Editora 451,

Inventário de estilhaços

Escolhido o melhor livro de ficção do ano pelos nossos críticos, romance soa como carta ao país que humilha e ofende seus cidadãos

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

“Quem sou eu/ Sou um morto que viveu/ Um corpo humano que venceu.” Os versos de Abundantemente morte, de Luiz Melodia, acompanham o pai do narrador de O avesso da pele em um sábado qualquer nas ruas de Porto Alegre. “Abundantemente breu/ Abundantemente fel/ Ninguém morreu.” A citação de uma faixa do clássico Pérola negra não parece aleatória: breu e fel se misturam na trajetória de Henrique, assassinado aos 52 anos. Sim; ao contrário da canção, no romance de Jeferson Tenório há um corpo humano que perdeu. Alguém morreu. Mas o que o autor nos mostra, pelos olhos oniscientes do filho, Pedro, é a trajetória de um homem que ensinou, amou, sofreu. Alguém viveu.

Em Notas de um filho nativo, James Baldwin narra a consciência adquirida depois da perda do pai. “Tive a oportunidade de compreender o significado de todos os conselhos amargos, de descobrir o segredo de seus lábios orgulhosamente cerrados, de sua postura rígida: eu havia me dado conta do peso que as pessoas brancas tinham no mundo”, revela o escritor americano. “Entendi que isso tinha sido para os meus antepassados, e seria agora para mim, algo terrível com que eu teria de conviver, e que o ressentimento que contribuíra para a morte de meu pai também poderia me matar.”

Os ressentimentos de Baldwin também estão em O avesso da pele. Mas, e esta é uma das grandes virtudes do romance de Tenório, aparecem amalgamados à reconstituição da trajetória de um professor de literatura em escola pública, “de poucos funcionários e poucos recursos”, na periferia de uma metrópole brasileira. Permeiam as lembranças de uma vida marcada por sucessivas decepções, descritas como “desfile de abismos”. Culpas, fracassos, cicatrizes em uma família com perspectivas estilhaçadas pela realidade.

Como destacado à época do lançamento, o racismo imiscuído na sociedade brasileira é o grande tema do livro. Aparece de forma explícita, em sentenças (“Porto Alegre, a cidade mais racista do país”), exemplos (o pai do narrador é chamado de “o negão da família” ao namorar uma mulher branca) e discussões (depois de uma briga por divergências sobre as ações do movimento negro, os pais do narrador decidem “não tocar em assuntos de raça”). O livro ganha força quando mergulha no “tumulto das sensações” que assombra os casais em crise: o desejo lacerado, as mágoas acumuladas, os silêncios depois das discussões, o amor ao avesso, a-leve-impressão-de-que-já-vou-tarde, como nos romances desfeitos das canções — e não dos livros — de Chico Buarque. Retratos em branco e preto de três intimidades reviradas: a de um homem e as mulheres com quem se envolveu, de uma mulher e os homens com quem se relacionou, de um filho e o pai que não conheceu.

Como observado por Luciana Araujo Marques no número 37 da Quatro Cinco Um, o formato narrativo encontrado por Tenório para devassar seus personagens guarda parentesco com “um dos gêneros mais íntimos”: a carta. “O diálogo se estabelece na proximidade máxima, mas marcado por uma distância imposta, além do predomínio do uso da segunda pessoa do discurso (‘você’), que no caso é o pai, mas por vezes se endereça a você, leitor, que pode vir a se identificar com ele ou, quem sabe, se colocar na pele dele, desde que pelo avesso”, destacou Marques, lembrando as semelhanças e diferenças de objetivos com a incontornável Carta ao pai, de Franz Kafka.

O livro nos arremessa para a truculência da realidade brasileira, com o assassinato de João Alberto Freitas em Porto Alegre 

Ousaria acrescentar à análise que a carta parece ter sido endereçada também ao país. Uma resposta do escritor, nascido no Rio de Janeiro e radicado em Porto Alegre como o seu personagem, à pátria que pouco ou nada faz pelos que são diariamente humilhados, ofendidos, ignorados. Pela vida de quem, aos catorze anos, é algemado e agredido a socos e pontapés porque “ser confundido com bandido vai fazer parte de sua trajetória”. E que precisa recorrer a estratégias de sobrevivência para desviar da dor. “Isso não significa que sejamos sempre bem-sucedidos. Quero dizer que nós, às vezes, falhamos. E falhar, no nosso caso, pode resultar num erro fatal”, observa a tia de Pedro.

A descoberta de Dostoiévski

Em uma das passagens mais fortes do livro, Tenório reconstitui a maior descoberta de Henrique: a primeira leitura de Crime e castigo. Quando era mais jovem, ele seguia no ônibus para o trabalho em companhia de Raskólnikov, aquele que “sempre achara pouco existir, sempre quisera mais”. Ficava tão absorto pela “arqueologia da culpa” do estudante russo que, quando o ônibus foi parado em uma blitz, demorou a entender o que estava acontecendo; ao contrário do rapaz branco ao seu lado, teve de descer para ser revistado. Um dos policiais, ao justificar a ação, alega que Porto Alegre está cheia de vagabundos. De volta ao ônibus, Henrique nota que a cadeira ao lado está vazia. O passageiro branco não quis permanecer próximo ao jovem negro que foi detido pela polícia.

O leitor de Crime e castigo torna-se professor de literatura. Vinte anos “sem medalhas nem honrarias”, travando uma guerra particular contra o desânimo de quem se vê como um “ser invisível, esquecido entre o quadro e o giz”. Em uma das últimas batalhas, Henrique consegue compartilhar, por meio de leituras e dramatizações, seu entusiasmo por Dostoiévski. Eufórico, decide usar os mesmos recursos como trampolim para despertar nos estudantes o interesse por Baldwin, Toni Morrison, Kafka, Cervantes.

Outra abordagem policial, de consequências trágicas e narrada em duas páginas tensas e memoráveis, interrompe os planos do professor. Assim, O avesso da pele nos arremessa novamente para a truculência da realidade brasileira, com o espancamento e assassinato de João Alberto Freitas por dois homens brancos em uma unidade do Carrefour de Porto Alegre, na véspera do Dia da Consciência Negra. O que ocorre diariamente do lado de fora do livro encerra, a tiros, o que acontece do lado de dentro de Henrique. Caberá ao filho, Pedro, organizar a narrativa, ainda que por meio de uma verdade assumidamente inventada, e seguir em frente com o inventário de afetos e perdas do pai.  

Quem escreveu esse texto

Carlos Marcelo

Jornalista e escritor, é editor-chefe do jornal Estado de Minas.

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.