História,

A utopia socialista cruza o Atlântico

No Brasil de Dom Pedro 2º, franceses idealistas rumaram ao litoral catarinense para criar uma comunidade socialista utópica

06nov2019 - 19h45

Quem diria que no Brasil de Dom Pedro 2º existiu uma comunidade socialista utópica, preconizando a divisão coletiva do trabalho e da terra? E isso graças a centenas de franceses idealistas, que cruzaram o Atlântico por meses para pôr em prática – e bem no litoral catarinense – as teorias do falanstério de Charles Fourier?

Em Eles sonharam um outro mundo, o historiador Laurent Vidal, professor de história contemporânea da universidade de La Rochelle e diretor de pesquisa em história do Brasil no Institut des Hautes Études de l'Amérique Latine (Université de Paris III), narra, de forma lírica e detalhada, essa inusitada empreitada em terras tropicais.

Ele conta, em entrevista a Quatro Cinco Um, como gastou vinte anos de sua vida acadêmica para delinear essa “arqueologia de uma esperança” que explica o surgimento de uma verdadeira consciência utópica que brotou nos cafés falansterianos e bailes de arrecadação para criar a terra prometida. E explica como se deparou com a figura de Benoît Mure, “porta-voz” da homeopatia na França, que engendrou a epopeia do falanstério brasileiro — um falastrão que acabou se mostrando um personagem “melhor que a ficção” e deu corpo e alma, com sua visão e loucura, a essa experiência ímpar. 

Por que levou tanto tempo para dar vida à cena descrita no início do livro? Esses quase 20 anos que separam a descoberta do discurso que transformei no livro em cena inicial, para manter o espanto que tive ao descobri-la, e a realização da pesquisa correspondem a um tempo de amadurecimento do pensamento. O historiador não deve apenas contar uma história — aliás, em si, a história do falanstério já tinha sido contada. Minha preocupação era encontrar um caminho original para contar uma aventura humana, e revelar a espessura de sua dimensão humana. 

Ao montante, queria tentar o que eu chamo de “arqueologia de uma esperança”, pois ninguém nasce “falansteriano”. Por isso, me perguntei: como essas pessoas começaram a sonhar com a possibilidade de um outro destino? E como esse sonho se formalizou num projeto de comunidade falansteriana? Da mesma maneira, ficava a pergunta: o que o Brasil de então (como terra de destino) devia representar para pessoas humildes.

Ao jusante, não queria parar de contar a história no momento em que acaba a experiência falansteriana. Se o projeto coletivo não deu certo, pelo menos vidas individuais foram transformadas por esta experiência. Por isso meu desejo de retratar alguns percursos posteriores. Consegui, no espaço atlântico, entre Américas, Europa e África, seguir o pisca-pisca desses vagalumes. Um último motivo desse longo tempo remete à questão financeira. Para organizar a busca em vários arquivos na França e no Brasil e o trabalho em bibliotecas de vários países, precisei de um financiamento e de tempo.

No livro, além da insólita empreitada utópica em terras brasileiras nos tempos do Império, chama atenção a qualidade de Mure como personagem. É ele quem dá voz, corpo e alma ao livro. Como foi se deparar com a densidade de uma figura como essa? Foi um achado, digamos, não apenas acadêmico, mas literário? Você acha que, se Mure não fosse uma personalidade tão magnética, um tamanho orador, algo como o falanstério teria ocorrido? Na realidade, há dois ou três personagens. Mure é o primeiro, pois sem sua energia, sua capacidade de convencer (e diria converter os mais céticos), seu lirismo, nada teria acontecido — pelo menos no Brasil (pois foi ele que decidiu a vinda ao Brasil e justo na região do Saí). Ao contar o resto da vida deste homem, antes e depois do falanstério no Brasil, me deu vontade de escrever uma biografia dele, tanto ele deu “corpo e alma” a outros caminhos possíveis para um povo europeu alvo de tantas repressões — e quem sabe se um dia não farei isso.

Mas tem também o personagem coletivo da comunidade falansteriana. Minha preocupação era mostrar como nasceu essa comunidade. E um dos artesãos desta comunidade é Michel Derrion, que organizou verdadeiras bancas para avaliar e escolher as futuras famílias, e depois ensinou poemas e canções para corporificar a comunidade… Não é por acaso que essa comunidade escolhe a certos momentos Michel Derrion como representante para dialogar com as autoridades.

Após tanta pesquisa, como você classificaria Mure? Um falastrão, um visionário, um louco — tudo isso? Tudo isso! Visionário e iluminado — mas, afinal, alguém parecido com alguns dos personagens da Europa dos anos 1830-1840, que caminhava para a revolução industrial sem fechar totalmente as portas de um outro mundo possível. Ele simboliza essa busca, entre homeopatia e fourierismo, tentando transformar o corpo e a alma da humanidade.

Você descreve os acontecimentos tragicômicos ocorridos no Brasil nesses cerca de cinco anos como um vaudeville. No Brasil, chamaríamos de novela, no sentido folhetinesco. Foi essa sua impressão ao estudar as cartas e outros documentos Prefiro a palavra vaudeville por dois motivos. É uma palavra que remete a um tipo de teatro do século 19, contemporâneo do empoderamento da burguesia (apoiado numa moral pelo menos elástica); e o vaudeville funciona a partir do procedimento do quiproquó. E, de fato, houve muitos nesta história.

Enquanto o império do Brasil pensava em acolher uma colônia industrial, foi uma colônia societária mais ou menos fourierista que chegou. Enquanto a comunidade se organizou coletivamente em Paris, no Rio de Janeiro, o Doutor Mure se tornava diretor único da colônia… Nos primórdios dos anos 1840, de um lado ao outro do Atlântico, as palavras não tinham o mesmo sentido, o que criou inúmeros quiprocós.

Mas considero também que a palavra novela poderia ser utilizada para descrever um enredo surpreendente a cada passo. Simplesmente, minha experiência de historiador me permite considerar que a vida humana pode às vezes ser muito mais surpreendente que a ficção. Ou seja, se fosse uma novela, seria uma “novela verdadeira”!

Você cita muitos trabalhos importantes, como os de Rancière e Ginzburg, para referendar seu tipo de pesquisa, que busca compreender certa consciência operária e uma lógica da microstória baseada em histórias individuais que iluminem essa consciência. Como você classificaria seu livro, sua pesquisa? Sempre fiquei fascinado pela possibilidade de ler a deflagração de grandes acontecimentos históricos ao nível macrossocial, ao rés-do-chão (e o que foi chamado de “socialismo utópico” é um deles). Me parece mais perto da realidade vivida, da experiência cotidiana concreta. Em muitos trabalhos, dialogo com as propostas e a metodologia da micro-história, tecendo no entanto meu próprio caminho. Assim, tenho um diálogo regular com Ginzburg. 

Em relação a Jacques Rancière, foi a leitura de A noite dos proletários que me fascinou. No livro, baseado em sua tese de doutorado, ele mostra como parte dos artesãos parisienses dos anos 1830, ligados ao movimento são-simoniano, ocupavam parte do pouco tempo livre (as noites) para imaginar outro mundo possível. A partir da “poesia dos humildes”, ele discute a maneira como palavras de esperança incentivaram um sonho social de emancipação. No meu livro, utilizei também a poesia popular que encontrei nos arquivos (da imprensa fourierista). Esse sonho proletário será apagado mais tarde pelos próprios marxistas, que descredibilizaram suas ações, rejeitando-as dentro de um “socialismo utópico”.  

Como explicar por que esses franceses acabaram se instalando numa baía como a do Saí, na então remota província de Santa Catarina? Por que Mure assim decidiu — foi a natureza que lhe faria bem aos pulmões, o ruído da bela catarata ou o apoio dos coronéis locais? Para chegar a essas afirmações, comecei com uma primeira pergunta. Como um jovem francês, sem conhecimento sobre o Brasil, afirma de repetente no final dos anos 1830 querer se instalar na região do Saí? Eu me dei conta de que ele estava cursando o primeiro ano de medicina em Montpellier em 1835, no mesmo ano em que o grande viajante Auguste de Saint-Hilaire estava se curando em Montpellier, e o acaso fez com que ele publicasse nesse mesmo ano um livreto sobre São Francisco do Sul, que fica na frente da península de Saí. Não tenho documentos, mas tenho certeza de que este jovem, interessado pelas potencialidades da homeopatia, entrou em contato com o naturalista que constitui no Brasil um herbário de mais oito mil plantas. 

Uma vez no Brasil, pouco mais de um ano antes da chegada dos falansteristas, Mure irá, com o apoio do governo, visitar a região do Saí. As cartas que mandou mostram como ficou fascinado pela beleza de uma natureza virgem e grandiosa, que correspondia exatamente ao que tinha projetado. Nesse percurso, encontrará o coronel Camacho, que tinha recebido as terras do Saí por parte do governo da Província em contrapartida de sua valorização e luta contra os índios ainda presentes na região. O contato com Camacho, que transferiu sua propriedade para Mure, foi essencial para resolver a questão do terreno para a construção do futuro falanstério. Mas é evidente que Mure, mais sonhador que realista, não podia imaginar que esta doação entrava num jogo de disputas entre poderes locais.

Se você fosse inquirido a separar o que há de mais único, peculiar e interessante nessa história toda, o que seria? Quando o destino não é suficiente, é importante inventar sua vida. Foi o que aconteceu com estes artesãos e operários franceses que decidiram um belo dia romper com um cotidiano sem perspectiva. Essa insatisfação gerou o desejo de experimentar outras possibilidades de vida. O fourierismo, de um lado, e o Brasil, do outro, simbolizaram esse novo mundo. 

O Brasil vive hoje uma guinada conservadora, rumo à extrema direita, talvez a mais raivosa de nossa História. Peço, então, um exercício de imaginação: como os adeptos do presidente Jair Bolsonaro, que veem comunistas e inimigos ideológicos em todo canto, veriam hoje a chegada desses falansteristas em solo brasileiro? É bom lembrar que a chegada dos falansteristas em solo brasileiro foi acolhida da melhor das maneiras pelo Império — o próprio imperador recebeu os cem primeiros colonos no Paço. E mesmo após o fim da experiência, que durou uns 6 anos, os estadistas do Império reconheceram a importância da vinda destes franceses como mão-de-obra qualificada. Ou seja, o realismo do diagnóstico foi superior ao julgamento ideológico, pois eles se deram conta de que, entre as palavras que pronunciavam e os atos concretos das pessoas, a vida tinha imposto sua presença.

O momento que atravessa o Brasil é de grande retrocesso. O que simboliza o advento deste governo é uma tentativa de negação constante da realidade e de sua complexidade. Um dos mecanismos dessa negação consiste na imposição de um sentido único às palavras, em suma numa redução do vocabulário. “Morte à inteligência” gritavam os adeptos de Franco na Espanha do final dos anos 1930, querendo impedir qualquer olhar apoiado numa forma de inteligência social sobre a realidade espanhola. Hoje, no Brasil, além dos vários campos de luta que pretendem impor os adeptos do presidente Bolsonaro (em termos ambientais, políticos, raciais, sexuais…), assistimos também a uma luta contra uma língua complexa, em constante renovação, capaz de autonomizar os indivíduos (a poesia do rap, por exemplo, demostra isso). 

Ou seja, para responder à pergunta, é provável que os adeptos do presidente do Brasil recebessem de braços abertos os falansteristas. As palavras utilizadas por eles iam ser erroneamente classificadas dentro da ideologia comunista. No entanto, como tem também uma vertente neoliberal entre esses adeptos, quem sabe se não íamos assistir a uma luta entre eles, pois os falansteristas chegaram também com a proposta de introduzir a modernidade tecnológica no Brasil. Seria fascinante assistir a essa briga!

Quem escreveu esse texto

Willian Vieira

É jornalista e fez doutorado em letras francesas pela USP.