Editora 451,

Todo amor é um sacrifício

Romancista aprofunda investigação sobre o lugar feminino com a história de uma babá que rapta uma criança

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

“Estou raptando uma criança.” Com a frase de abertura de Suíte Tóquio, a autora se aventura por um terreno pantanoso: de cara, combina um personagem-narrador que pratica um ato vil com o maior pesadelo de quem tem filhos. Ao longo do romance, Giovana

Madalosso irá narrar o rapto de uma criança de quatro anos sob os pontos de vista da mãe e da babá. Para tanto, fará um revezamento de perspectivas entre as duas mulheres, alternando capítulos e usando elementos de suspense para postergar ao máximo a resolução da trama. 

O tempo escolhido para a babá Maju é o presente: ao lado dela, passamos as horas, e até mesmo os minutos, da duração do rapto. Já para a mãe, Fernanda, o tempo é o da memória: ela nos leva à rememoração de uma história amorosa paralela ao casamento.

Essa opção de estrutura tem uma consequência poderosa: há algo de perverso em acompanhar Fernanda vivenciando um novo amor ao mesmo tempo que somos cúmplices da viagem de sua filha com Maju. 

Sujeito e objeto

Maju é uma personagem intensa, que vive mergulhada num estado de reflexão constante. Logo no início, consciente de que está raptando uma criança, ela vê o seu mundo cotidiano de forma distinta. Sua subjetividade é poderosa e transforma o universo: tudo parece diferente porque ela está diferente. 

Quando conhecemos Fernanda, no segundo capítulo, ela faz um comentário simbólico sobre a forma como vivencia o mundo: “O que define o verbo não é o sujeito mas o objeto”. Ela é uma personagem que não impregna o mundo de sua subjetividade — e aí talvez resida a chave para a vida estéril que construiu para si.

Se Maju é sujeito, Fernanda é objeto: do desejo da amante, do pragmatismo utilitário do marido, da funcionalidade no trabalho. E na tentativa de se equilibrar entre essas diferentes expectativas e cobranças, ela se abstém de qualquer relação com a filha, que existe em sua vida como um fato consumado, uma espécie de figurante que de vez em quando resolve aparecer demais.

Maju também vivencia a dificuldade de conciliar a vida privada (na figura do namorado Lauro) com a profissional, mas ouvimos a história como uma batalha perdida: sabemos que a babá, diferentemente da mãe-patroa, optou pela menina Cora. 

Madalosso ilumina a fragilidade de Fernanda como sujeito por meio da fragmentação de suas vivências no mundo: ela nunca está totalmente presente em lugar nenhum; suas experiências são perpassadas por ligações e mensagens no celular.

A dualidade de pontos de vista também traz a questão socioeconômica para o livro: de um lado uma mulher rica privilegiada, de outro, a periférica pobre. É também inevitável pensar na questão racial, que Madalosso parece evitar: Maju é identificada como branca numa passagem breve, mas não por isso menos significativa, no último terço do livro.

Mais do que uma patroa e uma empregada, estamos aqui diante de uma mãe e uma babá. São substantivos que carregam uma essência adjetiva: ser mãe pressupõe a existência de um filho (em sentido amplo) e ser babá, a de uma criança. As duas personagens são organizadas em torno de Cora — ainda que de forma desequilibrada — pois ser mãe é um laço afetivo-biológico, e babá, uma condição profissional.

A autora ousou mergulhar no pavor de qualquer mãe: o desaparecimento de seus filhos

Essa distinção é importante, pois não se está diante da simples crítica social a uma mãe que abdicou de seu papel e terceirizou os cuidados da criança para uma babá. Fernanda é uma mãe que não conseguiu abrir a portinha para que sua filha entrasse.

O mesmo não se aplica a Maju: “Ela tinha deixado a Cora no cantinho da vida, e lá no cantinho da vida tinha eu”, reflete a babá sobre a mãe da menina. Maju ama Cora. Quando é capaz de diferenciar o choro de birra da criança do choro de verdade, fica claro que o espaço materno rejeitado por Fernanda foi preenchido por ela. O título, inclusive, faz alusão ao quartinho de Maju na casa da patroa, por ela batizado com o nome chique, mas ao qual a própria funcionária se refere como “casulo”. Maju é uma lagarta que quer virar borboleta-mãe. 

Já Fernanda reflete: “Não nasci para ser mãe, e talvez eu também não tenha nascido pra ser filha”. Não são poucas as mulheres que reavaliam as suas relações com sua mãe ou madrasta a partir de uma experiência de maternidade. E a viagem de ayahuasca de Fernanda lança luz sobre uma questão essencial: a filha que se torna mãe foi também uma criança que talvez tenha fechado alguma porta para sobreviver. 

Com Suíte Tóquio, Madalosso parece continuar sua investigação sobre o lugar feminino no mundo contemporâneo, que já havia  sido iniciada com A teta racional (Grua, 2016) e Tudo pode ser roubado (Todavia, 2018). No novo romance, ela demonstra um amadurecimento e aprofunda seu olhar para além da crônica do mundo visto pela mulher branca privilegiada.

A citação do prefácio do romance de Madalosso (“Todo amor é um sacrifício”) é emprestada de Arnon Grunberg, autor holandês que, em Tirza (lançado  em 2016 pela editora Rádio Londres), escreve: “O amor paternal é o sacrifício feito em silêncio”. Resta saber quem faz o sacrifício em Suíte Tóquio

Giovana Madalosso parece tatear mais profundamente um conceito tão feminino quanto complexo: a maternidade. Ela ousou mergulhar no pavor de qualquer mãe, o desaparecimento de um filho, e o faz com uma trama ágil, construída com uma imprevisibilidade que carrega o suspense até o momento final.

Quem escreveu esse texto

Helen Beltrame-Linné

Graduada em direito pela USP e em cinema pela Sorbonne-Nouvelle, foi diretora da Fundação Bergmancenter. 

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.