Literatura israelense,

Mais que um observador

Jornalista de Israel nascido em Portugal faz um balanço da vida e da carreira em crônicas que mostram as mudanças da geopolítica israelense

01dez2022 - 05h51 | Edição #64

A equação geopolítica do Oriente Médio é complexa. As relações entre vizinhos mudaram de forma significativa a partir dos Acordos de Abraão, assinados em 15 de setembro de 2020 na Casa Branca, nos Estados Unidos. Naquele momento, Israel, Emirados Árabes Unidos e Bahrein firmaram um acordo de paz.


Em Conversando com o inimigo: do Porto a Abu Dhabi via Tel Aviv, Cymerman abarca seus 63 anos de vida e relata passagens marcantes de sua trajetória

Mais do que um observador, o jornalista Henrique Cymerman, que nasceu em Portugal e vive em Israel há mais de quatro décadas, é um personagem dessa história de mudança. Em Conversando com o inimigo: do Porto a Abu Dhabi via Tel Aviv, Cymerman abarca seus 63 anos de vida e relata, em curtas crônicas, passagens marcantes de sua trajetória ainda em construção. Em entrevista à Quatro Cinco Um, ele fala sobre suas memórias, escrever em várias línguas e a nova literatura israelense.

Já tinha se entendido como um escritor israelense em língua portuguesa?
Nos meus livros anteriores, o grau de profundidade foi completamente diferente. Há anos eu pensava: “Algum dia vou ter que escrever sobre o balanço do que foi a minha carreira e a minha vida”, porque tinha medo de esquecer muitos detalhes relacionados à minha família e à minha história. Este livro é produto da Covid-19, que me permitiu fazer uma espécie de pausa, estar em uma encruzilhada. Nos três confinamentos que tivemos aqui em Israel, comecei a escrever sozinho. Foi uma experiência quase metafísica. É como se tivesse acontecido uma divisão entre a minha cabeça e o meu coração.

Cada parte do livro foi escrita em uma língua diferente?
Os capítulos sobre a história da família do meu pai, que veio para Portugal e com quem eu falava português, escrevi nesse idioma. Já a história da família de minha mãe, que veio da Espanha e do Marrocos e com quem eu falava espanhol, escrevi nessa língua. O capítulo sobre temas ligados à Árabia Saudita, ao mundo árabe e aos Acordos de Abraão, que são extremamente importantes na minha trajetória, escrevi em inglês e em hebraico. Saiu um pouco em cada língua.

O título remete ao seu papel nas negociações dos Acordos de Abraão. Qual a importância de registrar isso?
Fui o primeiro jornalista de Israel a transmitir essa notícia desde Dubai, Abu Dhabi, Catar, Omã e Arábia Saudita. Trouxe matérias para os principais canais de notícias de Israel dessas cinco zonas. Naquela época, o apresentador do programa era o atual primeiro-ministro de Israel, Yair Lapid. Ele era o meu colega. Falamos durante muitas noites seguidas sobre esse tema. Ele ouvia com muita atenção tudo que eu lhe contava. A gente conversava sobre a aproximação de Israel com os países do Golfo em público, em Israel, e as pessoas escondiam o sorriso e pensavam: “o homem vive no mundo de fantasia”. Quando os acordos foram fechados, veio muita gente me dar a mão e que me disse: “tu foste o primeiro”. Outro dia, o presidente de Israel, Isaac Herzog, disse-me: “Tu para mim foste o primeiro que falou de tudo isto, e nunca podemos esquecer isso”. Penso que só estou no princípio, penso dedicar os próximos anos a contribuir para a continuação dos Acordos de Abraão.

‘Israel vive em alta voltagem, tudo acontece em um ritmo incrível. É difícil, esgotador, mas fascinante’

Israel tem perdido alguns grandes autores, como Amós Oz, há alguns anos, e A. B. Yehoshua este ano. Como você vê o legado deles e a nova geração de escritores israelenses?
Vejo uma nova geração que ainda é menos conhecida no exterior do que eram Amós Oz ou A.B. Yehoshua, mas acho que é uma geração que promete de forma extraordinária. O próximo Amós Oz e o próximo A.B. Yehoshua já estão entre nós. Conheço alguns deles, admiro profundamente alguns. Ainda fica alguém da antiga geração, como David Grossman, por exemplo, que é um homem extraordinário, à parte de ser um grande escritor. Mas também há uma nova geração que ainda não conhece esses nomes, mas acredito que nos próximos anos vão conhecer. Sem dúvida, Etgar Keret é um gigante. Um que é menos conhecido ainda, o Nir Baram, vai ser um grande também.

Quanto viver em um país que está em constante conflito influencia a sua ficção e a sua realidade?
É um país que vive em alta voltagem, onde tudo acontece em um ritmo incrível. Não tem comparação a lugar nenhum do mundo. Quando viajo ao estrangeiro e volto para Israel, preciso de um par de horas para me pôr ao corrente do que acontece, porque em alguns dias já perdi a linha de tudo o que está acontecendo no país. É muito difícil, por vezes, esgotador, mas, ao mesmo tempo, é fascinante.

O israelense “raiz” é conhecido como “sabra”, fruta espinhosa por fora e doce por dentro. O israelense continua tendo esse caráter? A nova geração de escritores também carrega esse jeito agridoce típico?
Na essência, sim. Não mudou grande coisa, mas, na forma, mudou um pouco. Penso que a nova geração é mais global, que viaja mais ao estrangeiro. Quando cheguei em Israel nos anos 70 e contava às pessoas que no verão ia ver os meus pais em Espanha e Portugal, eles pediam para fazer slides para mostrar como era o estrangeiro, nunca tinham visto o estrangeiro. A nova geração é um pouquinho menos brusca, um pouquinho mais polida, mais educada ao ocidental. Mas, mesmo dentro disso, ainda há essa base como dissestes antes, agridoce, que é um pouco a base do sabra de Israel, que é um pouco também o sistema de sobrevivência.

Como vê o BDS, movimento de boicote, desinvestimentos e sanções a Israel, no campo da cultura? Quais os perigos desse tipo de iniciativa?
É o principal obstáculo no caminho para a paz. Os boicotes nunca levam à aproximação, nunca levam à solução dos conflitos, só os perpetuam. O boicote do BDS a Israel é o inimigo número um da paz. Isso é uma coisa que eu vi com meus próprios olhos. É verdade que também fui vítima de manifestações do BDS, Depois de que fui candidato ao prêmio Nobel da Paz, eles se manifestaram contra mim. Perguntei: “Mas por quê? Vocês sabem que dedico a minha vida à luta pela paz”. E eles responderam: “Tens passaporte de Israel?”. Eu disse: “Tenho”. Ou seja, o problema deles não é com a ideologia de alguns cidadãos de Israel, não é com um partido determinado de Israel. O problema do BDSÃO é com a simples existência do Estado judaico. Isso não posso aceitar de nenhuma maneira.

Essa editoria tem o apoio do Instituto Brasil-Israel.

Quem escreveu esse texto

Anita Efraim

É coordenadora de comunicação do Instituto Brasil-Israel.

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.