

A Feira do Livro, Literatura em língua francesa,
‘Mundo de hoje leva pessoas para o crime’, diz Hannelore Cayre
Escritora francesa afirma que até sentimentos são reféns do dinheiro e que Estado trata mal quem é vulnerável
29jun2024 • Atualizado em: 10jul2024Passeando entre o romance policial e a crítica social, a escritora francesa Hannelore Cayre tem uma hipótese de por que a criminalidade é uma estrada natural para muitas pessoas que se veem em situação de vulnerabilidade social e econômica: elas simplesmente não têm como não infringir a lei, disse a autora de A patroa neste sábado (29), na mesa “Mundo do crime”, n’A Feira do Livro.
No romance, lançado este ano pela Dublinense, Cayre narra a história de Patience Portefeux, uma mulher que trabalha para a Justiça francesa como tradutora de depoimentos em árabe e acaba se transformando em líder criminosa. “Ninguém que leu o livro diz que o que ela faz é imoral. Dizem que, no lugar dela, fariam a mesma coisa”, afirmou na conversa com o advogado e escritor Eduardo Muylaert, autor de Cartas de Paris, notícias do Brasil (Autêntica, 2023).

A protagonista, disse a autora, é uma dessas pessoas com um passado — é filha de mafiosos — e um presente de dificuldades financeiras e menosprezo do governo que a empurram para o mundo do crime. “Minha personagem não tem outra possibilidade que não transgredir a lei. O Estado a trata mal e ela não tem dinheiro. Ela tem um passado que autoriza a transgressão.”
Cayre revelou que se inspirou num casal de tradutores libaneses idosos com quem trabalhou em sua longa carreira como advogada criminal em Paris. Sócia de um escritório de advocacia especializado em casos de tráfico de drogas durante muitos anos, ela contou que um dia perguntou para eles por que ainda trabalhavam para a Justiça francesa traduzindo testemunhos de traficantes oriundos de países como Marrocos e Líbia, no norte da África.
“‘Trabalhamos porque não temos aposentadoria’, eles disseram. Eram pagos por baixo do pano pelo Ministério da Justiça”, relatou a autora, sem esconder sua surpresa. “Vocês se queixam do Brasil mas não sabem o que acontece lá [na França]”.
Dinheiro e sentimentos
Filha de imigrantes que também chegaram ao território francês vindos do norte da África, Cayre contou que seu próprio pai roubou carros e boates para sobreviver no novo país. “Depois que eu nasci, ele virou um homem honesto.”
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Questionada por Muylaert se seu livro A patroa podia ser enquadrado como autoficção, a escritora não negou. “Nas minhas festas de Natal, tínhamos assassinos”, riu. “Os vigaristas tinham um amor visceral por dinheiro, não como se fosse uma coisa inerte.”
Não é uma relação muito diferente da que profissionais do sistema judicial têm, disse Cayre. “Os advogados trabalham com tráfico de drogas porque dá grana. Já ouvi perguntarem [a um acusado]: você é inocente? Tem dez mil euros?”
Do que se pode deduzir: para alguém acusado de um crime, pegar anos de cadeia ou dobrar a lei e conseguir a liberdade depende constantemente do quanto isso vai custar. “O que me interessa é a relação entre o dinheiro e os sentimentos. É o pano de fundo de toda a minha obra”, disse Cayre. “O dinheiro faz tudo. Infelizmente, o mundo contemporâneo é isso “.
Eurocentrismo
Ao falar de seu livro mais recente, Les Doigts coupés [Os dedos cortados, ainda sem tradução em português], que conta a história de um crime cometido há 35 mil anos por seres humanos pré-históricos, a francesa cometeu uma gafe. Disse que o assunto poderia ser pouco familiar para os brasileiros, pois a América do Sul ”não tinha afrescos rupestres como o de cavernas francesas” e, portanto, “não tinha Pré-História”.
A plateia reagiu e o mediador interveio. Disse que a arqueologia brasileira devia ser mais estudada na Europa e lembrou do sítio arqueológico da Serra da Capivara, no Piauí. Alguém da plateia mencionou Luzia, fóssil de um crânio encontrado na região que é um dos mais antigos das Américas. Falando em eurocentrismo, Muylaert convidou os europeus a “parar de olhar para seus próprios umbigos”.
Cayre tentou contemporizar e falou que se referia à carência de informações sobre a arqueologia brasileira na Europa. “Os cientistas brasileiros devem divulgar mais suas descobertas”, disse.
No fim do encontro, ela ainda revelou seus planos para o futuro. Disse que não pretende mais voltar a trabalhar com advocacia — deixou seu antigo escritório em outubro do ano passado. Seu novo projeto é tentar criar uma residência para artistas na Bretanha, no noroeste da França. “Estou envelhecendo, sinto que chegou a hora de passar aos jovens o que eu sei”.
A Feira do Livro 2024
29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu
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