A Feira do Livro,

Laerte e Pedro Vinicio usam sua arte para se entender e entender a vida

Cartunistas de diferentes gerações conversam sobre o humor como diversão, terapia, crítica e política

12jun2023 - 11h40 | Edição #70

“Ninguém é sério aos dezessete anos”, diz a primeira linha do poema “Romance”, de Arthur Rimbaud. Nem aos recém-completos 72, poderia dizer Laerte. No último dia d’A Feira do Livro, a cartunista mais famosa do Brasil dividiu o espaço lotado do Auditório Armando Nogueira — que teve até fila na porta — com o estreante Pedro Vinicio, o jovem cartunista de Garanhuns que há dois anos publica tirinhas de humor sobre situações de mal-estar e constrangimento da vida contemporânea — agora reunidas no livro Tirando tudo tá tudo bem, pela Cobogó, prefaciado pela própria Laerte.


A cartunista Laerte Coutinho [Gabriel Guarany/Divulgação]

Com mediação do jornalista Fernando Luna, a cartunista conta que o primeiro contato com Pedro Vinicio aconteceu nas redes, quando uma editora mostrou o perfil com tiradas em formato de charge que dia após dia recebia mais seguidores no Instagram. “Vi quem era o menino e o trabalho dele é assombroso: é antenado e corajoso em relação ao que a gente vive. Não há pontos baixos. É o tipo de trabalho que dura muito tempo”, disse Laerte. “Eu quis conhecê-lo e ouvir dele: quem é você?, de onde veio?, e para onde vai?”.

“Eu sou o Pedro e faço alguns desenhos que algumas pessoas gostam.” Nesse caso, “algumas pessoas” pode ser quantificado em pelo menos seus 577 mil seguidores (Laerte acumula 711 mil na mesma rede). Meio tímido, Vinicio conta que começou do começo: com desenhos na escola, depois pintando o muro do colégio a convite de uma professora, aí veio a vitória numa competição de desenho que deu gás para o resto. Mas foi só na pandemia que a criação de desenhos humorísticos ganhou espaço. “Em algum momento, falaram que eu era cartunista. E eu não sabia o que era isso, então pesquisei no Google, e o primeiro resultado era a Laerte. E eu pensei ‘nossa, que massa’”, disse o artista.

“Gosto do conceito do Pedro Vinicio de contar com os ‘erros’ do desenho. Basquiat utilizava isso e ele é uma referência para mim, com essa arte fora do entendimento de ‘certo’. E eu sei que alguma disciplina é necessária para produzir, mas eu sou geminiana. Não lido bem com essa disciplina toda”, disse Laerte.

Laerte contou que durante a pandemia “fazia alguns trabalhos, fotografava e ia tomar banho”. “Acho que o processo de identificação das pessoas com o meu trabalho e o do Pedro, principalmente na pandemia, se deu porque todos também estavam isolados e passando por processos parecidos: tentando se entender, entender o que estava acontecendo. E às vezes o que estava acontecendo era o mais puro caos e esse vínculo com a solidão causado pelo afastamento. Isso também apareceu na nossa arte”, disse a veterana.

Decifra-me

Luna observou que o humor pode ser o tema principal de Laerte e Pedro, mas talvez só até o quadrinho dois. Em primeiro plano, as charges são engraçadas pelo maneira como são escritas ou localizadas no papel/tela; mas como outras formas de humor, o terceiro, quarto e quinto plano dos desenhos trazem identificação, crítica aos outros e a si mesmos, sátira política, graça em coisas que deveriam ser pouco engraçadas e aquela vergonha meio cotidiana. “Acho que abraçamos bem isso: esse reconhecimento do sentir, da vulnerabilidade, de não ter medo de demonstrar e acabar colocando para fora”, disse Laerte.

“Lembro de pensar nas primeiras artes que fiz na pandemia: eram paisagens, mas eu não gostava e acabei pensando ‘isso não vai me levar a nada’. Mas também eu não estava querendo ir para lugar algum”, disse Vinicio, entre risos da plateia. A certeza que tem, segundo ele, é do apoio dos pais, que o aconselham a continuar produzindo arte, independente do que o futuro trará.


O cartunista Pedro Vinicio [Gabriel Guarany/Divulgação]

Vinicio é relacionável, está próximo dos temores da juventude que não sabe muito bem para onde ir, é inserido no vocabulário da internet, não tem medo de errar — e até gosta do rascunho meio rabiscado como parte de sua arte final. Laerte é política, artística, musical, antenada nas últimas polêmicas do Twitter — embora admita não entender o meme “Laerte, eu não entendi”, que vê aos montes nas replies dos cartuns que publica diariamente na rede social.

Se Laerte é lacaniana e quer se conhecer e conhecer o mundo profundamente; Pedro é psicanalítico e quer lidar com o sentimento de se sentir perdido e meio sem rumo na vida. É normal que de vez em quando os dois troquem de papel e o tema dela vire o tema dele, em só mais um dos processos comuns que acontecem entre os mestres e seus aprendizes.

A Feira do Livro acontece de 7 a 11 de junho na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.