Repertório 451 MHz,

Entre parentes

Eliane Marques e Henrique Marques Samyn conversam com Bruna Beber sobre as origens de sua escrita, a descoberta da literatura negra e como a poesia os fez primos

09jan2026 • Atualizado em: 06jul2026

Está no ar o 178º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição que abre a temporada 2026 do programa, os convidados são Eliane Marques e Henrique Marques Samyn, dois poetas e prosadores. No papo conduzido pela também poeta e colunista do podcast Bruna Beber, eles conversam sobre as origens de sua escrita, como descobriram a literatura negra e ainda do parentesco afetivo que criaram: os autores que compartilham o mesmo sobrenome não são da mesma família, mas se consideram primos. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

Nascida em Sant’Ana do Livramento (RS), na fronteira entre Brasil e Uruguai, Eliane Marques é também tradutora, psicanalista e coordenadora da Escola de Poesia Amefricana, em Porto Alegre. É autora de várias coletâneas de poemas, entre elas Sílex, que saiu em 2025 pelo Círculo de Poemas, da editora Fósforo. No romance, depois de publicar Louças de família (Autêntica Contemporânea, 2023), que venceu o Prêmio São Paulo de Literatura do ano seguinte na categoria Melhor Romance de Estreia, Eliane Marques lança em 2026 Guanxuma, pela mesma editora.

A escritora gaúcha Eliane Marques (Olho Mágico Fotografias/Divulgação)

Já o carioca Henrique Marques Samyn, além de escritor, é pesquisador e professor de literatura da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Ele é autor dos livros de poesia Levante (Jandaíra, 2020) e Anastácia e a máscara (Malê, 2024). Na prosa, publicou o romance histórico Uma temporada no inferno (Malê, 2022), em que reconstitui a passagem do escritor carioca Lima Barreto (1881-1922) pelo manicômio.

O escritor carioca Henrique Marques Samyn (Divulgação)

Logo no início da conversa, Eliane explica que, apesar de compartilharem o sobrenome e de chamarem um ao outro de primos, ela e Henrique não são parentes biológicos. O vínculo foi criado a partir das palavras. “A palavra constitui o mundo, a palavra constitui Sílex, constitui Anastácia e a máscara, assim como as palavras ‘primo’ e ‘prima’ constituem a minha relação com o Henrique”, explica.

Para Henrique, essa decisão abre espaço para trocas não só literárias, mas também emocionais. “É uma possibilidade de um encontro afetivo”, diz. “Essa reinvenção abre possibilidades literárias de recriação de passados e de criação de futuros, que é algo que a literatura sempre fez para as pessoas negras.”

‘Oralitura’

No episódio, os dois lembram de seus primeiros contatos com a literatura, ainda na infância. Eliane conta que entrou nesse mundo não pelos livros, mas pela oralidade. “A literatura chega até mim por essa oralitura, por ouvir histórias das minhas tias, das minhas avós, paterna e materna, por histórias que nós, crianças, inventávamos e ouvíamos no rádio”, diz. 

Henrique também recorda que a escuta marcou sua infância, especialmente do ambiente sonoro na região da praça Seca, no subúrbio do Rio, onde cresceu: os barulhos de vizinhos, a mistura de samba e funk, o burburinho das ruas. “Eu cresci muito envolvido por esses sons do subúrbio, que vão entrando na minha poesia.”.

Ele conta ainda que a existência de uma biblioteca pública em sua rua foi decisiva para seu futuro. “Além do meu sonho de ser jogador de futebol, que infelizmente não se realizou”, brinca, “eu percebi que tinha uma outra possibilidade nos livros, um mundo se abriu pra mim.” Henrique recorda, nesse momento em que tinha nove ou dez anos de idade, a descoberta de grandes autores da poesia simbolista brasileira, como Alphonsus Guimaraens e Cruz e Sousa. “[Mas] eu não lia Cruz e Sousa como um poeta negro.”

Experimentação e memória

A consciência da existência de uma literatura negra, tanto para ele quanto para Eliane, só surgiu com o tempo. Eliane conta que só quando lançou E se alguém o pano (Escola de Poesia, 2016), seu segundo livro de poemas, que passou a se reconhecer como poeta — e uma poeta negra. A obra marca o início de sua relação experimental com a linguagem, que ela define como “uma estética de invenção de palavras, de invenção de sentidos”.

“Ao reler esse livro, eu passo a gostar daquilo que eu escrevo, embora eu saiba que não são poemas que cheguem para um público. Então, eu não me preocupo com os destinatários do poema, eu me preocupo com aqueles que vieram antes, que são esses que estão resgatados nesse presente do poema”, explica. Junto com a experimentação, vem a relação mais intensa com a memória e com elementos da cultura afro-brasileira e de outras culturas como a maia, onde a poeta encontrou inspiração para os versos de Sílex .

No caso de Anastácia e a máscara, de Henrique Marques Samyn, a origem é uma das imagens mais contraditórias do imaginário afro-brasileiro, a da escravizada Anastácia. O autor explica que ela o acompanha desde a infância. “Minha avó tinha uma figura de Anastácia num altar doméstico no meio de imagens de santos brancos”. Em sonetos, o livro reconstitui a construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e de São Benedito, no Rio de Janeiro, onde há um santuário dedicado a Anastácia. 

No episódio, Henrique ainda conta que começou a escrever um longo poema, ainda inédito, dedicado às vítimas da chacina policial ocorrida em 28 de outubro de 2025 nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio. Ele chama a tragédia, que terminou com mais de 120 mortos, de “maior genocídio” da história da repressão do Estado à população negra no país. “Eu não vou deixar de usar a poesia, a literatura para tratar desses assuntos”, afirma. “Poesia é compromisso, literatura é compromisso. Isso é o que eu posso dar para o meu povo, dar o máximo de mim para transformar em alguma coisa bela na medida do possível.”

Livros e afins

Veja os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas pelos convidados durante a conversa:

  • Sílex, de Eliane Marques (Círculo de Poemas, 2025)

  • Anastácia e a máscara, de Henrique Marques Samyn (Malê, 2024)

  • Levante, de Henrique Marques Samyn (Jandaíra, 2020)

  • Poemário do desterro, de Henrique Marques Samyn (2005)

  • Estudo sobre temas antigos, de Henrique Marques Samyn (Ibis Libris, 2013)

  • Relicário, de Eliane Marques (Grupo Cero, 2009)

  • E se alguém o pano, de Eliane Marques (Escola de Poesia, 2016)

  • O poço das Marianas, de Eliane Marques (Escola de Poesia, 2022)

Mais na Quatro Cinco Um

Em novembro de 2023, Eliane Marques resenhou para a revista dos livros o romance Apanhadora de pássaros (Instante, 2023) de Gayl Jones, publicado em tradução de Nina Rizzi. “Catherine não é uma assassina incompetente, mas uma artista que produz a partir da frustração premeditada da morte”, escreve. Leia na íntegra.

O melhor da literatura LGBTQIA+

O episódio traz ainda uma dica literária do escritor Dácio Pinheiro, autor de Claudia Wonder: flor do asfalto (Ercolano, 2025). Ele indica O negócio do michê: prostituição viril em São Paulo, do argentino Néstor Perlongher, publicado em 2009 pela Fundação Perseu Abramo.

“O livro foi lançado nos anos 80, teve uma reedição nos anos 2000 e valeria muito a pena ter uma reedição atualizada com um olhar para esse mundo que a gente vive hoje das redes sociais, do sexo via internet e tudo mais”, comenta.

Leia mais dicas da seção O Melhor da Literatura LGBTQIA+.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]