A FEIRA DO LIVRO 2026,
Mapa das Livrarias de Rua de SP encolhe após fechamento de dois de seus 37 espaços
Ameaça de plataformas digitais e megaeventos do setor foi tema de mesa n’A Feira do Livro
04jun2026Quando o Mapa das Livrarias de Rua de São Paulo foi lançado, no final do ano passado, a sensação era de que a capital paulista vivia um momento de singular efervescência desses espaços culturais.
Mas dois dos 37 empreendimentos incluídos no mapa, as livrarias Caraíbas e Diálogos, nas zonas oeste e leste, respectivamente, fecharam as portas nos poucos meses que se passaram desde então. A informação é dos livreiros que participaram de uma mesa sobre o mapa no Palco da Praça, n’A Feira do Livro na quarta-feira (3).
Eles eram Cecilia Arbolave, da Banca Tatuí; Julia Souto Araujo e Tereza Grimaldi, da Livraria Miúda; Monica Carvalho, da Livraria da Tarde; e Adalberto Ribeiro, da Livraria Simples. A mediação ficou a cargo de Luiza Thesin, que assumiu a diretoria da Biblioteca Mário de Andrade no início deste ano.
A situação reflete as dificuldades que esses negócios têm para se manter diante da concorrência com as plataformas digitais e os megaeventos literários, ainda mais com os custos elevados de um espaço físico na capital paulistana.
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São Paulo até vem apresentando algumas propostas para salvaguardar os livreiros de rua. A prefeitura lançou neste ano um edital para premiar, com R$ 50 mil cada, quarenta livrarias de rua que desenvolvem atividades culturais. Enquanto isso, o vereador Nabil Bonduki (PT) apresentou um projeto de lei que defende a isenção de IPTU para os estabelecimentos.
A maior demanda da classe a nível nacional, porém, passou quase dez anos parada e só em 2024 voltou a tramitar. Trata-se da Lei Cortez, que estabelece um teto de desconto para livros recém-publicados pelo período de um ano.
Noite das Livrarias
Arbolave contou que o Mapa das Livrarias de Rua surgiu como uma reação a essa concorrência que ela e os colegas livreiros consideram desleal. A ideia, ela disse, nasceu na própria A Feira do Livro passada, em uma reunião informal de livreiros que já tinham se envolvido em outras iniciativas menores.
A união vem rendendo frutos para além do guia visual. Neste ano, por exemplo, eles realizaram a primeira edição da Noite das Livrarias. De nome autoexplicativo, livrarias operariam com horário estendido e programação noturna, atraindo público e atenção para os espaços.
A iniciativa era, em certa medida, despretensiosa. Os donos de livrarias de rua compartilhariam a programação que pretendiam realizar no Dia do Livro, comemorado em 13 de abril, para que esta fosse incluída em uma plataforma on-line unificada.
O sucesso da iniciativa surpreendeu o grupo: mais de noventa livrarias localizadas em onze das 27 unidades federativas no país cadastraram atividades — e o público acompanhou.
Souto Araujo disse que, na Miúda, ela e a sócia Grimaldi esperavam quinze crianças para o evento que tinham organizado, um quórum razoável para algo voltado para crianças em uma noite de semana. Depararam-se com oitenta.
Formando leitores
Ao longo da conversa, os livreiros defenderam os seus estabelecimentos como um lugar incomparável para a formação de vínculos comunitários. Uma missão que, segundo Ribeiro, da Livraria Simples, ganha uma importância ainda maior em um país como o nosso. “No Brasil, a livraria não é só um lugar de venda de livros. Ela precisa formar leitores.”
Ribeiro afirmou que um de seus objetivos como livreiro é realizar eventos que vão além das paredes da Simples. Um exemplo é a Feira do Livro da Rocha, que este ano chegou à sua segunda edição. Mas há outros.
O livreiro contou uma anedota que ilustra bem esse desejo. Recentemente, disse, uma editora pediu para realizar o lançamento de uma obra do historiador Luiz Antonio Simas na livraria. Ribeiro sugeriu, em vez disso, que o evento fosse uma aula ao ar livre, em frente a um bar localizado na mesma rua da livraria.
“Embora ambos sejam lugares de troca, o bar proporciona encontros mais diversos do que a livraria. Porque estamos em um país desigual, que segrega, uma parcela grande da população não entende que a livraria é um lugar para eles. A experiência de ter feito esse lançamento lá nos fez perceber que muita gente que assistiu à aula e depois comprou o livro não vai a eventos dentro da livraria”, relatou.
Quando a mesa ia sendo concluída, alguém na plateia perguntou se, afinal, valia a pena ser dono de livraria no Brasil hoje. Carvalho, da Livraria da Tarde, reforçou que, em muitos sentidos, trata-se de um negócio como outro qualquer.
Mas, prosseguiu, o ofício tem suas recompensas. “Abrimos livrarias para ter mais leitores. Acho que, se todos nós aqui temos algo em comum, é que queremos viver num país de pessoas leitoras.”
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21hA Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.
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