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Jabari Asim: ‘Meu projeto literário é iluminar verdades sobre a vida de pessoas negras’

Autor de ‘Em algum lugar lá fora’ conta como sua ficção preenche lacunas da história apagada de escravizados

07jul2024 - 12h09 • 07jul2024 - 14h27
(Matias Maxx)

Como recriar o passado? É possível narrar a vida de pessoas que foram excluídas da história? Para o ensaísta, poeta e ficcionista norte-americano Jabari Asim, autor do recém-lançado Em algum lugar lá fora (Instante, trad. Rogério W. Galindo), essa é não só uma possibilidade como parte fundamental do seu projeto como escritor. 

“Meu projeto literário envolve contar a história de pessoas negras nos Estados Unidos que não são muito precisas, iluminar algumas verdades sobre a realidade dessas pessoas”, disse Asim em conversa com a jornalista Adriana Ferreira Silva na mesa “Reescrita da escravidão”, no sábado (6), n’A Feira.

No romance, seu primeiro publicado no Brasil, ele conta a história de uma comunidade de pessoas escravizadas que resistem à falsa crença de que são incapazes de amar, almejando criar uma rede de amor e amizade em meio à rotina massacrante de trabalhos forçados e tortura. 

Asim contou que pesquisou muito sobre como viviam os negros escravizados nos Estados Unidos. Em especial, chamou a atenção a trajetória de William Lee, um homem negro escravizado que se apaixonou por uma mulher negra livre. Ele recebeu do presidente George Washington a promessa de que, se lutasse na revolução norte-americana, poderia trazer a namorada para viverem juntos na fazenda. Depois da guerra, no entanto, o presidente voltou atrás. 

“Imagina você não poder amar quem quiser? Essa foi a realidade da maioria das pessoas escravizadas nos Estados Unidos”, contou. “Fiquei curioso sobre esse casal e muitos casais antes. Comecei a imaginar, a tentar preencher essas lacunas usando a escrita.”

William e Margaret, o casal da vida real, têm os mesmos nomes de um dos pares protagonistas de Em algum lugar lá fora, mas viveram no século 18. Já a história de Asim se passa na década de 1850, numa fazenda não especificada no sul dos EUA. “Todo o resto foi imaginado, é ficção”, disse. 

O escritor lembrou como famílias negras nos Estados Unidos, assim como em outras partes do mundo, não conseguem saber sobre o próprio passado, já que a falta de documentos dos escravizados só permite que a pesquisa retroceda algumas gerações.

Sequestradores e ladrões

Jabari Asim contou sobre a busca de criar uma vocabulário próprio para os personagens que, no romance, marcam o tempo em colheitas e só se referem a si mesmos como sequestrados e aos proprietários da fazenda como ladrões. 

“Nunca quis permitir que escapasse aos leitores o fato central de que essas pessoas foram imigrantes involuntários, foram roubadas de seus países e viveram em terras que foram  também roubadas de outras etnias.” 

Havia, segundo o autor, duas línguas: a que era usada pelos pretos quando estavam sozinhos e a de quando estavam com os opressores. 

Outro aspecto importante na narrativa de Em algum lugar lá fora, a fantasia e práticas as espirituais dos escravizados, foi baseada em histórias do folclore norte-americano ou simplesmente inventadas, segundo Asim. 

“No folclore americano, tem muitas histórias de africanos que tinham capacidade de voar de volta para a África ou para o Canadá, que era livre”, disse. “Quanto às práticas espirituais dos personagens, como não há nenhum registro histórico, foram inventadas, eu criei.”

Salvar vidas

Questionado pela mediadora se a literatura teria o poder de salvar jovens negros vítimas da violência, Asim disse não ver essa possibilidade. “Não acho que a literatura consegue salvar a vida das pessoas, mas pode denunciar essa situação.”

O escritor contou que, numa caminhada de duas horas por São Paulo, se sentiu inseguro cada vez que um policial se aproximava — tinha consciência de que o comportamento da polícia brasileira em relação a pessoas negras como ele era semelhante ao da norte-americana. 

Jabari Asim (Matias Maxx)

“Tenho uma experiência horrível com a polícia nos EUA. E é ancestral, foi assim com meus pais, é assim com meus filhos”, afirmou. “Fiquei impressionado por me sentir assim aqui no Brasil também.”

Ex-editor-chefe do jornal de política The Crisis, Asim também comentou a perspectiva de uma possível reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos. “Estamos entre a raiva e o desespero. Trump já prometeu expandir os poderes do presidente numa linha ditatorial e o Supremo o apoiou. Não é o momento de ser otimista.” 

Asim é também professor de redação, literatura e publicação no Emerson College em Boston e autor de livros infantis e ensaios, e contou que divide com seus alunos seu processo de escrita.

“Compartilho com meus alunos os livros que não foram publicados, recusados por editores, mostro as páginas rasuradas”, disse. “Quero que vejam que mesmo os autores que consideram bem-sucedidos têm seus altos e baixos.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista e editor da Quatro Cinco Um.