A Feira do Livro, Divulgação Científica,

‘Separar ciências humanas de exatas é erro’, defende Marcelo Viana

O matemático e diretor do Instituto de Matemática Pura e Aplicada também falou da importância da divulgação científica e sobre a disparidade de gênero na área

30jun2024 - 14h52 • 10jul2024 - 13h25
Fotografias de Filipe Redondo.

O desafio de comunicar ao público e inspirar jovens a se interessarem por uma área normalmente vista como árida foi o tema da mesa “Matemática para quem é de humanas”, que abriu a programação de domingo (30) d’A Feira do Livro. A conversa com o matemático e diretor geral do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) Marcelo Viana foi mediada pelo jornalista Bernardo Esteves.

Viana acaba de lançar o livro Histórias da matemática: da contagem nos dedos à inteligência artificial (Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um), a partir de colunas publicadas na Folha de S.Paulo. Ele defendeu que não deveria existir uma separação entre as ciências humanas e as exatas.

“Minha coluna na Folha esta semana vai ser justamente sobre o que significa para um matemático participar de uma feira do livro, e é um manifesto contra a antítese entre ciências humanas e ciências exatas”, adiantou. Ele lembrou que, durante um longo período da história, as duas áreas andavam juntas, e nenhum cientista poderia se considerar completo sem estudar ambas.

“É claro que, à medida que os campos foram se ampliando, foi acontecendo uma especialização. Não era mais possível alguém conhecer toda a matemática“, disse. “Mas acho um erro acreditar que, porque eu sou de exatas, não preciso entender Picasso; ou, porque sou de humanas, a Segunda Lei da Termodinâmica não me diz respeito. Isso tolhe e empobrece aquilo que a gente pode fazer e aquilo que a gente é como ser humano.”

Divulgação científica

Como alguém que assumiu o desafio de escrever sobre matemática para o público geral, Viana também falou sobre a importância de bons divulgadores científicos. “Tenho lembranças muito queridas de assistir na TV à [série] Cosmos, do físico Carl Sagan. Alguns dos meus maiores momentos de fascinação com a matemática foram escutando ele. Foi fundamental ter na TV alguém fazendo o que o Carl Sagan fazia.”

Questionado por Esteves sobre os perfis de divulgação científica nas redes sociais, Viana disse acreditar num enorme potencial. “Se você quer se comunicar com alguém, você tem que escolher o veículo que vai chegar onde você quer chegar. E é óbvio que se hoje você quer comunicar, tem que estar nas redes sociais. No YouTube, por exemplo, tem coisas absolutamente maravilhosas de divulgação da matemática”, apontou.

O jornalista Bernardo Esteves

“Quem faz bem, faz isso de maneira agradável, mas tem que ter conteúdo. Uma das minhas ambições é ter quem faça isso na TV e nas redes sociais com a qualidade que se vê em alguns conteúdos produzidos no exterior.”

Olimpíada

Viana lembrou que um de seus principais objetivos quando assumiu a direção do IMPA em 2017 era justamente aperfeiçoar a aproximação com a sociedade, o que tem feito em suas colunas, mas também com inúmeros eventos e festivais, incluindo a Olimpíada Brasileira de Matemática. “A Olimpíada é um instrumento absolutamente precioso. Ela é organizada em todo o país, em todos os municípios, menos cinco.”

Por ser voltada para escolas públicas, ele acredita que seja uma forma de levar oportunidades a pessoas do país todo e exemplificou com o caso da deputada federal Tabata Amaral. “A Tabata vem de uma família simples, e a vida dela mudou quando fez a prova da Olimpíada e ganhou a medalha de prata. No ano seguinte, ela ganhou ouro. É uma pessoa que estaria em outro lugar se não tivesse sido jogado um holofote sobre o talento dela para a matemática. E depois ela enveredou por outras áreas.”

Mulheres na matemática

Ainda assim, Tabata talvez seja uma exceção, porque a participação feminina na Olimpíada vem diminuindo a cada etapa da competição, assim como a faixa etária dos participantes. Segundo Viana, o mesmo ocorre entre candidatas ao doutorado em matemática.

“É um processo de perda que não pode ser explicado em termos de talento. São fatores certamente socioeconômicos. Eu pergunto às meninas medalhistas como elas explicam isso, e elas não têm dúvidas: ‘Os meninos são muito mais incentivados’, elas dizem. Tem menos modelos para inspirar, tem uma diferença de atitude dos pais, dos professores. É um fenômeno social completamente artificial”, acredita.

Não que esses modelos não existam, como lembrou Viana ao comentar diferentes períodos da história da matemática de que trata em seu livro. “Quando chegamos no século 17, 18, começam a aparecer figuras interessantíssimas, personagens absolutamente notáveis. As primeiras professoras universitárias eram mulheres”, ressaltou.

Ele citou como exemplo a história da linguista, filósofa e matemática italiana Maria Gaetana Agnesi (1718-99), reconhecida como autora do primeiro livro que tratou do cálculo diferencial e integral. “Maria Gaetana era a mais velha de 23 filhos. Ela queria ser freira, mas tinha que cuidar dos 22 irmãos e cuidou da educação deles. Estudou matemática para ensinar a eles e escreveu um livro para isso, que ficou muito famoso. O próprio papa a nomeou como professora da Universidade de Bolonha. E eu, que sou matemático há 44 anos, nunca tinha ouvido falar disso até escrever sobre ela, e sobre outras.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Natalia Engler

É jornalista e pesquisadora de comunicação e gênero.