque cumprem funções políticas e sociais. “Vimos atualização em diversas pautas importantes, mas, com relação à população nordestina, o olhar torto persiste e ele não é por acaso. Nesse caso, a ideia era para diminuir a população do Nordeste e a manutenção dessa ideia é o que faz com que esses estereótipos ainda estejam presentes.”
Nordeste nas telas
Além da imprensa, o pesquisador também analisou o papel do cinema e da televisão na consolidação dos estigmas: enquanto o cinema “criou a paisagem nordestina”, diz o pesquisador citando imagens de chão rachado, carcaça de boi, mandacaru em primeiro plano e filtro laranja, a TV foi responsável segundo ele por “dar o homem”, definindo a figura do sujeito nordestino no imaginário nacional.

Santiago lembra que, ainda hoje, há resistência em reconhecer a diversidade de narrativas que vêm da região. Ele cita como exemplo o filme Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho. “Sônia Braga no apartamento em Boa Viagem [bairro da orla de Recife], isso não é Nordeste para muita gente. Uma trama em que a questão não é o acesso à água, não é a violência, é só uma mulher e sua complexidade resistindo a uma construtora e ao mercado imobiliário. Na cabeça de muita gente não são pautas que cabem no Nordeste.”
Ele observa diferenças na cobertura hegemônica da imprensa nacional sobre Bacurau (2019), outro filme de Mendonça Filho, codirigido por Juliano Dornelles, mas que se passa numa cidade do interior pernambucano. “Quando Aquarius foi a Cannes, a ideia era ‘olha, o Brasil indo a Cannes’, uma narrativa que diz respeito ao país. Mas quando o Bacurau foi indicado, o mesmo veículo de comunicação disse ‘olha só, o Nordeste foi a Cannes’”.
“Nas matérias sobre Aquarius, a palavra Nordeste nem aparece. Mas quando é Bacurau, a palavra Nordeste aparece e reaparece. E não só no título, que era ‘ode ao Nordeste’, mas também no começo da matéria que era ‘o Nordeste sangrento, seco, árido, frágil, falido, no maior festival de cinema’. Como se esses dois filmes não dissessem qualquer coisa sobre o mesmo espaço, o que mostra que isso [o estigma regional] está muito enraizado na cabeça das pessoas.”
Livros do episódio
Veja abaixo a lista de livros e outras referências que aparecem nesta edição do 451 MHz:

- O quinze, de Rachel de Queiroz (José Olympio, 2016)
- A hora da estrela, de Clarice Lispector (Rocco, 2020)
- Os sertões, de Euclides da Cunha (várias editoras)
- Que horas ela volta?, filme de Anna Muylaert (2015)
- Aquarius, filme de Kleber Mendonça Filho (2016)
- Bacurau, filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (2019)
Mais na Quatro Cinco Um
Octávio Santiago participou do 160º episódio do 451 MHz no quadro de dicas literárias LGBTQIA+. Ele fez duas indicações: a HQ Arlindo, de Luiza de Souza, conhecida como Ilustralu (Seguinte, 2021), e o romance Madame Xanadu, do escritor e ilustrador Aureliano (Nacional, 2021).
Em dezembro de 2019, pouco depois de Bacurau estrear, o filme foi tema de um artigo de Gabriel Feltran relacionando-o a outras produções que repercutiram na época: Coringa, de Todd Phillips, e Parasita, de Bong Joon Ho. Leia aqui.
O melhor da literatura LGBTQIA+
Neste novo episódio do podcast dos livros, a dica literária é do poeta e escritor Ramon Nunes Mello. Ele é autor de Cazuza: meu lance é poesia, que reúne todos os poemas escritos pelo cantor, e de Cazuza: protegi teu nome por amor, uma fotobiografia com mais de setecentas imagens organizada junto com Lucinha Araújo, mãe do cantor. Os dois livros saíram em 2024, pela WMF Martins Fontes.
Mello indicou Homem com homem: poesia homoerótica brasileira no século 21, uma antologia com 130 poemas organizada pelo poeta Ricardo Domeneck e publicada pela editora Ercolano este ano.
“O livro reúne 21 poetas escrevendo com essa temática e trazendo a poesia homoerótica. Tem Rafael Mantovani, Ismar Tirelli Neto, Tiago Galego, Francisco Mallmann, Caetano Romão e muita gente boa. Super recomendo a leitura”, disse.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Apresentação exclusiva: Petrobras
Para falar com a equipe: [email protected]
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