A Feira do Livro,

‘Estamos diante de um laboratório global de sujeição’, diz Vladimir Safatle sobre Gaza

Ao lado do ensaísta e tradutor húngaro Peter Pál Pelbart, filósofo falou sobre o genocídio de palestinos e o que ele significa para o mundo

07jul2024 - 18h41 • 10jul2024 - 10h55
(Filipe Redondo)

Uma das questões mais urgentes da atualidade marcou presença na tarde deste domingo n’A Feira do Livro, na mesa “De São Paulo a Gaza”, com o ensaísta e tradutor húngaro Peter Pál Pelbart, coautor de O judeu pós-judeu: judaicidade e etnocracia (n-1 Edições), e o escritor e filósofo Vladimir Safatle, que lançou Alfabeto das colisões: filosofia prática em modo crônico (Ubu) este ano. Em falas preparadas previamente e lidas pelos dois convidados, eles trataram do genocídio palestino e dos significados da guerra entre Israel e o Hamas no cenário global.

Pelbart, que tem origem judaica, dedicou boa parte de sua fala a esmiuçar como um projeto utópico de autonomia que inicialmente esteve por trás da ideia de sionismo foi se transformando em um Estado fundamentalista e autoritário, que cotidianamente oprime outro povo. Já Safatle analisou quatro processos que acredita estar por trás do que está acontecendo em Gaza, mas que dizem respeito ao mundo como um todo: repetição, dessensibilização, desistorização e vazio jurídico, usados contra populações colocadas em extrema vulnerabilidade em qualquer lugar do mundo.

“Estamos diante de um laboratório global de sujeição”, afirmou Safatle. “Estamos diante de uma conjunção inédita de crises que não têm como passar dentro do sistema capitalista que as gerou. Essas crises tendem a se estabilizar, tornando-se o normal”, disse, referindo-se às crises da democracia, econômica, climática etc. “Diante disso, algumas possibilidades se colocam. Uma delas é a transformação estrutural das condições que levaram a isso, mas isso está fora de jogo. A outra é a generalização da guerra permanente, e é esta que se coloca.”

Para Safatle, a naturalização da guerra leva à reorganização da sociedade civil, transformando a indiferença e o medo em afetos sociais centrais, militarizando a sociedade e implodindo vínculos de solidariedade em defesa da própria comunidade. Apontando o modo como as imagens do massacre de palestinos filmadas por drones os desumanizam e dessensibilizam quem assiste, ele afirmou que “essa imagem monstruosa mostrou a verdade de um processo de dessensibilização que é o ponto cego constitutivo dos nossos processos de justiça e reparação, da exigência fundamental de impedir o luto público”.

“Lugares como Gaza sempre existiram em intensidades diferentes. O que Gaza faz é ampliar essa lógica”, disse o filósofo, para quem esse processo é algo que nós, brasileiros, conhecemos bem. “A gente conhece isso como elemento fundador da nossa história. Talvez seja por isso que vem do Sul global a maior indignação contra o que acontece em Gaza. Há uma similitude muito clara entre esses processos [coloniais].”

Safatle finalizou sua fala com uma frase em árabe, língua de seus antepassados que, segundo ele, foi silenciada em nome de uma integração com o Ocidente que nunca veio. “Não há liberdade sem terra, e não há vida possível sem liberdade”, disse, emocionado, em árabe e em português.

Herança judaica

Falando de um ponto de vista da intelectualidade judaica, que produziu nomes que vão de Hannah Arendt a Franz Kafka, Pelbart, por sua vez, afirmou que a atual conformação do Estado de Israel e daqueles que são cúmplices ou silenciam sobre ele é um desrespeito a essa tradição. “O que assistimos hoje é o triste ocaso de toda uma tradição ética e revolucionária.”

“A cumplicidade da comunidade judaica, da qual de alguma maneira faço parte, com as políticas do Estado de Israel é uma das maiores dores que eu tive desde o 7 de outubro [quando o Hamas atacou Israel]. Por isso escrevi este livro [O judeu pós-judeu]. No seu silêncio, na sua conivência, eles cometem um crime contra a tradição e a ética judaicas.”

Para ele, essa tradição estaria fundada num senso de habitar a Terra como estrangeiros, assumindo a “dimensão diaspórica como elemento mais próprio da condição judaica. Pois diáspora, por definição, significa dispersão, e por isso, abertura à estrangeiridade. Foi isso que permitiu as aventuras filosóficas mais extraordinárias”, afirmou Pelbart, para quem é um enorme paradoxo enxergar o Estado como a consumação da diáspora. “Quando a terra ganha tal centralidade a partir de uma perspectiva bíblica, é porque adentramos uma configuração outra”, acredita.

(Filipe Redondo)

Indignado quanto ao modo como um dos povos “mais sofridos e perseguidos da Terra, uma vez territorializados na Terra Santa”, passou a “ocupar o lugar de perseguidor e desterritorializador”, ele chamou de “sequestro” o que o Estado de Israel faz ao se arrogar o direito de falar em nome de todos os judeus do mundo.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Natalia Engler

É jornalista e pesquisadora de comunicação e gênero.