Bagagem Literária, Design,
Capas incríveis de 2025
Onze designers e ilustradores apontam as capas de livro mais lindas do ano
10dez2025 • Atualizado em: 17dez2025Muitas vezes relegado ao rodapé das fichas técnicas, o design de capa vem ganhando protagonismo no mercado editorial. Um exemplo são as honrarias — e, mais recentemente, as polêmicas acerca do uso de Inteligência Artificial na criação de capas — em prêmios literários que elegem os melhores trabalhos gráficos do ano.
Cada vez mais atentos à experiência visual, capistas exploram novos materiais, tipografias autorais e articulações entre texto e imagem. Para ter um gostinho de belas capas deste ano, a revista dos livros convidou onze designers, capistas, ilustradores e especialistas no assunto para apontar até três capas que chamaram sua atenção em 2025. Confira a seguir uma lista visualmente irresistível, ideal para quem julga o livro, sim, pela capa.
Cecilia Arbolave
Editora e produtora gráfica
Capa de Gustavo Piqueira para o livro O inventor de livros: Aldo Manuzio, Veneza e seu tempo, de Alessandro Marzo Magno. Mnema + Ateliê Editorial.
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“Gosto de como o Gustavo Piqueira trabalha as capas e os projetos gráficos. Em O inventor de livros: Aldo Manuzio, Veneza e seu tempo, há poucos elementos, nem o título aparece, mas estão lá todas as pistas para decifrar que se trata de um volume da coleção Inventores de Livros.”
Celso Longo
Arquiteto, designer gráfico e professor
“Estas três chamaram a minha atenção pelo mesmo motivo: a relação intencional e certeira entre o texto (a escolha tipográfica) e a imagem; um vibrando na mesma frequência do outro e traduzindo, visualmente, a temperatura do livro.”
Capa de Raul Loureiro para Sepulcros de caubóis, de Roberto Bolaño. Companhia das Letras.
Capa de Elisa von Randow para Dakota Blues, de Simone AZ. Companhia das Letras.
Capa de Ana Matsusaki (Bloco Gráfico) para Gozo fabuloso, de Paulo Leminski. Todavia.
Elaine Ramos
Designer gráfica
Capa do estúdio Bloco Gráfico, a partir da obra Estudando Matisse (2020, 48×60 cm, tinta acrílica, corretivo escolar e caneta esferográfica em papel sulfite), de Julia Jabur, para Os anos de vidro, de Mateus Baldi. Nós.
“Adorei a relação entre o título do livro e o mote da ilustração nesta capa — uma metáfora inteligente e poética. A imagem flerta com a abstração e deixa um mistério no ar (os peixes estão mortos?), enquanto a combinação de cores mantém a composição vibrante e chamativa. O detalhe do título em contorno hierarquiza as informações e estabelece um diálogo sutil com a imagem.”
Capa de Cristina Gu, a partir de fotos do arquivo do autor, para Estranhos no cais: retrato de uma família, de Tash Aw. Todavia.
“Nesta capa, o contraste entre a antiga foto de família em preto e branco e a imagem saturada das flores é o ponto de partida de uma composição instigante e equilibrada. Um grid geométrico fragmenta as imagens e acolhe formas de cores planas que ocultam o centro da fotografia, reforçando o mistério. A escolha ousada de tons contrastantes e vibrantes — que destoam dos tons da foto — acrescenta uma dose extra de surpresa ao conjunto. Apesar de ser uma capa complexa e cheia de elementos, a sensação é de que tudo está em seu lugar.”
Capa de Tereza Bettinardi para Café Tangerinn, de Emanuela Anechoum. Biblioteca Azul.
“Difícil avaliar uma capa sem ter lido o livro, mas esta capturou o meu olhar. Apesar da literalidade da relação entre título e imagem, a regularidade do padrão da toalha e o equilíbrio do título centralizado são elegantemente quebrados pela disposição displicente dos gomos da tangerina. A escolha das fontes e a combinação de cores dão força ao conjunto.”
Gustavo Piqueira
Artista gráfico, designer e ilustrador
Capas de Luciana Facchini para a coleção Errar Melhor. WMF Martins Fontes.
“É uma ideia muito simples, mas muitíssimo bem amarrada tanto com o nome/ideia da coleção, como com as bases estruturais gráficas para a criação de uma coleção.”
Capas e box de Elaine Ramos e Julia Paccola para O Capital, de Karl Marx. Ubu.
“Um uso extremamente sofisticado da tipografia encaixando/desencaixando entre capas, lombadas e box.”
Capas de Filipa Damião Pinto (Estúdio Foresti Design) para a coleção Dalton Trevisan. Todavia.
“As capas possuem uma estrutura gráfica bem forte e vibrante — apesar de eu não ter entendido muito bem o destaque para o ‘A’.”
Ing Lee
Quadrinista e ilustradora
Capa de Amanda Lobos e direção de arte de Bianca Oliveira para Geografia da autonomia: a experiência territorial zapatista em Chiapas, México, de Fábio M. Alkmin. Elefante.
“Fico hipnotizada com as cores e texturas dos mosaicos que Amanda Lobos constrói.”
Capa ilustrada por Amanda Miranda para A volta do parafuso, de Henry James. Antofágica.
“Ninguém sabe fazer texturas gosmentas e letterings afiados como Amanda Miranda.”
Capa ilustrada por Elisa Carareto e com design de Cristina Gu para Alfabeto russo: cenas de língua e cultura, de Marina Berri. Fósforo.
“A organicidade dessa capa me atrai muito. Aprecio muito a forma como Carareto retrata suas figuras animalescas.”
Mateus Valadares
Designer gráfico
Capa de Ana Starling para Um dia na vida de Abed Salama: anatomia de uma tragédia em Jerusalém, de Nathan Thrall. Zahar.
“Esta capa despertou minha atenção por ser quase toda feita à mão livre, com grafismo e lettering formando um desenho circular eloquente e coeso.”
Capa de Marcelo Delamanha para Sem despedidas, de Han Kang. Todavia.
“A imagem singela e cheia de simbolismos, que parece carregar várias histórias, hipnotizou meu olhar.”
Capa de Pedro Inoue para O que os psiquiatras não te contam, de Juliana Belo Diniz. Fósforo.
“A ilustração espirituosa e colorida, que vai do figurativo ao abstrato, intercala-se de modo surpreendente com uma malha tipográfica rígida, gerando um contraste visual que salta aos olhos.”
Oga Mendonça
Designer multimídia
Capa de Beatriz Dórea (Anna’s) para A cabeça boa, de Lilian Sais. DBA.
“Combinação de cores que funciona, chama a atenção — e continua elegante. A proporção da imagem do cavalo e o corte inusitado da foto (como se ele não coubesse na página) criam um ótimo efeito. Depois de ler o livro, dá para perceber como a imagem dialoga bem com o conteúdo.”

Capa de Mateus Acioli para O dicionário da bruxaria, de Doreen Valiente. Goya.
“Adoro esse tipo de ilustração. É difícil lidar com essas gravuras antigas e encontrar um lettering que não destoe do desenho nem o desloque para outro tempo. Aqui, tudo ficou belo e muito adequado.”
Capa de Jon Gray para A fraude, de Zadie Smith. Companhia das Letras.“
A genialidade desta capa está em trazer elementos típicos dos cartazes de soundsystem jamaicanos atuais para um romance histórico que trata do colonialismo inglês na Jamaica no fim dos anos 1800. O design torna a capa atemporal.”
Paula Carvalho
Designer gráfica
“Foi difícil escolher três capas incríveis no mar de livros que foram lançados este ano. Acabei escolhendo as que estão aqui na minha prateleira e de que gosto bastante.”
Capa de Luciana Facchini para O fim de Eddy, de Édouard Louis. Todavia.
“A escolha do formato, além das imagens e tipografia da coleção do Édouard Louis, é precisa e forma um conjunto com muita força gráfica.”
Capa de Daniel Trench para O hipopótamo, de Chico Mattoso. Todavia.
“Daniel encontra a imagem e a composição perfeitas, trabalha com simplicidade e harmonia para construir uma capa forte e sintética, que é uma excelente dica para o leitor sobre o clima do livro e a essência da obra.”
Capa de Kiko Farkas e Máquina estúdio para Boris e Marina: poemas, de Alberto Martins. Companhia das Letras.
“A capa faz parte da coleção de poesia da Companhia das Letras e é uma criação do Kiko Farkas, que, há dez anos, cria bonitas soluções gráficas usando a mesma fórmula.”
Rita da Costa Aguiar
Designer gráfica e editora de arte de livros infantojuvenis
Capa de Josias Marinho e Helen Nakao para Bateção, de Josias Marinho. Pequena Zahar.
“Logo na capa encontramos três personagens: os biguás; os pássaros em revoada, que aparecem na orelha do livro quando dobrada por cima da capa — o movimento de abrir e fechá-la sugere o movimento dos pássaros em direção ao rio e ao encontro dos peixes; e, ao levantar a orelha, as libélulas, personagens importantes, que ficam à margem do rio e que aparecem somente no começo e no final, quando a canoa está próxima da margem.
Além de apresentar os personagens, a capa sugere o movimento do pássaro com os peixes da bateção, fenômeno natural que acontece no Norte do país.”
Capa de Nelson Cruz para A profecia animal, de Nelson Cruz. Peirópolis.
“Esta é uma capa que sugere simplicidade, mas de simples não tem nada. Afinal, estamos falando do autor e ilustrador mineiro Nelson Cruz, que é premiado e atua há mais de 35 anos no mercado editorial brasileiro. Nada está ali à toa. O rosto de um macaco, grande, forte, com dois humanos refletidos na íris de seus olhos. É um olhar triste. Título e autor em uma mesma linha, bem no topo da capa, quase em segundo plano, te hipnotizam logo de cara.”
Capa de Bia Menezes para o livro Teko hypy: a origem do mundo, de Ariel Ortega Kuaray Poty, Leandro Kuaray Mimbi, Patrícia Ferreira Pará Yxapy e Sophia Pinheiro. Boitatá.
“Com traços firmes, cores fluorescentes e figuras simbólicas, a linguagem visual amplia o impacto sensorial da narrativa e aproxima o leitor, de forma intuitiva e afetiva, da cosmovisão mbyá-guarani.”
Tereza Bettinardi
Designer gráfica e editora
Capas de Filipa Damião Pinto (Estúdio Foresti Design) para a coleção Dalton Trevisan. Todavia.
“O impacto está no conjunto: a força do sistema da coleção. A decisão de enfatizar o nome ‘Dalton’ na capa — que é um gesto ousado, especialmente vindo de uma editora comercial e em um lançamento tão estratégico —, a escolha tipográfica, a paleta de cores e a coerência visual entre os volumes criam uma unidade marcante.”
Capa de Marina Quintanilha para A boba da corte, de Tati Bernardi. Fósforo.
“Aqui, a imagem sustenta tudo. É uma ilustração tão potente, tão conectada à narrativa, que a capa funcionaria mesmo sem uma única tipografia.”
Capa de Julia Custódio para Meridiana, de Eliana Alves Cruz. Companhia das Letras.
“Nesta capa, a sutileza é a maior força. A tipografia escolhida por Julia Custódio é delicada e extremamente precisa. Penso que dialoga com uma ilustração igualmente sensível. Um equilíbrio raro.”
Veridiana Scarpelli
Artista plástica e ilustradora
Capa de Celso Longo para Poesia completa, de Murilo Mendes. Companhia das Letras.
“Aprecio muito o contraste do desenho delicado, meio que passando por cima do título, e da letra (fonte) com essas cores.”
Capa de Luciana Facchini para a nova edição de Made in Macaíba: a história da criação de uma utopia científico-social no ex-império dos Tapuias, de Miguel Nicolelis. Crítica.
“É uma capa muito bonita. Gosto muito das cores, desses grafismos meio ilusão de ótica e de como o título interage com isso.”
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FEVEREIRO, 2021
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