Festival literário,

Em Portugal, um festival literário de carne e osso

Folio reúne brasileiros, portugueses e autores de quatorze países em evento totalmente presencial em Óbidos, em outubro

20set2021 - 01h45 | Edição #49

O Folio, principal festival literário em Portugal, inaugura em outubro uma nova etapa da bem-sucedida reabertura cultural no país, depois de lockdowns rigorosos que provaram ser eficazes para reduzir o contágio pela Covid-19.

Debates presenciais, convidados internacionais e o imprescindível público perambulando pelas ruas da diminuta cidadela medieval — está previsto tudo aquilo a que os frequentadores de festivais literários estavam acostumados, mas que desde o início da pandemia parecia coisa de ficção. Completarão o cardápio fartas doses de ginjinha, o licor de uma frutinha local, algo entre a cereja e a ameixa, que faz a fama da cidade país afora.

Entre os destaques da programação gratuita que acontece em dois fins de semana — de 14 a 16 e de 21 a 23 de outubro —, em Óbidos, a cerca de 80 km de Lisboa, estão a franco-marroquina Leïla Slimani, o argentino Alberto Manguel, o colombiano Juan Gabriel Vásquez, a chinesa Jung Chang, autora de Cisnes selvagens, proibido na China onde nasceu. 

Autores populares em Portugal estão na programação, como o humorista Ricardo Araújo Pereira, o crítico Pedro Mexia, o poeta Mário Lúcio e a romancista Dulce Maria Cardoso. A estrelada comitiva brasileira inclui Itamar Vieira Junior, Lilia Schwarcz, Jeferson Tenório, Tatiana Salem Levy, Giovana Madalosso e Paulo Scott.

O outro

Com todas as mesas realizadas em formato presencial, o Folio publicará, a cada dia, vídeos com os debates da véspera. Cozida em fogo brando desde 2019 —pois em 2020 não foi possível realizar o festival—, a programação Folio Autores, sob responsabilidade de Pedro Sousa e Ana Sousa Dias, parte de um tema comum para pautar discussões contemporâneas em que "o Outro" assume diferentes facetas: ora é o escritor, ora o leitor; ora o colonizador, ora o colonizado; ora o anfitrião, ora o refugiado.

Autores brasileiros — que ainda não podem se apresentar para o público de seu país em razão da demora em debelar o coronavírus — marcam forte presença na programação principal, o Folio Autores, que acontece no Palco Principal: Paulo Scott, que viu seu Marrom e Amarelo circular em Portugal em cópias xerox, antes mesmo de ser publicado por lá; Jeferson Tenório, que teve o seu O avesso da pele escolhido como melhor livro de ficção de 2020 pelos colaboradores da Quatro Cinco Um; Lilia Schwarcz, que leva além-mar a sua Enciclopédia negra. Itamar Vieira Junior volta à terra de onde seu Torto arado foi catapultado para o topo das listas de mais vendidos — o livro venceu o prêmio da editora Leya em 2018. 

O programa também traz autores da França, Turquia, Estados Unidos, Colômbia, que debatem literatura, a crise da democracia, a leitura no século 21, racismo com sotaque português e brasileiro, liberdade de expressão, as relações entre Portugal e Brasil às vésperas dos 200 anos da Independência, biografias, famílias e outros debates contemporâneos.

Em paralelo ao Folio Autores, o festival terá a programação Folio Mais, com curadoria do livreiro e agitador cultural José Pinho, com debates literários e culturais. O público ainda terá programações temáticas voltadas para a educação, a ilustração de livros, a vida boêmia, as histórias em quadrinhos (ou banda desenhada, como se diz em Portugal).

Durante o festival a cidade já chegou a ter onze livrarias abertas — algumas delas temporárias, improvisadas em mercearias, igrejas e outros pontos da cidade. Em 2021, serão oito as livrarias abertas na cidade durante o Folio.

A Quatro Cinco Um participa pela terceira vez do Folio. O diretor de redação da revista, Paulo Werneck, fará a mediação da mesa Brasil e Portugal: Dois Outros, entre Lilia Schwarcz e o historiador Fernando Rosas, no dia 16.

No Folio Mais, Werneck fará a mediação de um debate sobre as iniciativas editoriais transatlânticas, com Barbara Bulhosa, da editora portuguesa Tinta da China, e Simone Paulino, da brasileira Nós, e debaterá com o curador literário Afonso Borges, do Sempre Um Papo, sobre “eventos literários em tempos de pandemônio”. Werneck e a editora Beatriz Muylaert foram convidados pelo Folio para cobrir o festival para a Quatro Cinco Um.

Óbidos

Se, como no poema de Fernando Pessoa, o mapa de Portugal é mesmo um rosto que fita o Ocidente, Óbidos ocupa o lugar do osso do nariz. A vila fortificada remonta aos tempos da presença dos mouros na península Ibérica, no século 8, tendo sido reconquistada no século 12 pelo primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques. Os dados do último censo, de 2011, apontavam apenas 772 habitantes intramuros. 
 


A cidadela medieval de Óbidos [Divulgação]

O mar fica logo ao lado, mas só pode ser visto de um dos pontos mais altos da fortificação. Sem a presença de automóveis no interior da muralha de pedra, a vila é um tesouro do patrimônio histórico português e traz para os turistas uma sensação de imersão no passado. 

As semelhanças com Paraty não estão apenas no novo sentido cultural trazido pelo turismo e pelos festivais — além de leitores de livros, também se aglomeram por ali os chocólatras, em um festival temático, e os entusiastas da Idade Média, que simulam combates de vida ou morte no Mercado Medieval, festa que acontece no verão. Igrejas da região, como a de Santa Maria, do lado de fora da muralha, reza a lenda, foram ornamentadas com ouro extraído do Brasil, embarcado diretamente de Paraty.

Festival Literário Internacional de Óbidos 2021
Programação principal

15 de outubro
Mesa 1 — Em terra de outros (18h)
Leïla Slimani conversa com Juan Gabriel Vásquez
Moderação de José Mário Silva
Mesa 2 — Um país de múltiplas identidades (21h)
Isabel Lucas conversa com Itamar Vieira Júnior
Moderação de João Gabriel de Lima

16 de outubro
Mesa 3 — A cor da pele (15h)
Jeferson Tenório conversa com Paulo Scott
Moderação de Joana Gorjão Henriques
Mesa 4  — Dois outros: Portugal e Brasil (18h)
Fernando Rosas conversa com Lilia Schwarcz
Moderação de Paulo Werneck
Mesa 5  — A pertença do estrangeiro (21h)
Richard Zimler conversa com Jung Chang
Moderação de Ana Daniela Soares

17 de outubro
Mesa 6 — Tantos outros em cada um de nós (12h)
Mário Lúcio conversa com Afonso Cruz
Moderação de António Costa Santos
Mesa 7 — Literatura: aproximação ou distanciamento (15h)
Alberto Manguel conversa com Pedro Mexia
Moderação de Carlos Vaz Marques
Mesa 8 — Liberdade de Expressão (17h)
Ricardo Araújo Pereira conversa Dulce Maria Cardoso.
Moderação de Alexandra Tavares Teles

22 de outubro
Mesa 9 — Depois da guerra e da revolução (18h)
João Paulo Borges Coelho conversa com Ana Margarida de Carvalho
Moderação de Helena Vasconcelos
Mesa 10 — Família (21h)
Ana Luísa Amaral conversa com Amalia Bautista
Moderação de Inês Fonseca Santos

23 de outubro
Mesa 11 — Luta de classes (15h)
Tatiana Levy  conversa com Giovana Madalosso
Moderação de Sara de Melo Rocha
Mesa 12 — A pertença a um lugar (18h)
Cláudia Andrade conversa com Luís Cardoso
Moderação de Maria João Costa
Mesa 13 — Fim das democracias (21h)
Ece Temelkuran conversa com Daniel Innenarity
Moderação de Ricardo Alexandre

24 de outubro
Mesa 14 — Uma Europa de migrantes (12h)
Ilja Leonard Pfeijffer conversa com Davide Enia
Moderação de Cândida Pinto
Mesa 15 — O trabalho do biógrafo (15h)
Bruno Vieira do Amaral conversa com Maria Antónia Oliveira
Moderação de Isabel Lucas
Mesa 16 — Quando o corpo se torna um outro (17h)
com Daniel Sampaio
Moderação de Luciana Leiderfarb

Confira a programação completa.

Matéria publicada na edição impressa #49 em julho de 2021.