Literatura,

Nem tudo é preto no branco

Romance de escritor gaúcho antecede o caos provocado pelas fraudes de cotas raciais em instituições públicas e discute o que é ser negro no Brasil

01nov2019 - 01h15 | Edição #28 nov.2019

Federico cresceu em uma família negra, como sua mãe sempre fez questão de pontuar. A reiteração do que poderia ser óbvio, no entanto, o encheu de dúvidas na infância. Quando colocado ao lado de Lourenço, seu irmão mais novo, Federico poderia passar por branco. Ainda assim, sua pele clara e seu cabelo liso contrastavam com os seus lábios grossos e o nariz “adunco e médio largo”. O pai, um importante perito de Porto Alegre, o chama de “amarelo”. “Marrom” é o caçula, cuja pele é retinta como a do pai. 

A diferença na tonalidade das peles faz com que ambos passem por experiências muito distintas na vida escolar, nas relações afetivas e até mesmo na hora de tirar uma foto com o flash ligado. São os pequenos detalhes e aquilo que não é dito que dilaceram Federico. Como irmão mais velho, ele quer proteger Lourenço, dizer que são iguais. Não consegue. A raiva o consome.

Federico decide cursar ciências sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e volta seus estudos para o que chama de “pigmentocracia”, que se refere a uma espécie de hierarquia cromática entre peles. Quanto mais retinta uma pessoa for, mais estigmas ela carregará. Essa teoria é mais conhecida como “colorismo”. Lourenço, por outro lado, é o irmão gente fina. Constrói a carreira como técnico de basquete de um clube local. Não ignora as questões raciais, mas não as encara
com o mesmo afã do irmão.

O fio condutor de Marrom e amarelo, de Paulo Scott, são os encontros de uma comissão criada para discutir o preenchimento de cotas raciais nas universidades públicas do país. As fraudes no processo, que foram ignoradas e negligenciadas por anos pelo governo, instauram o caos no ambiente acadêmico. Alunos se reúnem em dissidências estudantis, o corpo docente se divide. Até os que se opõem às políticas de ação afirmativa passam a pedir que a lei seja revogada. Para acalmar os ânimos, o governo federal instaura uma comissão em caráter de urgência para uniformizar a forma de ingresso de estudantes cotistas nas universidades. 

Prezando por uma avaliação mais objetiva, o governo defende a criação de um software capaz de analisar fenotipicamente um indivíduo e concluir se ele pode ou não ser considerado negro. A discussão é delicada e divide a opinião dos membros do grupo. Medir a extensão do crânio e a largura de nariz e lábios pode nos remeter ao passado eugenista da antropologia biológica. Todos concordam que deve haver uma intervenção, mas em que sentido? Como aferir se alguém, de fato, tem o direito de reivindicar sua negritude?

Vida real

O contexto apresentado pelo escritor gaúcho não é meramente ficcional. A primeira frase de uma reportagem da revista Época, publicada em  outubro deste ano, descreve de forma muito similar a situação proposta pelo autor: “O clima hostil entre alunos e servidores públicos devido à utilização irregular da lei de cotas está crescendo tanto em universidades como em estatais”. Scott antecedeu, numa trama que se passa em 2016, o caos que o desleixo com a implementação das ações afirmativas pode provocar nas instituições públicas. Foi só em 2019, sete anos após a criação da Lei de Cotas, que a Universidade Federal do Rio de Janeiro decidiu criar uma comissão para analisar as denúncias de fraudes. Desde o início do ano, 230 estudantes foram denunciados. A iniciativa é também uma resposta a um protesto anônimo que expôs fotos de dezenas de alunos que se declararam pretos, pardos ou indígenas na matrícula. Entre as fotos, havia pessoas brancas de cabelos loiros e olhos azuis.

Scott parece fazer o possível para não se eximir do debate; alguns diálogos podem causar desconforto

No romance, Federico é um dos membros da comissão. É em meio às reuniões do grupo e às burocracias que ele se recorda de eventos traumáticos de sua juventude. Aos 49 anos, ele ainda encontra dificuldades de se perdoar pelas vezes em que não reagiu às situações racistas que aconteceram ao seu redor. 

Durante o alistamento militar, um sargento separa os postulantes negros dos brancos. Os negros devem ficar nus, pisar em cima de suas próprias cuecas e voltar o olhar para a parede, como se estivessem de castigo. O sargento não enxergou Federico como negro; ele permaneceu em sua fileira, assistindo à humilhação de seus colegas. Essa cena dilacera o protagonista, que, enfurecido, desiste das Forças Armadas.

É o fluxo de consciência de Federico, que salta de 1973 para 2016 em um parágrafo, que decide os rumos da trama. Talvez o fato de trazer muitas vírgulas e poucos pontos-finais entre as frases seja uma estratégia narrativa: o livro não se encerra. Não porque o autor não conseguiu encontrar um desfecho suficientemente bom, mas porque as questões permanecem na cabeça do leitor. 

“Nenhuma boa história é leve, Federico”, alerta sua mãe em outra memória. “Nenhuma boa história deixa de fora o que é denso, o que é pesado.” O autor parece fazer o possível para não se eximir de qualquer debate, e é provável que alguns diálogos possam causar desconforto. Scott brinca com a aparente incoerência em personagens que surgem pelo trajeto de Federico, como o taxista negro que se identifica com os estancieiros ricos que encabeçaram a Revolução Farroupilha no lugar dos soldados negros traídos por quem dizia querer livrar o Sul da opressão imperial. 

Esse trecho nada mais é do que uma projeção do que vemos na atualidade. O autor usa a verossimilhança. Temos pessoas negras que aplaudiram e votaram num presidenciável que comparou populações quilombolas a gado. Não foi burrice, ignorância. Elas também tinham seus argumentos. Esse candidato era o único que falava do assunto mais importante para uma pessoa periférica que ascendeu econômica e socialmente durante o governo Lula: segurança. O raciocínio é simples: podemos passar mais quatro anos ouvindo insultos, mas não podemos perder o que demoramos décadas para ter o direito de conquistar. É um raciocínio com o qual eu não concordo, mas que faz certo sentido.

A escrita fluida contrasta com a complexidade das questões que o escritor decide abordar. O livro é provocativo em sua forma mais pura: levanta questões, deixa que os personagens se digladiem entre si, mas não apresenta conclusões. Nem o próprio autor parece trazer as respostas consigo. É reflexo de nossa época: estamos todos sem respostas.

Quem escreveu esse texto

Yasmin Santos

Jornalista. Foi editora-assistente do Nexo Jornal e repórter da revista Piauí.

Matéria publicada na edição impressa #28 nov.2019 em outubro de 2019.