Literatura,

Geografia lírica do sertão baiano

Narrada por irmãs negras, saga familiar envolta em mistérios trata de relações escravistas e do direito à terra

01dez2019 - 01h00 | Edição #29 dez.19/jan.20

Vencedor do Prêmio Leya de 2018, o livro do geógrafo Itamar Vieira Junior, nascido em Salvador em 1979, foi inspirado na leitura na juventude de autores como Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e José Lins do Rego e em suas vivências com trabalhadores rurais assentados, comunidades indígenas e quilombolas ao atuar no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

A obra se passa no interior da Bahia. Dentro de uma casa de barro, Belonísia, então com seis anos de idade, enfia-se debaixo da cama da avó e puxa dali uma mala recoberta por uma grossa camada de terra. Cabe à irmã Bibiana, um ano mais velha e mentora da iniciativa de fuçar os guardados de Donana, abrir a mala e desatar o nó do tecido encardido que envolve um segredo.

“Levantei a faca, que não era grande nem pequena diante de nossos olhos, e minha irmã pediu para pegar. Não deixei, eu veria primeiro.” A primazia de Bibiana não para por aí; é ela quem abre a narrativa em primeira pessoa e é a primeira a abrir a boca para provar na própria língua o gosto daquele “presente novo, forjado de um metal recém-retirado da terra”. Gesto que será repetido por Belonísia ao arrancar da irmã a posse da faca. A disputa infantil não acaba bem: uma das duas perde a língua e, por consequência, a fala; a outra se torna sua voz, intérprete dos mais sutis gestos e grunhidos.

O episódio trágico que dá início a Torto arado tem algo de mise en abyme, isto é, de uma narrativa que contém outras narrativas, como que encaixadas umas nas outras. A abertura da mala, que em um primeiro momento prometia revelar algo oculto, apenas indica a ponta de um mistério seguido de outro. Não estamos diante de uma história em que se retorna ileso a certos inícios e ao que segue recalcado, seja na intimidade do leito de uma mãe que chama pelo nome da filha desaparecida, seja na grande propriedade que abriga esse mesmo leito, mas que pertence a gente que nunca aparece por ali.

Se em termos de sua engenhosidade, o romance impulsiona o leitor a querer decifrar o todo do que se vê apenas em parte nesse jogo de espelhos repleto de suspense — inclusive o rosto de cada uma das duas irmãs aparece refletido na lâmina que fende a história —,
a problemática que Torto arado se propõe a esmiuçar, ao contar a saga de diferentes gerações de uma mesma família de descendentes de escravizados na zona rural da região da Chapada Diamantina, é clara e evidente.

Apesar de o emudecimento e de as perguntas sem resposta imediata (afinal, quem perdeu a língua? Por que a avó escondia aquela faca? Seria o acidente um castigo divino? O que aconteceu com a filha sumida de Donana?) darem forma e ritmo à engrenagem romanesca movida por conflitos e tensões de toda ordem (psicológica, política e sobrenatural), trata-se de obra polifônica e afirmativa, em que ganham voz personagens em geral silenciadas. Prosa que convoca a escuta atenta para o que soa abafado entre as temporalidades encavaladas na história brasileira nas quais o sistema escravocrata é sempre presente. Estética em que o rigor da escrita presta tributos à cadência das palavras colhidas de ouvido, sem afetação.

Palmos de terra e tempo

Zeca Chapéu Grande, pai de Bibiana e Belonísia, nasceu trinta anos após a Abolição, e, assim como outros trabalhadores rurais da região, nunca recebeu salário. Com o passar dos anos e paulatina consciência de seus direitos, alguns conquistam aposentadoria. Vivem “de morada”, o que significa trabalhar de domingo a domingo em troca de poder construir na terra onde laboram uma casa feita da mesma terra, paredes de barro com telhado de junco, jamais de alvenaria, cultivar no quintal em horas vagas e vender na feira o que produzir. Isso quando o responsável pela administração da fazenda não aparece para levar embora a produção doméstica, figura que ora aparece nomeada como capataz, ora como gerente, irônica modernização da nomenclatura para se referir a uma mesma função.

É significativo ainda que em Torto arado o silenciado seja narrado por duas mulheres negras (uma delas muda de fato) e por uma santa, entidade do jarê — vertente religiosa que sincretiza crenças das culturas negras, indígenas e portuguesa. Invariavelmente reconhecemos uma toada lírica e até intimista, mas sempre com o objetivo de escancarar situações coletivas, portanto épicas, em relação à exploração do trabalho, ao direito à terra e a todo tipo de violência a que estão submetidos os que compartilham uma mesma sina.

O arco temporal abarcado pela obra é costurado a partir de fragmentos de histórias nas quais encontramos indícios cronológicos que surgem de acordo com o fluxo de memórias de quem as narra. Sem que essas datas sejam pontuadas, encontram-se ao longo das três partes do romance referências que aludem às primeiras décadas pós-Abolição até meados dos anos 1980, quando Inácio, neto de Zeca, sonha ir para universidade.

Na primeira parte, narrada por Bibiana, dão-se as descobertas do mundo a partir das reminiscências de quem cresce, por volta dos anos 1950, enquanto filha de um líder de jarê, figura consultada para todos os fins, em uma casa que por vezes abriga corpos e almas atormentados à procura de cura. Uma infância fendida pelo acidente que marca a fusão com a irmã. Infância que se encerra com a descoberta da sexualidade e de uma consciência social que não deixará de marcar uma outra cisão radical no enredo de suas vidas.

A segunda parte, narrada por Belonísia, foca as experiências da jovenzinha que deixa a casa dos pais para, em meio a um casamento terrível, descobrir-se uma mulher destemida e capaz de defender Maria Cabocla, que sofre violência doméstica. Também está repleta de histórias vivenciadas pelo pai, em geral transmitidas a ela pela mãe, Salu. Já na terceira e última parte, os saltos temporais são ainda maiores, uma vez que a entidade do jarê presencia de um ângulo muito privilegiado (onisciente e onipresente) acontecimentos remotos e presentes, apesar de ela própria se ressentir de estar bastante esquecida em tempos de conversão ao evangelismo. De modo que cabe a ela revelar a nós, leitores, aquilo que os personagens mortais não seriam capazes de saber sobre si próprios, suas origens e seus destinos.

Quem escreveu esse texto

Luciana Araujo Marques

É doutoranda em teoria e história literária na Unicamp.

Matéria publicada na edição impressa #29 dez.19/jan.20 em novembro de 2019.