Livro e Leitura,

Para onde vão os livros?

O que fazer com as obras que não cabem mais na prateleira? Intelectuais e escritoras(es) contam que destino dão aos seus livros quando querem se desfazer deles

09abr2021 - 11h48 | Edição #44

A pandemia e suas imposições fizeram com que todos ficassem mais tempo em casa. Seja porque passaram a trabalhar remotamente, seja porque evitaram sair, muitos voltaram seu olhar para esse espaço, chegando até os livros e as bibliotecas pessoais. 

Para quem fez uma limpa, fica a pergunta: o que fazer com as obras que, pelas mais diversas razões, não cabem mais na prateleira? A Quatro Cinco Um perguntou para intelectuais, escritoras e escritores que destino dão aos seus livros quando querem se desfazer deles. 

O que tem na pilha?

Antes de começar a jornada, vale ficar atento a algumas práticas que facilitam a vida tanto de quem doa quanto de quem recebe. 

Conheça o acervo. Quem vai receber a doação precisa saber a quantidade e o tipo de livro que está sendo doado. Muitas bibliotecas e projetos não têm condições de processar uma grande quantidade de livros ou só recebem um tipo de material. Em geral, depois da frase “tenho uns livros aqui para doar” vem as perguntas: “quantos?” e “de que tipo?”. Ter essas respostas ajuda a garantir um destino mais acertado. 

Confira o estado. Vale checar as condições dos livros, observar se não faltam páginas e se a capa está bem fixada. Se for um livro raro ou de uma edição esgotada, vale a pena procurar quem possa restaurar o volume para destiná-lo a uma biblioteca. Uma breve folheada dá conta dessa checagem e, de quebra, pode trazer boas memórias – aquela fotografia antiga usada como marcador, anotações de leitura por uma versão mais nova de si. 

Para quem doar?

Bibliotecas públicas e centros culturais
Instituições públicas são uma boa opção àqueles que querem colocar seus livros em uso. Quem quiser doar para uma das 6.057 bibliotecas públicas do Brasil pode consultar o site do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas (SNBP), que consolida informações de equipamentos culturais de todo o país. 

Hélio Menezes, antropólogo e curador de arte contemporânea do Centro Cultural São Paulo (CCSP), ressalta que nos equipamentos públicos os materiais têm mais chance de circular: “Eu doo meus livros às bibliotecas do CCSP, que reúne divisões de arte, HQs, Biblioteca Braille, entre outras. Como se trata de uma biblioteca pública com grande circulação diária, gosto de saber que os livros que doei rapidamente encontram outras mãos para a leitura”. No caso do CCSP, as doações devem ser entregues nas unidades, sendo aceitos, preferencialmente, livros de literatura em bom estado. No site da prefeitura paulistana é possível acessar, além da lista de endereços das bibliotecas, critérios e instruções para essas doações. 

Bibliotecas comunitárias
Doações também são muito importantes para fortalecer projetos comunitários de incentivo à leitura. A escritora Cidinha da Silva doa seus livros para a rede LiteraSampa “que congrega mais de uma dezena de bibliotecas comunitárias em São Paulo. A coordenação da rede faz a triagem dos livros e depois os encaminha para as bibliotecas que têm interesse naqueles títulos ou temáticas”. O LiteraSampa é uma das redes integrantes da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias (RNBC), que reúne mais de cem bibliotecas em nove estados e traz informação sobre elas em seu site e no aplicativo Mapa de Leitura.

Novas salas de leitura
Para quem está no Rio de Janeiro, a Prefeitura — através da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro (Secerj) — criou o Rota da Leitura, que busca doações e destina os materiais para a montagem de salas de leitura em locais com baixo índice de leitura ou escassez de equipamentos culturais. O projeto, desenvolvido durante o período de isolamento social, liberta os livros sem que doadores precisem sair de casa. Semanalmente, um carro da prefeitura percorre uma rota recolhendo livros – no mínimo dez, de qualquer tipo, exceto didáticos – daqueles que tiverem realizado um agendamento via WhatsApp ou formulário.

Bibliotecas especializadas
Para quem tem livros teóricos ou de algum campo específico do conhecimento, vale buscar bibliotecas especializadas no assunto em questão ou vinculadas às instituições de ensino superior. Este é o caminho seguido por Nilma Lino Gomes, professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ex-ministra no Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos: “Meus livros são doados para estudantes do Programa de Ações Afirmativas da UFMG e para a biblioteca de sua Faculdade de Educação. Estou organizando mais livros para doar, e dessa vez pretendo enviá-los para a biblioteca da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). Acredito que, nas bibliotecas, os livros que doamos poderão ser lidos por um maior número de pessoas”. 

Pequenos livreiros
A doação, além de colocar os livros novamente em circulação, pode ajudar pequenos livreiros, bastante prejudicados pela pandemia, a aumentarem seus acervos e sua renda; além de fortalecer o comércio e os circuitos locais dos livros. É a prática do psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP) Christian Dunker quando faz uma das limpezas periódicas em sua biblioteca: “Gosto de encaminhar o que posso para pessoas queridas, jovens alunos e demais pessoas que terão no presente algum incentivo a mais. Risco e rabisco meus livros à caneta, eles contêm a história de minha leitura e do que representaram para mim naquele momento. O que não se distribui assim vai para o querido Jairo, que tem a sua banquinha de usados há tantos anos no Instituto de Psicologia da USP e que, de quando em quando, fica felizão com uma nova remessa, que será distribuída intra corporis”. 

Outras ideias
O professor, historiador e escritor Luiz Antonio Simas costuma enviar seus livros para bibliotecas públicas, mas compartilhou, também, uma troca um tanto diferente: “Na maior reforma que fiz nos meus livros, negociei muita coisa com um sebo e restaurante do Rio de Janeiro, o Al-Farabi [fechado no início em 2020], de forma inusitada. Fiz a permuta de livros por cervejas e posso te dizer que bebi quase metade da minha biblioteca ao longo de dez meses”. 

Quem escreveu esse texto

Carine Nascimento

É jornalista.

Matéria publicada na edição impressa #44 em março de 2021.