História,

Da Abolição às conquistas sociais

Em entrevista, a historiadora Wlamyra Albuquerque fala sobre os aprendizados políticos e históricos do movimento negro no Brasil

13maio2021 - 07h05 | Edição #45

“A forja do passado não diz respeito apenas ao passado, mas informa uma visão do presente e um desejo para o futuro” — essa é a análise de Wlamyra Albuquerque, historiadora e autora de livros sobre emancipação, abolição, racialização e pós-abolição no Brasil. 

Na encruzilhada dos debates sobre cotas, Albuquerque publicou O jogo da dissimulação: abolição, raça e cidadania no Brasil (Companhia das Letras, 2009), um mergulho nas três últimas décadas do século 19 que traz debates presentes nos movimentos negros na Bahia da época e mostra como o processo de emancipação foi marcado por uma profunda racialização das relações sociais. Ela também escreveu Uma história da cultura afro-brasileira (Moderna, 2009), obra com coautoria de Walter Fraga Filho e vencedora do Jabuti 2010 na categoria Didático e que narra a formação de uma cultura original a partir do encontro de diversas culturas africanas com tradições indígenas e portuguesas, e o infantojuvenil O que há de África em nós (Moderna, 2013) explica a presença africana no Brasil através de uma história de viagens.

Seu interesse em analisar questões raciais a partir da perspectiva histórica partiu de um incômodo sentido no início da carreira com a falta do debate racial no ambiente acadêmico. A discussão existia no campo sociológico, mas não era contemplado no debate histórico. O movimento de inclusão da questão racial para pensar o Brasil e suas desigualdades ganhou campo em suas pesquisas na Universidade Federal da Bahia.

Em abril, Albuquerque participou do Festival Serrote, realizado pelo Instituto Moreira Salles, ao lado do jornalista e sociólogo congolês Serge Katembera e do jornalista e apresentador do podcast Vidas Negras Tiago Rogero, em conversa sobre o papel da identidade nas estratégias políticas de combate ao racismo. A edição 37 da revista Serrote foi lançada no evento e traz seu ensaio mais recente, “As impossíveis brancas nuvens do racismo”, que discute o privilégio branco. 

À época, Albuquerque concedeu uma entrevista à Quatro Cinco Um em que falou sobre a experiência de pesquisar a escravização africana, o pós-abolição no Brasil e as lutas raciais em tempos de pandemia.

Em O jogo da dissimulação, você escreve que a falta de políticas públicas para os negros no Brasil pós-abolição culminou na não construção de uma cidadania plena para essa população. Como se deu esse processo?

Essa é a questão que sempre preciso responder, mas ela é fácil porque é o próprio argumento do meu livro e continua sendo a questão que mais me mobiliza para pensar sobre a sociedade brasileira. Ela chega em boa hora porque articula a questão da cidadania, vista como algo relativo à República, mas não é bem assim que nós historiadores lemos o debate da cidadania e da abolição. 

Estamos aí às portas do mês de maio, onde novamente o dia 13 surge como uma data a ser comemorada ou para protestar contra a desigualdade racial no Brasil, que é cada vez mais alarmante e se torna um problema mais agudo à medida que a República amadurece. O primeiro ponto — e tem sido o meu esforço de tentar dizer isso de muitas maneiras — é entender que a abolição e a proclamação da República não se constituíram como episódios que estavam fora do horizonte das elites da época.

A desigualdade racial está longe de ser meramente uma herança do escravismo, ela é parte do projeto republicano, e isso parece ser tão difícil para a sociedade brasileira admitir. Sempre se lê a cidadania subalternizada das populações negras e indígenas na República como uma decorrência quase que instantânea e natural do mundo escravista, como se não houvesse ali uma agência, uma ação das elites, que promoveram tanto a abolição quanto a República. Na verdade, a desigualdade racial estava no centro de um projeto político-nacional que acabou sendo vitorioso. 

Seu ensaio "As impossíveis brancas nuvens do racismo" fala sobre as guerras de narrativas e cita a tentativa de recolocar a princesa Isabel no papel de salvadora. Como esse movimento faz parte do que você nomeia de “forja do passado”? 

Tem uma estratégia política conservadora que sempre se remonta: tirar qualquer possibilidade de mudança que seja empreendida pelos populares, pelos trabalhadores. A ideia de que qualquer mudança ou melhoria para os trabalhadores sempre vem por meio de alguma ação tutelar, algum benefício ou concessão, fazendo referência a algo que foi dado, não conquistado. 

Nessa guerra cultural, é importante para essa narrativa conservadora que a princesa Isabel assuma novamente esse lugar de redentora, de benfeitora da população negra por ter assinado a Lei Áurea, que se tentou construir em torno de sua memória, mas que não sobreviveu. 

Há uma velha estratégia conservadora de sempre tentar esvaziar a capacidade de mobilização daqueles que estão em posição desfavorável no mundo

Para essa camada conservadora, mais importante do que ressuscitar essa imagem é mostrar para as populações negras que elas só conseguem qualquer tipo de vitória à medida que isso lhes é oferecido, concedido, e de uma maneira piedosa, até cristã. 

Isso é parte dessa velha estratégia conservadora de sempre tentar esvaziar a capacidade de mobilização daqueles que estão em posição desfavorável no mundo e mostrar que eles devem esperar, aguardar e merecer alguma concessão vinda de uma autoridade santificada.

Essa narrativa também visa o apagamento das lutas dessas populações?

Sim. Toda vez que falo sobre o apagamento da luta política de negros, livres ou libertos, que se empenharam na luta pela abolição, me lembro de uma história intrigante que encontrei enquanto pesquisava, de um africano que já em 1888 era alforriado há alguns anos, mas que se envolve no processo de abolição. Em seu pequeno sítio, acolhia escravizados que estavam tentando comprar a alforria — enquanto estes, vistos como fugitivos pela polícia e por seus senhores, negociavam por meio de procuradores.

Fico pensando no senso de liberdade que esses sujeitos carregavam, de alguém que já escapou, que estava fora da malha da escravidão, mas que ainda assim se envolveu de alguma maneira com a luta pela liberdade, oferecendo abrigo para alguém que estava fugindo do sistema escravista. Penso também na percepção política que tinham, pois mesmo que eles não fossem os jurisconsultos dos círculos políticos do império, de alguma maneira sabiam da necessidade daquele papel e de como ocupavam com muita propriedade esse lugar. Esse tipo de percepção e ação no jogo político é justamente o que se pretende silenciar. 

Nessa guerra de narrativas, o silêncio dessa população é fundamental, é um mecanismo que o conservadorismo precisa acionar para mostrar que as rédeas do jogo político estão sempre na mão de um único grupo. Isso é uma farsa, a política caminha sob tensão, o tempo todo, entre grupos que têm interesses divergentes em um mundo tão desigual.  

É possível fazer uma correlação de que quando há o apagamento dos movimentos da negritude também se passa a mensagem de que não se pode fazer nada hoje, uma vez que os movimentos sociais não teriam relevância? 

Você está certíssima! Inclusive, não é acidental que haja toda essa investida contra as ciências humanas. Há uma tentativa de esvaziamento do caráter científico da história, das linhas de financiamento na área de história, de sociologia, de antropologia, porque nós trabalhamos com a ação de grupos e indivíduos ao longo do tempo. E mais do que entender o passado em si mesmo, acho que o nosso trabalho é entender como os sujeitos transitam, se organizam, lutam e enfrentam as adversidades em outros cenários, contextos e tempos. 

Tem uma máxima entre os historiadores: "Quando a gente está estudando o passado, transita como um viajante em um país estrangeiro", porque tem toda uma lógica de dominação cultural e das relações que são estrangeiras, são de um outro tempo, criadas por outros sujeitos; mas que também são nossas, pois nos constituíram no presente.

Quando entendemos os sujeitos do passado, nos damos conta do nosso papel hoje, da responsabilidade por bancar um projeto de nação que sustente a igualdade e os tais princípios republicanos

No momento que entendemos como esses sujeitos do passado se moviam e construíam seus projetos de mundo e de nação, estabeleciam conflitos e enfrentavam as adversidades, nos damos conta do nosso papel no mundo de hoje, do quanto nós somos responsáveis pelas mudanças e por bancar um projeto de nação que sustente a igualdade e os tais princípios republicanos, que estão cada vez mais distantes à medida que a República envelhece. 

Neste mesmo ensaio para a Serrote, você lembra da derrubada de estátuas de figuras ligadas à escravização africana realizada em vários países do mundo. Alguns defendem que derrubar esses monumentos é apagar o passado e que deveríamos criar processos de mediação com essas obras. Essa mediação é possível?

Eu teria duas respostas. Se você estivesse perguntando para a militante, eu acho que deveriam ir todas abaixo, e as pedras e o mármore deveriam ser usados para fazer calçamento de rua ou ter algum tipo de finalidade mais nobre do que o rosto desses sujeitos. Como professora de história, e de história do Brasil, acho que esses monumentos precisam ser deslocados dos lugares onde estão colocados, que são pedestais, locais que lhes garantem um lugar de destaque. 

Eles precisam, de alguma maneira, ser deslocados dali e nesses lugares pode-se muito bem construir outras memórias, que vão emergir de uma discussão com a sociedade civil e com os grupos que foram o tempo todo silenciados por essas imagens monumentais, feitas de mármore e de pedra em dimensões gigantescas. Deixá-las tal como estão, colocando algumas placas explicativas, como algumas pessoas sugerem, é muito pouco. 

Em novembro passado, a Fundação Palmares realizou um desmonte e retirou nomes importantes da nossa cultura da lista de notáveis, sob a justificativa de que essas pessoas estavam vivas e só poderiam ser homenageadas após a morte. O que isso diz sobre a valorização do Estado brasileiro de sua população negra?

Olha, acho que a ação da [Fundação] Palmares é para prestar contas a uma lógica conservadora muito presente neste governo, de mostrar serviço e mostrar que está afinado com uma determinada leitura extremamente elitista, racista, própria do governo Bolsonaro. E isso está longe de ser uma interpretação brilhante minha, está escancarado; o próprio presidente demonstra e explicita isso o tempo inteiro, não estou fazendo nenhum exercício mais sofisticado de pensamento para chegar a essa conclusão. 

Uma das finalidades mais importantes da Fundação Palmares — que o seu presidente nega, o que é um contrassenso — é servir como uma espécie de catalisador da valorização da população negra. Isso tem uma importância enorme se você pensa na juventude negra, que precisa ter referências, e essas não estão colocadas nas estátuas no meio da rua. A Fundação Palmares é uma tentativa de criar, em outro lugar, a construção dessas referências, desses parâmetros de luta por algo coletivo, de luta antirracista.

A ideia de que não se homenageia pessoas que estão vivas é rasa. É uma tentativa de manutenção das desigualdades e é impressionante como isso é um projeto de governo. 

Mesmo tendo em vista que os movimentos sociais não vão deixar essas figuras desaparecerem, existem consequências a longo prazo dessas tentativas de apagamento? 

Uma coisa boa de ser historiadora é que a gente está acostumado a trabalhar olhando para a estrutura e para a longa duração, então vamos percebendo que os avanços são sempre atropelados por ondas conservadoras. As mudanças sempre trazem em si mesmas um tanto de manutenção do que é velho. 

Há uma tentativa bastante agressiva desse conservadorismo no sentido de fazer com que as coisas — e dentro dessas coisas estão as memórias negras, as lutas negras —, voltem ao ponto abaixo de onde estavam, mas eu não acredito que isso seja possível, porque percebo uma juventude negra cada vez mais atenta aos movimentos que procuram lhes tirar direitos, preocupada em denunciar todas as formas de violência, ciente das formas de manutenção de desigualdades que estão presentes na sociedade brasileira. 

Olha, estou com tanta saudade da universidade. Chegava no campus, e no pátio tinha aquele tanto de gente com o cabelo diferente, carregando bandeiras diferentes, LGBTQIA+, enfrentando o medo que vem da violência das famílias, da polícia, da sociedade civil como um todo, pessoas cada vez mais jovens querendo existir, reivindicando a sua cidadania. Eu não acho que seja possível extirpar isso por conta de uma onda conservadora, pois são eles que estão nas cordas, desesperados, tentando assegurar o seu lugar – essa luta só vai seguir. 

Como os ativismos digitais colaboram com essa luta e com as novas formas de enfrentamento? 

Como tudo nesse mundo pandêmico, a internet virou o grande palco, a praça pública onde a gente pode expor, disputar, reivindicar e hastear nossas bandeiras como uma maneira de não sucumbir diante de toda essa avalanche conservadora que estamos enfrentando. Nesse sentido, ela é sim um espaço fundamental e a gente tem uma juventude fazendo isso com muita competência. Agora, isso é só uma parte, a ponta do iceberg de para onde está indo o movimento negro, como um todo, pensando em um grande movimento social, com vários grupos diferentes, inclusive com percepções diferentes das estratégias de luta. 

Mesmo de forma virtual, estão acontecendo muitos cursinhos, chamados de quilombos educacionais. Temos a organização de lideranças em comunidades de favelas, monitorando e administrando a pandemia melhor do que os municípios, conseguindo levar assistência e informação onde a prefeitura não consegue dar conta. Não acho que o saldo disso seja só imediato, tem uma consequência política que vai além do mundo pandêmico — o modo como se reinventam as comunidades, o modo como isso vai forjar lideranças. Essa é uma parte do ativismo que a gente percebe e vê resultados nas redes. 

Isso é um aprendizado político que não se pode descartar e que passa a organizar a maneira como essas pessoas estão no mundo. Quando alguém é atingido por uma rede de solidariedade, é levado a pensar em por que a pobreza existe e por que os pobres somos nós, negros; há um aprendizado que não dá para esquecer, não tem como deixar de saber e é muito revolucionário no sentido de constituição do sujeito e dos grupos. Então, acho que a gente vai sim achar saídas para essa ordem pandêmica, para essa desordem que procura se manter como desordem para garantir que alguns continuem com tantos privilégios e a maioria com tanta miséria. A gente precisa fazer isso e não tem outra forma de existir neste mundo senão assim – na luta. 

Quem escreveu esse texto

Carine Nascimento

É jornalista.

Matéria publicada na edição impressa #45 em abril de 2021.