Ciências Sociais,

O pacto de morte do racismo

Em entrevista, Cida Bento compartilha reflexões sobre a questão racial e sua produção acadêmica e atuação na sociedade civil

12nov2020 - 05h10

Na versão mais conhecida do mito grego, Narciso é um rapaz que, ao se banhar em um lago, vê sua imagem refletida na água e se apaixona por ela. Para não abandonar a figura amada, o rapaz passa dias a fio ao lado do lago, definhando sem alimento, até que, em uma tentativa de alcançar a criatura, ele se lança ao lago e morre, afogado. É nessa figura mitológica e no estudo que Freud fez sobre ela que se fundamenta o conceito de “pactos narcísicos no racismo", elaborado por Maria Aparecida Bento, doutora em psicologia e diretora-executiva do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT). Mais conhecida como Cida Bento, ela fundou essa organização ao lado de Hédio Silva Jr., doutor em direito e advogado das Religiões Afro-brasileiras no Supremo Tribunal Federal (STF), e de Ivair Augusto Alves dos Santos, doutor em sociologia.

Ao lado de Robin DiAngelo, pesquisadora estadunidense e autora do livro Não basta não ser racista: sejamos antirracistas (Faro Editorial, 2020), Cida Bento foi uma das participantes da mesa de abertura do encontro Branquitude: racismo e antirracismo, realizado pelo Instituto Ibirapitanga nos dias 26, 27 e 28 de outubro. Durante sua fala, Bento abordou os pactos narcísicos no racismo, conceito desenvolvido em sua tese de doutorado, defendida em 2002. Por ocasião do evento, ela concedeu entrevista à Quatro Cinco Um, na qual explica como esse conceito contribui para compreender a questão racial no Brasil.

O que são os pactos narcísicos e como eles operam?

O racismo institucional vai se entranhando nas regras e processos, até que estes automaticamente excluam os não brancos, pois quem pensa esses processos são os brancos. Eles são as grandes lideranças de qualquer instituição, seja ela pública, privada, do terceiro setor, revolucionária do movimento sindical ou de empregadores.

Os homens brancos são maioria na direção dessas instituições que não são neutras, funcionam a partir da perspectiva de quem as lidera. Então o Judiciário, o Executivo, o Legislativo, é tudo de gente branca; o sujeito pode ser muito racista, ou nada racista, mas a manutenção dos privilégios para assegurar a sua perspectiva de mundo está colocada. Eu sempre digo, branquitude não é transparência, é posicionamento, é visão de mundo – então nas instituições e na sociedade civil se estabelecem regras a partir de uma perspectiva branca. O pacto narcísico é essa perspectiva que favorece, que fortalece, que protege, que assegura privilégios para o branco à medida que reserva os melhores espaços institucionais para ele, independente da intencionalidade. Se uma pessoa branca que faz uma seleção para cargo de direção ou para estagiário, por exemplo, tiver cinco candidatos ao final de um processo, a tendência dela é confiar mais nas pessoas brancas que estão nessa etapa.

Ele [o pacto] não é uma coisa instintiva, mas fala de uma grande cumplicidade, que faz com que o branco acredite no outro branco, ache que o outro branco é realmente mais bonito, que aquele cabelo é o que funciona bem dentro de instituições, que aquela pessoa branca vai seguir as regras, vai assegurar que tudo funcione direito. Por isso esta confiabilidade no branco e essa tendência a trazer outros iguais para o seu entorno, para lugares onde a competência, segundo o conceito da instituição, precisa estar assegurada.

Então o pacto narcísico é fortalecimento, é proteção, é assegurar lugar de privilégio para os iguais. E nesse conceito de iguais, ele é pacto de morte. Quando você estuda Freud, você tem o narcisismo de morte, porque o que é igual e monolítico não é gerador de vida, de energia criativa, de inventividade, é sempre mais do mesmo.

Esse pacto de morte é tipicamente o que estamos vendo na sociedade: um monte de cabeças masculinas brancas pensando tudo, que leva o país a ser um dos que mais tem mortes pela Covid-19, o país que mais mata negros, o país do genocídio da juventude negra, que tem um grande percentual de morte de mulheres e de indígenas. Então, tudo o que não é masculino e branco fica mais fragilizado, porque não tem voz nenhuma. Nosso país é uma árvore torta na qual só um lado define tudo.

A partir desta sua análise, é possível dizer que quando a gente mata a juventude negra, mata também a possibilidade de outras soluções para o país?

Exatamente. Eu trabalho com o conceito de personalidade autoritária e de medo que está naquele segmento que concebeu apenas um tipo jeito de ser bem-sucedido. Quando eu estou em grandes corporações, entro em espaços em que os homens nem precisam afrouxar a gravata, tão bem climatizado é o escritório em que as janelas não abrem, e você não ouve as pessoas caminhando, tão bem colocado está o carpete; e o conceito de sucesso é passar dias, semanas, meses e anos inteiros naquele ambiente fechado, onde o ar nem chega. Então, esse conceito exige um grande aprisionamento de tudo o que não está morto, de tudo o que tem vida ainda e de tudo o que desvia deste padrão: a sexualidade, a agressividade, a inventividade. Tudo que está em outra dimensão está aprisionado, e quem tem isso preso em si próprio fica muito desconfortável em ver o outro que, mesmo sem nada, andando descalço na favela, está cheio de dúvida, tem um corpo que umedece, que sua e que tem toda a sua vivacidade – aquilo desconforta porque o sujeito prendeu tudo o que ele tinha, tudo o que ele pôde, e a sexualidade dele acaba aparecendo na perversidade ou na repetição de todo dia.

Por outro lado, temos aquela mulher, aquele homem, que ainda ama a natureza, que cuida da natureza, que batalha pela preservação, que não acha que tem que matar um monte de gente para ser bem-sucedido, que tem outra perspectiva. Então, o segmento que tem essa visão de buscar “assegurar os bons costumes” — que é da direita, da extrema direita e dos conservadores, na qual as armas são usadas em nome da Bíblia —, fica muito incomodado com a vida que se manifesta em quem não tem esse conceito de desenvolvimento, de sociedade, de sucesso, de mundo. Mulheres negras incomodam, mulheres indígenas incomodam, esses cabelos revoltos, vermelhos, essas roupas coloridas, tudo vai incomodar quem concebeu o mundo bem-sucedido aprisionando tudo que saia desses conformes.

Que aproximações você enxerga entre o termo “fragilidade branca”, da Robin DiAngelo, e o conceito de pactos narcísicos?

Enxergo muitas aproximações. Como eu disse, trabalho com o conceito de personalidade autoritária, que é um conceito que a partir da psicologia estuda as ideologias políticas, e nele tem uma frase que diz o seguinte: "Mata-se o outro porque o outro representa o que é nosso e que não podemos suportar dentro de nós", o outro é assassinado porque é insuportável ver aquilo que é nosso, e que está dentro de nós, se explicitar no outro. Então, onde está a fragilidade branca? A fragilidade branca está na dificuldade de entrar em contato com a sua condição humana. Quando você tem a branquitude e o conceito de supremacismo branco, que impede aquele segmento de entrar em contato com a sua fragilidade porque ele prega a supremacia branca, essas pessoas não veem seus pés de barro ou não percebem a sua condição humana. Então é difícil entrar em contato com a sua dúvida, com a sua fraqueza, com a sua sensibilidade, com a sua reflexão sobre o mundo. Tudo isso vira “mimimi”, “vamos ser pragmáticos, buscar dinheiro, tempo é dinheiro”, a fragilidade vem pela dificuldade de entrar em contato com a sua condição humana. O supremacismo faz isso.

A DiAngelo traz essa questão, com a qual eu me deparo frequentemente quando estou com os brancos antirracistas. Neste momento, nós estamos simultaneamente em 25 instituições, eu trabalho frequentemente com pessoas brancas que querem transformar suas instituições em instituições mais plurais e diversas, e não há nenhum passo anterior àquele que é a pessoa reconhecer o diferencial que é ser branco, objetivamente, nas estatísticas, na condição econômica, financeira, no lugar de privilégio, mas também reconhecer o desconforto do branco com o negro, com a negra, com o indígena que ainda está pautado em outros valores, em outro conceito de sociedade, de desenvolvimento, em outra relação com os corpos e com a natureza.

A fragilidade branca é o pensamento único sobre tudo e ela é irmã de primeira hora do fascismo; este conceito que está no coração da personalidade autoritária, que é matar tudo aquilo que não é “o que nós somos e para onde queremos levar a nossa sociedade”. Então a pergunta que não cala é: por que homens brancos com mais de cinquenta anos, que são as grandes lideranças das instituições brasileiras, contribuem ativamente para o assassinato da juventude negra, dos indígenas, das mulheres, das mulheres negras, se omitem diante disso?

Por exemplo, geralmente quando uma mulher é assassinada é porque o seu ex quer voltar, mas ela não. Porque ela, muitas vezes sem ter nada, sem saber como vai construir sua vida, sem ter recursos, já disse: “eu não vou mais ficar com você”. O homem pensa: “como assim não vai mais ficar comigo?”, e ela responde novamente: “não vou, estou indo embora”. Ele não concebe isso, se pergunta “como assim ela escolheu ser livre, independente, muitas vezes sem ter nada, sem ter segurança?” Então o enfrentamento da condição humana, o reconhecimento de seus desafios, muitas vezes está por trás da fragilidade branca.

O CEERT foi fundado em 1990, e você defendeu sua tese de doutorado em 2002. Como a sua atuação no Centro ajudou você na concepção desse trabalho?

Ao falar disso é importante lembrar que trinta anos não são pouca coisa. Três lideranças de áreas diferentes, mas vinculadas ao mercado de trabalho, se juntaram no CEERT: eu, que vinha da área de recursos humanos de empresas; Hédio Silva Jr., que era liderança sindical; e Ivair Augusto Alves dos Santos, que vinha da área de políticas públicas. Então esse tripé – movimento sindical, empresa e poder público – é fundamental para pensar o trabalho do Centro. Nós trabalhávamos no Conselho da Comunidade Negra de São Paulo, que foi o primeiro, depois dele vieram centenas pelo país inteiro. Nessa época, eu estava fazendo meu mestrado, estava ouvindo trabalhadores e trabalhadoras negras dentro de instituições para saber como se operacionalizava a discriminação. Depois do mestrado, ouvi chefes e profissionais de RH, mas dentro de um mesmo projeto; primeiro eu ouvi os trabalhadores sobre como era a discriminação no recrutamento, na seleção, na promoção, na demissão, e depois ouvi os brancos, chefes de recursos humanos e chefias intermediárias. A ideia foi construída desse jeito.

Os trabalhos do CEERT, que começaram no conselho da comunidade, foram um suporte fundamental para esse conceito, pois quando você vai trabalhar com o movimento sindical, mesmo de esquerda, você está falando com brancos que também têm uma perspectiva que não considera a branquitude. Quando você vai falar com o Estado, você tem uma perspectiva de que as políticas para pobres já contemplam políticas para negros. As empresas tinham um discurso muito embrionário, mas o primeiro encontro que nós três fizemos com elas foi antes da década de 1990; já naquele período, com essas três forças, a gente discutia o perfil da força de trabalho, as diferenças de cargo, de salário, de oportunidade, e tivemos muitas ações de impacto.

Denunciar o Brasil em 1992 foi uma ação bem importante, porque a denúncia apresentada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e preparada por nós, junto com outras centrais sindicais e organizações do movimento negro, deflagrou vários processos. O governo brasileiro, através do Ministério do Trabalho [extinto em 2019], desenvolve uma série de ações para implementar a Convenção 111, por exemplo, que se referia à equidade na ocupação de empregos. Isso vem deste tempo, e foram criados núcleos em vários estados brasileiros, nas delegacias regionais do trabalho, para poder lidar com essa questão da diversidade e da equidade. Além disso, naquela época havia a pressão para se colocar o dado por raça na Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que são de preenchimento obrigatório pelas empresas, mas nós não tínhamos esse dado.

No movimento sindical, esses debates ajudaram a deflagrar a formação de núcleos que trabalhavam com este tema em todo o país, em várias categorias. Nós fizemos a primeira cláusula de promoção da equidade racial assinada nos acordos coletivos de trabalho, depois ela originou outras ações e cláusulas, mas ainda é muito pouco. Em 1996, começou o trabalho dentro das empresas, de fazer diagnóstico com censo de diversidade, fazer o trabalho com as lideranças e com as áreas estratégicas para mudar processos e programas, ou seja, mudar a instituição por dentro, verificar onde ela pode alterar seus processos para ficar mais equitativa. No campo da educação, produzimos muitos programas de formação de professores e lançamos o Prêmio Educar para a Igualdade Racial um ano antes da lei nº 10.639/2003 [que inclui no currículo escolar a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira], e dá outras providências. 

Começamos a coletar práticas pedagógicas e de gestão de professores que trabalhavam a questão racial em sala de aula, que veio perpassando a nossa história; ao longo dos anos, chegamos a coletar mais de 3 mil práticas de 1.100 municípios brasileiros. Durante todo esse processo, fomos aprendendo sobre o lugar diferente de branco, porque quando você está trabalhando em um instituição, seja ela o MEC (Ministério da Educação), seja uma empresa, seja um sindicato, você sempre está falando com lideranças brancas, e elas sempre têm uma maneira de reagir àquilo que você está trazendo.

Neste momento, em que há uma demanda pelo debate racial, você acredita que as pessoas estão buscando ser antirracistas sem romper com esse pacto?

Algumas sim, não todas. Tem muita gente neste processo, em diferentes graus, em diferentes níveis e em diferentes ritmos. Mas eu acredito nessa mudança, não acho que estamos vivendo um modismo, de jeito nenhum. Trabalhando com grandes instituições há muitos anos, consigo perceber que nelas eu sempre encontro pessoas que não querem trabalhar esse tema, mas também encontro pessoas brancas que querem sim, só que muitas vezes ainda não se veem preparadas nem para reconhecer o seu privilégio. Por isso, acho que o trabalho institucional não é essa coisa de fazer um diagnóstico, uma palestra, um curso na melhor instituição do país sobre racismo, não se trata disso. Ajuda, mas o que você precisa fazer é exercitar com a pessoa, no espaço em que ela está, pensar uma atitude antirracista. É exercício dela, porque ela precisa se deparar com seus próprios conceitos de que aquilo que ela vive não é só resultado de mérito próprio, há uma história que faz homens brancos serem as principais lideranças das instituições brasileiras.

Então, esse repensar “claro que eu tive mérito, eu lutei, eu estudava até de madrugada, para conseguir entrar na melhor universidade do país”… Bom, mas muitas vezes uma mulher ou um jovem negro, que também ficou estudando até de madrugada, não conseguiu aquele melhor emprego. Existe algo além do mérito, existe uma história que jogou cada grupo em seu lugar. O grande desafio é trazer o branco para dentro da história, porque ele foi pensado para “ver se dá uma forcinha para essa negrada, faminta, empobrecida”, como se ele não fizesse parte dessa história. Sempre digo que tudo começou para mim quando eu estava com o movimento sindical e as lideranças revolucionárias falavam: “A situação dos trabalhadores e trabalhadoras negras é uma decorrência da escravidão”, e a pergunta era “Qual é decorrência para os brancos? qual é a sua herança da escravidão?”. A resposta que recebíamos era: “Eu não fui escravocrata”. Bem, eu dizia que também não fui escravizada, mas que herança o meu segmento traz disso e o seu segmento traz disso? É preciso colocar o branco na história.

Falamos muito do legado da escravatura para os negros. Existe um legado da escravatura para os brancos?

A condição de superioridade, que está liderando todas as organizações brasileiras, públicas e privadas. Ter tido mais acesso à terra, ao trabalho, ao acolhimento, se pensarmos nos imigrantes – que, embora trabalhassem, tiveram um tipo de recepção pelo país que foi um empurrãozinho da meritocracia. Assim como a condição dos negros hoje tem a ver não só com o racismo de hoje, mas com a história do país, a situação do branco hoje tem a ver não só com o que ele é hoje, mas também com o que seus antepassados brancos vivenciaram e acumularam simbólica e concretamente. É sempre importante lembrar que o pacto narcísico é um instrumento de dominação, porque às vezes as pessoas pensam que ele se refere “a um monte de grupo de iguais”, como as mulheres negras, por exemplo, como se fosse algo relacionado a um pacto de igualdade.

No entanto, o pacto narcísico diz respeito a quem tem um mundo construído para si, que atende a si próprio e que perpetua seu segmento numa condição de dominação. Por isso ele tem similaridades com a masculinidade, com a cisgeneridade, porque a sociedade funciona como se só existissem esses segmentos e os demais têm de ficar pressionando para serem considerados parte da sociedade; eles são parte, mas tudo caminha como se apenas os segmentos-padrão fossem os segmentos sociais. Vejamos como exemplo uma pessoa com deficiência, pense em um cadeirante. Imagine que eu estou num ônibus, ele para — e eu estava com pressa —, o motorista desce, opera o elevador, sobe com o cadeirante, vai até o espaço adequado, coloca o cinto de segurança nesse cadeirante e só depois ele volta a dirigir. Quem estava ali com pressa sabia que isso era possível, mas quem está numa sociedade onde a pessoa com deficiência não tem lugar, pensa “Nossa! Que demora, para que isso?”. Isto acontece porque a pessoa está acostumada com um mundo que funciona só para ela, é esse o conceito da branquitude e da masculinidade neste lugar em que o mundo funciona para atendê-los, porque eles estão na liderança e constroem tudo desse jeito.

Por que você faz essa leitura de que o que estamos testemunhando não é um modismo?

Porque não vem de agora e porque, com todos os desafios que estão colocados, esse movimento vem de muita luta, em uma conquista consistente; nós temos que mudar o país e não o estamos mudando apenas para nós, mas para toda a sociedade, tornando-o mais democrático. Quando vem esse tipo de debate, sobre como as instituições são bolhas brancas em um país tão diverso, podemos entender que a gente está dando passos muito concretos e esses debates não param. Além disso, há uma reação branca que não para de crescer, porque eles estão desesperados que nós estamos explicitando a apropriação e a dominação que eles praticaram por mais de quinhentos anos. Isso não quer dizer que todo branco é dominador, mas todos os dominadores foram ou são brancos. [Achille] Mbembe e [Frantz] Fanon já falavam que os brancos têm consciência da expropriação que foi feita com os negros, então quando a voz negra cresce, começa a apontar e a estar nos mesmos lugares, há um sentimento de ameaça muito grande, que eles respondem armando mais a polícia e resistindo à entrada negra nas instituições, de todas as formas possíveis.

Você acha que essa onda conservadora que estamos vivenciando tem relação com isso?

Tem. Ao mesmo tempo, crescem as vozes brancas em todo o país que buscam se juntar às vozes negras para enfrentar a mudança que a sociedade brasileira precisa fazer. Então, não significa que tivemos uma sensibilizada geral repentina, isso é reflexo da ação do movimento negro de muito tempo, é uma impaciência que está na voz das mulheres negras, da juventude negra, das pessoas que têm uma longa trajetória no movimento. Está todo mundo muito impaciente, todos se perguntam: “Quando é que vocês vão se mexer? Até quando vamos ficar nessa situação?” Cresce também o número de instituições que se sentem desconfortáveis em serem hegemonicamente brancas. Assim, eu não tenho dúvidas que isso veio para ficar. Existe um debate e uma tensão que não vão voltar atrás agora, para que os brancos fiquem todos sossegados e os pretos esqueçam tudo, isso não existe; podemos vivenciar momentos de mais tensão, momentos de recuo, mas o processo está em andamento, e eu vejo isso em muitas instituições por onde passo. Há um tensionamento, uma discordância, mas elas não param de caminhar.

Quem escreveu esse texto

Carine Nascimento

É jornalista.