Cinema,

Humilhados e exaltados

Por que filmes como “Bacurau”, “Coringa” e “Parasita” nos fazem sentir empatia pelo olho por olho violento?

04dez2019 - 17h49

Há cidades do interior do Brasil que ainda têm um cinema na rua. Vivo em uma delas. Não que esse cinema nunca tenha virado igreja evangélica; virou, há quase vinte anos. Mas desvirou depois de um tempo, numa decisão política incomum. Nos últimos dois meses, fui a esse cinema três vezes, para três lançamentos de grande bilheteria: um filme brasileiro, Bacurau; um blockbuster norte-americano, Coringa, e uma produção sul coreana, Parasita. A sequência teve impacto mais forte do que cada experiência, por uma razão surpreendente: os três filmes, que vêm de contextos tão díspares, têm exatamente o mesmo argumento. 

Todos nos dizem, em uníssono, que não há síntese para a desigualdade contemporânea que não seja a crueza da violência. O mundo desigual que os filmes nos mostram não é apenas de escassez. O mundo dos três filmes é, ao contrário, endinheirado e espetacular: gringos, políticos, apresentadores de TV, empresários e madames têm de tudo, dinheiro e fama, lazer e luxo. Em Bacurau, os dominantes são estereotipicamente maus e, literalmente, matam por esporte. Em Coringa, a ambiguidade cresce: deseja-se que o apresentador de TV ou o governador seja a figura paterna, aquela que guiaria o oprimido ao sucesso. Mas eles não aceitam esse lugar e provocam a ira do humilhado. Em Parasita, os ricos são ingênuos, e inclusive generosos, mas não conseguem evitar o nojo pelo cheiro específico que exala de todos os seus funcionários. É isso que ofende. Nos três roteiros, derrama-se o sangue desses sujeitos, de modo selvagem.

Coringa se ambienta nas franjas de uma Nova Iorque da passagem para os anos 1980, quando brotava o projeto da sociedade global do espetáculo, hoje hegemônico. Bacurau se passa em um futuro distópico-realista, em uma comunidade rural-urbana do nordeste brasileiro, sem água não por causa da seca, mas por ter sido acossada e vendida para estrangeiros sem escrúpulos, aliados a políticos locais. Parasita é filmado na Seul de hoje, megalópole desgastada pela miséria em tempos de abundância, com bunkers antimísseis em casas de luxo e pobres com celulares de última geração, mas sem dinheiro para pagar internet.

No centro ou nas margens, no passado ou no futuro, na cidade ou no campo, as tramas são igualmente focadas na vida cotidiana de miseráveis muito bem informados. Eles sabem como vivem os ricos, embora o contrário não seja verdadeiro. O oprimido, nos três filmes, se levanta contra a humilhação, mais do que contra a exclusão; levanta-se depois de ter sido esculachado, mais do que explorado. Ofendido em sua dignidade, mais do que alijado do mesmo conforto material que alenta a necessidade de aventura que caracteriza os ricos de hoje. Levantam-se, esses pobres, não com argumentos públicos e políticos, com movimentos sociais, mas com as próprias mãos, lâminas e balas. 

Sem que os poderosos se dêem conta, é deles roubado o papel de protagonistas. Nenhum desses oprimidos é, portanto, a vítima modelar do sistema opressor. Em versão futurista ou retrô, em cada um dos filmes o que se gesta é a revanche de despossuídos que, embalados pela sede de justiça, cortam cabeças com facão, explodem cabeças à bala, esmagam cabeças com golpes contra a parede. A violência não se volta, em nenhum dos três filmes, a um sujeito social abstrato (os brancos, os ricos, o mercado, o Estado). Ela é material, explícita, e se volta contra os indivíduos diretamente implicados na opressão específica que é narrada. Não há como evitar, entretanto: esses indivíduos representariam a abstração da injustiça social de hoje. 

O espectador sente então empatia pelo olho por olho violento, e assim a violência crua se politiza. A mesma operação está presente nos três filmes. Politizada nesses termos, a violência conduz à libertação, e ganha contornos de fim em si mesma. Libertação é ver cabeças opressoras rolando, o sangue tingindo a sala. Acompanhamos em êxtase os golpes e disparos redentores que, paradoxalmente, por selvagens que sejam, devolvem a humanidade aos oprimidos. Selvagem que é — e politizada que foi —, a violência crua é a política.

Os humilhados serão exaltados, nada mais cristão. Pouco tradicional é que ao invés do paraíso os redimidos ganhem como morada os calabouços, as prisões ou as clínicas de saúde mental. Os filmes continuam depois da libertação, e aí se nota que não há redenção. As perdas sofridas — crianças e familiares assassinados, sequelas físicas e mentais — continuam, nos três filmes, a marcar a vida e a história do revolucionário, mesmo após seus atos libertadores. A desfaçatez dominante é celebrada, mas o paraíso não se apresenta depois da guerra. 

Na saída, em frente ao cinema na rua, os olhares dos guardadores de carro não mentem. Os cineastas, e aqueles que se parecem com eles, são também parte de uma elite, a ponta de cima da desigualdade de hoje. Aos olhos do guardador de carro, é essa a mesma elite de outros artistas, mas também de outros empresários e banqueiros, porque a externalidade faz tudo ficar homogêneo. Não é gente da quebrada. É tudo playboy. O cinema de São Carlos virou igreja porque parecia que o povo já não queria mais aquela alta cultura, elitista, embora ainda quisesse redenção das agruras cotidianas. Porque as igrejas souberam se vender como próximas do oprimido, muito melhor do que as esquerdas. Desvirou, como dito, por uma decisão de um governo municipal de coalizão, liderado por um partido de esquerda, há mais de dez anos. 

O cinema na rua representaria um ideal de sociedade moderna e uma tese, a da alta cultura ocidental, um projeto de civilização. A igreja evangélica, o ideal da comunidade religiosa tradicional, quase fundamentalista, seria a antítese daquela alta cultura. Mas elas não são tão diferentes, se ambas virarem dinheiro. Eis uma síntese possível. Em vez de voltar a ser cinema alternativo, com filmes europeus e sessão maldita, o cinema de rua se transformou em cinema comercial. Era uma síntese que se queria nas coalizões à esquerda. Seria possível “ofertar” mais cultura aos pobres e, por que não, ao mesmo tempo mais igrejas. Bastava que tudo concorresse ao ‘desenvolvimento econômico’, ao aquecimento da economia, mote das esquerdas contemporâneas, como das direitas contemporâneas. Cinema comercial, igrejas comerciais. 

Esquerda política e direita evangélica encontravam, na pacata cidade de São Carlos, uma mediação ainda possível entre suas propostas: o mesmo dinheiro poderia vir de cinemas e igrejas. Síntese boa para todo o mundo, claro; síntese racional, quantificável. Isso foi há mais de uma década, e não só em São Carlos, é claro. Esse foi o projeto das nossas esquerdas, das esquerdas globais. Deu certo em tantos lugares, nesse tempo, e segue dando certo, em parte. O cinema comercial na rua se tornou um sucesso, de fato, e as igrejas encontraram espaços ainda maiores para se instalar. Ambos são parte de indústrias culturais globais e fazem a economia crescer, no interior do Nordeste ou de São Paulo, na Coréia do Sul ou nos EUA. 

Mais de dez anos se passaram, e três filmes, nesse mesmo cinema comercial, não falam mais dessa síntese centrada na economia. É a violência que aparece como resultante a nos alentar em um mundo endinheirado, mas inviável. Derramar sangue é o epítome agora proposto para o conflito social. Em Nova Iorque, Seul ou Bacurau (até essa última tem professores e gente globalizada, mas também pobres, que sabem de tudo o que se passa). Não parece haver mais decisão política, mesmo a mais incomum, que nos apresente alguma síntese pública, argumentativa, frente ao que se perdeu. Mesmo que provisória, inconsistente, sem qualidades, como foi a síntese mercantil, neoliberal. Resta-nos, ao que parece, lidar com a violência crua.

Quem escreveu esse texto

Gabriel Feltran

Professor de sociologia da UFSCar, escreveu Irmãos: uma história do PCC (Companhia das Letras).