Repertório 451 MHz,
Mentira e tirania
Paulo Schiller fala do seu ensaio sobre o fascínio por líderes autoritários e da experiência de traduzir László Krasznahorkai, vencedor do Nobel de Literatura de 2025
12dez2025Está no ar o 175º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, o psicanalista e tradutor Paulo Schiller fala sobre seu novo ensaio, A paixão pela mentira: a família e as tiranias (Todavia, 2025), em que, com base na psicanálise e nas histórias ouvidas em seu consultório, interpreta a ascensão de regimes totalitários no século 20 e da extrema direita atual.
Schiller fala ainda sobre como foi traduzir para o português o romance Sátántangó (Companhia das Letras, 2022), livro mais conhecido do escritor húngaro László Krasznahorkai, que venceu o Prêmio Nobel de Literatura de 2025. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Os quarenta anos de experiência como psicanalista do paulistano e filho de imigrantes húngaros resultaram em livros como A vertigem da imortalidade: segredos, doenças (Companhia das Letras, 2000) e O médico, a doença e o inconsciente: a psicossomática à luz da psicanálise (Revinter, 1991). Nas últimas décadas, ele também se tornou um dos principais tradutores no Brasil de grandes escritores húngaros, entre eles Sándor Márai, Imre Kertész e László Krasznahorkai .
Em A paixão pela mentira, seu mais recente livro, Schiller parte da escuta no consultório ao longo das décadas. Ao relacionar histórias ouvidas na atuação clínica com a ascensão de governos autocráticos, ele busca compreender por que pessoas comuns, inclusive as com alta escolaridade, passam a justificar a violência e defender discursos totalitários e negacionistas.
No episódio, Schiller conta que o livro nasceu do cruzamento de duas inquietações. “Pensando nos grandes totalitarismos do século 20, eu sempre me perguntava por que é que um número tão grande de pessoas se encantava por esses regimes”. A experiência de ver, durante a pandemia, colegas médicos assumindo uma posição negacionista aumentou ainda mais essa curiosidade.
A segunda inquietação era um desejo antigo: escrever uma introdução à psicanálise que fosse acessível, articulando a experiência clínica às questões políticas contemporâneas. Ele conta que, ao observar outros psicanalistas comentando o avanço da extrema direita, percebia que muitos recorriam apenas a explicações históricas ou econômicas. Por isso, quis investigar “se a psicanálise não teria uma contribuição a dar no sentido de explicar a razão da ascensão desses regimes” e entender por que há “tanto amparo [a eles] numa parcela muito expressiva da população”.
Mentira e psicanálise
Para o autor, a mentira — tema central do ensaio — é um elemento fundamental da vida psíquica. “A gente [os psicanalistas] trabalha o tempo todo com a mentira. A gente trabalha por excelência com o não dito, com o não contado”, diz. Ele lembra também que as primeiras mentiras, ainda na infância, como negar ter comido um doce, fazem parte da construção de um espaço de privacidade. “A mentira vai ser esse primeiro passo de ocultação, de criação de um mundo privado”.
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No ensaio, Schiller ainda procura aproximar o leitor de Freud e Lacan, nomes fundamentais da teoria psicanalítica. “Eu escrevi um livro sobre a origem do encanto das pessoas por regimes autoritários e a pessoa vai ganhar de brinde uma introdução à psicanálise”, brinca o convidado no programa.
Quase desistência
Além de A paixão pela mentira, Paulo Schiller conversa no episódio sobre seu trabalho como tradutor do escritor húngaro László Krasznahorkai, o mais recente Nobel de Literatura. A tradução de Sátántangó rendeu a Schiller, em 2023, o Prêmio Paulo Rónai, da Biblioteca Nacional, entregue anualmente à melhor tradução brasileira de livros estrangeiros para o português.O psicanalista avalia que talvez A paixão pela mentira não existisse sem a experiência como tradutor. “Eu comecei a traduzir há uns 25 anos e sempre acompanhei o trabalho dos preparadores das minhas traduções muito de perto, porque eu queria aprender a escrever melhor”, diz.
Sobre Sátántangó, ele revela que chegou a desistir da tradução numa primeira tentativa. “Eu comecei a tradução e pensei: eu não vou fazer isso”. Então resolveu ver a adaptação cinematográfica dirigida por Béla Tarr, com mais de sete horas de duração e lançada em 1994. “Nos primeiros dez minutos eu desisti de assistir. E aí alguém me disse para insistir, que valeria a pena. Eu assisti ao filme e decidi traduzir, mas foi muito difícil”.
Essa dificuldade, diz Schiller no episódio, se deve ao fato de a prosa de Krasznahorkai exigir dos tradutores atenção e resistência. “Ele tem um livro de quatrocentas páginas que é uma frase só. Ele tem frases de quatro, cinco, seis, sete páginas, e ele concebe todas elas mentalmente. Ele senta pra digitar quando ele tem a frase de trinta páginas pronta na cabeça”, explica.
No idioma húngaro, conta Schiller, com frequência é preciso chegar ao fim da frase para entender do que ela trata. “No inglês, muitas vezes eu estou lendo a frase e já estou escrevendo traduzindo”, compara.
Para Schiller, a experiência de ler o autor húngaro é como a proporcionada por Grande sertão: veredas, do brasileiro João Guimarães Rosa. Segundo ele, é preciso “ter uma certa atitude, um estado de espírito” para aproveitar tudo que a obra pode oferecer.
“Ele [Krasznahorkai] exige uma leitura concentrada, sem celular, sem internet por perto, sem nada. Você mergulha num universo que ele constrói, assim como em Grande sertão. É o universo ali no sertão, que é o microcosmo da humanidade. E o László faz isso num vilarejo húngaro. É a mesma coisa, só que só chove.”
Livros e afins
Veja os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas pelos convidados durante a conversa:
- A paixão pela mentira: a família e as tiranias, de Paulo Schiller (Todavia, 2025)
- Sátántangó, de László Krasznahorkai (Companhia das Letras, 2022, tradução de Paulo Schiller)
- Os carrascos voluntários de Hitler, de Daniel Goldhagen (Companhias das Letras, 2017, tradução de Luís Sérgio Roizman)
- O grupo e o mal: estudo sobre a perversão social, de Contardo Calligaris (Fósforo, 2022)
- O tango de satã, filme de Béla Tarr (Hungria, Suíça, 1994)
Mais na Quatro Cinco Um
Em julho de 2021, Paulo Schiller resenhou para a revista dos livros Diagnóstico e destino, do psicanalista italiano Vittorio Lingiardi (Ayné, 2021, tradução de Julia Scamparini). “Lingiardi expõe os dilemas da relação médico-paciente, que é, na maioria das vezes, uma relação entre a doença e o médico”, escreve no texto. Leia na íntegra
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio traz ainda uma dica literária de Kael Vitorelo, que escreveu a HQ Filosofia do mamilo (Veneta, 2024). Elu indica a HQ Não sou Orlando, de Helena Cunha, publicada de forma independente em agosto de 2025.
“Em Não sou Orlando, a Helena tomou para si a grande tarefa de adaptar essa anti-autobiografia, que é Orlando [de Virginia Woolf], em uma história gráfica”, diz. “O que resultou disso é um livro que diz muito sobre sexualidade, sobre esse processo de se entender lésbica, mas que se expande também para outros assuntos, como a importância das relações platônicas e sobre a brevidade da vida. É uma história em quadrinhos que narra, de forma paralela, a vida de Orlando e a vida de Helena”, conclui.
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O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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