Entrevista,

Um retrato do Brasil no Oscar 2020

Martha Batalha, cujo romance inspirou o filme brasileiro que concorre a uma vaga na premiação, alerta para que “o pior do Brasil” não destrua nossa criatividade

11set2019 - 16h15

“Ninguém está com muito ânimo para dizer que o Brasil melhorou”, diz Martha Batalha, cujo romance A vida invisível de Eurídice Gusmão expõe o machismo no Rio dos anos 1950. Reconhecendo o progresso de sua própria família — diferentemente da avó, ela e a mãe tiveram a oportunidade se formar na faculdade —, a escritora questiona: “Quantas outras famílias brasileiras podem celebrar o progresso das gerações? Quantas histórias que deveriam ser contadas jamais chegarão até nós? Quando o registro da memória e das experiências vai deixar de ser um privilégio?”.

Seu romance, lançado pela Companhia das Letras em 2016 após ter os direitos vendidos para onze editoras estrangeiras — feito raro para um romance de estreia —, gira em torno da trajetória das irmãs Eurídice e Guida, que se assemelha às de inúmeras mulheres nascidas no começo do século 20, criadas apenas para serem boas esposas, infelizes com a incapacidade de protagonizar as próprias vidas.

A história universal inspirou o filme A vida invisível, do diretor Karim Aïnouz, longa brasileiro que foi selecionado para concorrer a uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2020. O filme, que tem Gregorio Duvivier e Fernanda Montenegro no elenco, estreou no Festival de Cannes em maio deste ano e levou o prêmio de melhor filme na seção Um Certo Olhar. O mesmo festival, aliás, concedeu a Bacurau (que estreou no final de agosto e era considerado favorito na disputa brasileira pela vaga no Oscar) o Prêmio do Júri na competição principal. 

A estreia de A vida invisível acontecerá primeiramente na região Nordeste, em 19 de setembro, e no restante do país em 31 de outubro. A lista completa dos filmes selecionados para concorrer ao Oscar 2020 será anunciada em 13 de janeiro, e a cerimônia acontecerá em 9 de fevereiro.

 
As atrizes Carol Duarte e Julia Stockler no filme A vida invisível, de Karim Aïnouz

Além de A vida invisível de Eurídice Gusmão, Martha Batalha escreveu Nunca houve um castelo, publicado em 2018. Nascida no Recife, ela fundou em 2003 a editora Desiderata, que publicou antologias de textos e ilustrações dos jornais humorísticos O Pasquim e O Planeta Diário, além de obras de Millôr Fernandes, Ivan Lessa e André Dahmer, e foi adquirida pela Ediouro em 2008. Nesta entrevista, concedida à Quatro Cinco Um por e-mail de sua casa em Santa Mônica, nos Estados Unidos, onde vive com o marido e os filhos desde 2014, a escritora fala sobre o alcance de A vida invisível, o papel do humor na literatura e as idas e vindas do feminismo.

Como você recebeu a notícia de que o filme inspirado em seu livro foi escolhido para tentar uma vaga no Oscar 2020? Aqui em casa nós celebramos com um abraço coletivo, meus filhos perguntando o que é que o Oscar (nosso vizinho) tinha a ver com tudo aquilo. A repercussão do livro e do filme é maravilhosa, o sonho de qualquer escritor. Ao mesmo tempo, Eurídice é para mim só o começo, e focar apenas esse sucesso significa atravancar a carreira de escritora. Por isso eu vou e volto — leio algumas manchetes, falo com alguns amigos, contribuo com clubes do livro, mas protejo o espaço solitário da escrita para continuar produzindo. 

Qual foi o seu envolvimento no filme, e o que achou do resultado final? Não me envolvi em etapa alguma, o audiovisual não é um meio que eu conheça ou que me interesse como canal criativo. Quase não vou ao cinema e mal vejo televisão, acho que iria atrapalhar em vez de ajudar. Vi o filme numa cabine [exibição de filmes antes de seu lançamento, reservada à imprensa e convidados] aqui em Los Angeles, e foi estranho, o cinema inteiro vazio, meu nome gigante na tela, aqueles personagens que por muito tempo só existiam na minha cabeça andando de um lado para o outro. Mas ali eu não era a escritora, era uma espectadora como outra qualquer, e levei a porrada que o Karim dá na gente com o filme. 

É uma adaptação muito bonita e muito forte, e, para mim, a maior diferença está no tom. Fiz um livro de leitura leve, em que a trama principal é adornada por histórias paralelas, e no qual o machismo é questionado e ridicularizado o tempo todo. Karim fez um melodrama, focado principalmente nas duas protagonistas do livro, com cenários opressores e decadentes como o próprio machismo. Mas a essência do filme e do livro é a mesma. 

Por que você acha que esse livro foi tão bem aceito internacionalmente? Vou responder como uma piadinha clássica no meio editorial americano: para fazer um best-seller, só é preciso publicar um livro com o título Lincoln’s Doctor’s Dog (“O cachorro do médico de Lincoln”), porque são três temas que sempre vendem: o presidente Lincoln, medicina e cachorro. Se eu tivesse me sentado pensando em escrever um best-seller, um romance que seria vendido para não sei quantos países e para o cinema, certamente não escolheria como tema mulheres de meia-idade na Tijuca, envolvendo-se em atividades triviais. Ou seja: eu não tenho a menor ideia. 

Na verdade, quando eu estava escrevendo, tinha em mente, como ainda tenho, o leitor brasileiro, que é apenas uma versão gentil de outra leitora também brasileira, mas muito mais chata e exigente (eu mesma). O que me parece que aconteceu é que, no Brasil, o livro tocou num nervo. Eurídice era para mim uma ideia, mas também um incômodo, a vontade de contar algo que as pessoas conheciam mas não reconheciam, no sentido de entender e assimilar as frustrações e limitações pelas quais passaram as mulheres para manter os núcleos familiares. 

Acho que o sucesso do livro parte desse reconhecimento: muitos leitores dizem que veem nas páginas as histórias de suas famílias e de outras famílias brasileiras. Às vezes, o que é mais íntimo para o leitor é aquilo que ele é capaz de identificar não só em si e na trama, mas também em outros leitores, na sociedade e na cultura. Algo que está presente no imaginário coletivo. Tenho a impressão de que esse livro conseguiu envolver o leitor na trama e elaborar um dos temas desse imaginário. 

Qual o papel do humor numa narrativa que fala de opressão? É mostrar o absurdo e a hipocrisia de certas morais e valores e a imensa contradição entre o que é dito e o que é feito. O humor ajuda o leitor a suportar e digerir o que parece intragável. Infelizmente, e por este ponto de vista, o humor é uma necessidade no Brasil. Temos uma longa tradição de humoristas brilhantes — Barão de Itararé, Stanislaw Ponte Preta, os escritores do Pasquim, Casseta Popular, Planeta Diário e Sensacionalista (para citar apenas alguns).

Você considera-o um livro político? Não escrevi com esse intuito, mas parece que está se tornando um livro político, por causa do atual momento do país e do mundo, e pela repercussão e dimensão que a história está tomando. Meu principal objetivo ao escrever era bem menos pretensioso e nem por isso mais fácil, eu só queria poder chegar ao final da maratona que é escrever um romance, poder contar uma boa história, e que essa história pudesse fascinar os leitores, como estava me fascinando durante a escrita. 

Mas é claro que, ao colocar um personagem transitando no Brasil, as questões econômicas e de classe, os dogmas e os preconceitos vão interferir no dia a dia. É inevitável. O mesmo personagem morando nos alpes suíços ou numa cidade longínqua do Canadá não teria esses dilemas. Então, eu tenho que fazer ele lidar com os problemas, e nessa interação há um questionamento do status quo. Mas isso é a consequência, e não a causa da escrita. 

O livro se passa no Rio de Janeiro nos anos 1950. Na sua opinião, pode-se dizer que o Brasil melhorou desde então? Parece que ninguém está com muito ânimo para dizer que o Brasil melhorou. É uma pergunta que demanda uma resposta complexa, e (tentando me safar) prefiro dizer que não sei se está melhor, mas que está certamente mais confuso. 

Uma história familiar: minha avó teve que abandonar a escola na terceira série primária para começar a trabalhar como aprendiz de costureira e ajudar a sustentar a família. Minha mãe fez faculdade, eu fiz faculdade e pós-graduação e tive a formação, a liberdade e a tranquilidade para escrever sobre o que queria e sabia. 

Mas quantas outras famílias brasileiras podem celebrar o progresso das gerações? Quantas histórias que deveriam ser contadas jamais chegarão até nós? Quando o registro da memória e das experiências vai deixar de ser um privilégio geográfico, de classe e de gênero? E — o que é mais assustador — a história prova sucessivamente que um “quando” pode não existir, que é possível, e bastante comum, retroceder. 

Tivesse nascido em outra época e outro lugar, o que seria da protagonista? Vejamos. Se ela tivesse nascido na Arábia Saudita, estaria celebrando a recente autorização do governo para que mulheres possam dirigir, e consequentemente aprendendo a lidar com o caloroso retorno masculino, que é gritar do outro carro que mulher foi feita para pilotar o fogão. Se ela tivesse nascido nos Estados Unidos, tivesse estudado em Harvard ou Columbia, casado e tido filhos, estaria negociando com o marido, para saber qual deles dedicaria as doze horas diárias exigidas pelas corporações para a carreira evoluir. 

Geralmente, a escolha mútua é a de que o homem vai se submeter às demandas profissionais, enquanto a mulher vai manter a logística e a estabilidade emocional da família. Quando esta mulher voltar ao mercado de trabalho, se voltar, não terá o mesmo salário que o marido, e não porque existe um chefe branco, hétero e mau, sorrindo e torcendo as mãos apoiadas em cotovelos na mesa, conspirando com outros chefes brancos, héteros e maus para que a mulher seja para sempre inferior e submissa, mas porque o sistema capitalista exige uma dedicação praticamente impossível de ser cumprida por uma mulher que se importe com os filhos, e para que exista uma harmonia de prazeres e deveres do casal na vida familiar.

É por isso que não são as mulheres ou os homens que têm que mudar, mas o sistema. É por isso que o feminismo vem em ondas, ele vai e volta. Avança um pouco, às vezes retrocede, e sempre esbarra em questões que permanecem sem solução.  

Como você avalia o mercado editorial no Brasil hoje? Não tenho o conhecimento necessário para avaliar de modo responsável o mercado editorial brasileiro. Quando vou ao Brasil, trago comigo livros de autores contemporâneos, mas sei que são uma pequena amostra do que é produzido. Mas posso falar do mercado pelo ponto de vista de autora brasileira, tentando produzir algo em um momento confuso e de extremos. O que eu tento, todos os dias, é encontrar a medida exata entre absorver a realidade e não ser paralisado por ela. 

Como transformar as notícias e as frustrações numa narrativa coerente (pelo menos e por enquanto, dentro de mim)? Qual a medida certa entre inteirar-se do que se passa pelas mídias sociais e proteger-se para não ser consumida e deprimida pela mesma? Não tenho a resposta, mas penso nisso todos os dias. Penso que é preciso haver sabedoria para entender o que deve ser absorvido e o que deve ser jogado fora por ser ruído. Se não for, é o outro lado que ganha, e o pior do Brasil vai conseguir destruir a criatividade de todos nós.

Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).