Ciências Sociais,

Não existe racismo sem racistas

Ciclo de debates discute o papel e os limites dos brancos na luta contra o racismo

26out2020 - 03h00

O Instituto Ibirapitanga (IB) realiza, a partir de hoje e até quarta (28), o encontro virtual “Branquitude: racismo e antirracismo”. A programação é aberta, com sessões realizadas sempre no final da tarde e transmitidas ao vivo no canal do instituto no YouTube, onde ficarão disponíveis. Os debates reúnem palestrantes nacionais e internacionais e chega com um convite para que toda a sociedade, brancos e negros, se engaje na pauta das questões raciais. Ao longo de cinco mesas, o evento traça um percurso que parte do reconhecimento de que o racismo é estrutural e estruturante na sociedade brasileira, passando pelos mecanismos de sua manutenção, pelo lugar dos brancos nessa discussão e pelas possibilidades de ação dos indivíduos. 

"Nós não estamos inaugurando nada, mas reconhecendo uma luta histórica que precisa ser fortalecida, visibilizada e reverberada", diz o diretor-presidente do instituto, Andre Degenszajn, sobre o processo de reflexão que culminou na realização do encontro. A instituição foi fundada em 2017 pelo cineasta Walter Salles e tem a equidade racial como um dos seus pilares de atuação, por meio de parcerias com organizações que atuam no combate ao racismo.

Neste contexto político-social em que a pauta antirracista está presente com mais intensidade no debate público e que pessoas e instituições se questionam sobre como elas podem reforçar a luta contra o racismo,Degenszajnlembra, parafraseando uma célebre frase de Sueli Carneiro, que “todos os brancos são beneficiários do racismo, mas nem todos são signatários”. Ele ressalta que a inserção do branco na luta antirracista deve ser informada por uma reflexão sobre branquitude, pois é perverso achar que racismo é um assunto que diz respeito apenas à população negra: “Não se pensar racialmente é um privilégio, não se reconhecer dentro do sistema racial é muito confortável, porque na melhor das hipóteses ‘eu não faço nada, eu não tenho nada a ver com isso, esse é um problema dos racistas’”, afirma.

Sueli Carneiro, doutora em Educação e coordenadora executiva do Geledés: Instituto da Mulher Negra, é uma das convidadas na mesa “Alianças possíveis e impossíveis entre brancos e negros para a equidade racial”, que abre o segundo dia do evento, ao lado de Lia Vainer Schucman, professora do departamento de Psicologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e co-curadora do evento. Lia lembra de uma questão essencial: “A pauta que olha para a branquitude é antirracista, pois pensa quais são os privilégios ou vantagens que os brancos ganham dentro de uma estrutura onde eles racializaram o outro, para se colocarem neste lugar de superioridade”. 

Para a curadora é importante destacar que a constatação do aspecto estrutural do racismo e da branquitude como lugares de vantagens não pode ser imobilizante para a atuação dos sujeitos. Pelo contrário, eles podem agir criticamente como indivíduos e dentro das instituições: “Eu sou beneficiada pela branquitude, isso é uma herança do mundo que eu herdei ao nascer, e isso me dá um lugar de privilégio. Mas depois o que eu faço com isso? O que os brancos fazem com isso? Distribuem esse privilégio entre si, na escolha de outro branco para o mercado de trabalho, na escolha do aluno branco em primeiro lugar no doutorado, na exclusão das pessoas negras dos espaços de decisão econômica e política, ou seja, tem algo que é herdado e tem algo que é ativo. A responsabilidade está nas decisões ativas, tomadas diariamente pelo sujeito branco”, exemplifica. 

A mesa de abertura do evento trata justamente dos mecanismos de legitimação do racismo, a partir da articulação de conceitos elaborados nos Estados Unidos e no Brasil, tais como “fragilidade branca”, cunhado Robin DiAngelo, professora associada de Educação na Universidade de Washington, e a ideia de “pactos narcísicos no racismo”, elaborada por Cida Bento — diretora do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) e doutora em Psicologia. Cida Bento afirma que esses conceitos podem operar de forma intencional ou não conforme a atuação de instituições públicas e privadas, que vão elaborando regras e processos que automaticamente excluem os não brancos. "O pacto narcísico é essa perspectiva que favorece, fortalece, protege e assegura privilégio, à medida que reserva os melhores espaços institucionais para brancos", explica Bento.

O encontro está menos dedicado a explicar o que é branquitude e mais focado em discutir possibilidades, limites e propostas de ação, entendendo que as pessoas brancas devem estar implicadas no debate. Faz isso inclusive ao discutir o papel central da comunicação na produção e no enfrentamento ao racismo e o papel dos sujeitos que querem agir para o desmantelamento dessa estrutura. 

Sobre essas movimentações, a partir do trabalho realizado pelo CEERT há trinta anos com diversas organizações, Bento ressalta que para as pessoas brancas que querem transformar as instituições em espaços mais diversos: “Não tem nenhum passo anterior àquele que é a pessoa reconhecer o diferencial que é ser branco, objetivamente, nas estatísticas, na condição econômica, financeira, no lugar de privilégio, mas também reconhecer o desconforto do branco com o negro, com a negra, com o indígena que ainda está pautado em outros valores, em outro conceito de sociedade, em outra relação com os corpos e com a natureza”. Ou seja, sem a discussão de branquitude, o racismo continua a ser um “crime perfeito”, do qual vemos os efeitos, mas não reconhecemos os agentes. 

Branquitude: racismo e antirracismo 

De 26 a 28 de outubro, no Canal do Instituto Ibirapitanga no YouTube 

Segunda-feira, 26 de outubro 

18h – O branco na luta antirracista: limites e possibilidades

Robrin Diangelo, Cida Bento e Thiago Amparo (mediador)

Terça-feira, 27 de outubro

16h – Alianças possíveis e impossíveis entre brancos e negros para a equidade racial 

Sueli Carneiro, Lia Vainer Schucman e Ana Paula Lisboa (mediadora)

18h – O protagonismo negro no desvelar da branquitude

Deivison Faustino, Lourenço Cardoso e Luciana Brito (mediadora)

Quarta-feira, 28 de outubro

16h – O papel da comunicação no antirracismo

Liv Sovik, Nic Stone e Tiago Rogero (mediador) 

18h – O que podem os indivíduos diante da estrutura?

Jurema Werneck, Thula Pires e Bianca Santana (mediadora)

Quem escreveu esse texto

Carine Nascimento

É jornalista.