Literatura japonesa,
O fim da juventude
Autora de Peitos e ovos narra, com crueza e vitalidade, a memória de uma geração marcada por ausência, pobreza e falta de perspectivas
31ago2026Hana sabe pouco sobre a mãe, a não ser que é uma mulher de riso fácil, trabalha como hostess num snack bar, dorme até o meio-dia e chora sempre que bebe, reclamando da própria mãe, já falecida. A comunicação entre as duas é mínima e se dá principalmente através do dinheiro que a mãe deixa numa lata para Hana comprar comida e pagar as contas da casa.
Quem conhece o primeiro romance de Mieko Kawakami publicado no Brasil, Peitos e ovos (trad. Eunice Suenaga, Intrínseca, 2023), sabe que começa com a teoria de Natsuko — irmã mais nova de outra hostess — de que a pobreza de alguém pode ser medida pela quantidade de janelas de sua casa na infância. É fácil reconhecer no recém-publicado As irmãs de amarelo temas caros à autora. Temos aqui o assombro da pobreza, a maternidade precoce e sem recursos, a insegurança na qual vivem as trabalhadoras noturnas, a presença nociva ou a ausência de figuras masculinas na vida delas, o desamparo de filhas que se tornam mães.
Mas, se em Peitos e ovos há uma forte imposição do corpo, em As irmãs de amarelo é a necessidade de ganhar dinheiro que se impõe. Kawakami aborda, com crueza e vitalidade, os submundos de Tóquio, especialmente a vida noturna. A história presente se passa em maio de 2020, no início da pandemia de Covid-19, mas em poucas páginas as memórias da narradora Hana levam ao meio da década de 1990, quando ela, então com quinze anos, vive num cortiço com a mãe, Ai, em uma casa cuja única janela dá para uma parede de concreto. Na escola, os colegas fazem chacota da adolescente, do lugar onde mora e da sua pele, com muita melanina, que escurece fácil com o sol.

Kawakami trabalhou como hostess na juventude para ajudar a família. Em entrevistas, a escritora costuma brincar dizendo que se formou na “universidade das hostesses”, pois atribui ao trabalho sua habilidade para ler pessoas e ouvir desabafos, o que melhorou sua compreensão das disparidades de gênero e de classe na sociedade japonesa.
A vida de Hana ganha outros contornos quando surge Kimiko, misteriosamente dormindo no lugar da sua mãe. Ai desaparece de casa por um tempo e sua colega no trabalho passa a ocupar seu lugar. Diferente de Ai, mais desligada, Kimiko tem uma presença significativa. Uma mulher alta, com cabelos compridos e vastos, que “parecia[m] um bicho vivo”. Juntas, ela e Hana cozinham, fazem longas caminhadas e dão risada. Em uma rápida interação com Kimiko, os colegas de Hana começam a respeitá-la. Ela passa a se ver de outro jeito.
Quando Hana está com dezessete anos, elas abrem o próprio snack bar no bairro de Sangenjaya, em Tóquio. Do nome Kimiko, composto pelo ideograma “Ki”, de “amarelo”, surge o fascínio da narradora com a cor, que ela associa a sorte, luz e fortuna. Daí vem o nome do bar, escolhido com orgulho: Lemon. Lá Hana conhece outras duas adolescentes: Lan e Momoko. Em comum, elas têm o sentimento de inadequação, que culmina com o abandono da escola e a falta de comunicação com a família. Não demora para as duas se juntarem a Hana como funcionárias do Lemon e configurarem uma espécie de família.
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Além da cumplicidade, Hana se percebe habilidosa com dinheiro — guarda com regularidade e adquire a casa onde as quatro passam a morar. Estimulada pelo feng shui, lá ela implementa o “canto amarelo”, com objetos da cor da sorte garimpados em lojas de quinquilharias. Na dinâmica entre as quatro, Hana se torna uma espécie de gerente, organizando contas e pagando as três, inclusive Kimiko, a única maior de idade. Com isso, passa a se sentir responsável e fica obcecada por manter o arranjo vivo.
Como no romance anterior, há a presença nociva ou a ausência de figuras masculinas
O fato de a narrativa começar em 2020 — quando Hana, vivendo sozinha e trabalhando numa rotisseria, encontra por acaso a notícia de que Kimiko foi presa, acusada de sequestro — faz a narrativa dos anos anteriores se banhar em uma atmosfera de crime iminente. A apreensão em torno de quando e em quais circunstâncias a parceria entre elas vai terminar acompanha boa parte da leitura.
Kawakami é habilidosa em descrever ambientes e personagens e transmitir o espírito da última década antes de a internet tomar conta de nossa vida. A roupa de alguns jovens remete às subculturas de Tóquio que fizeram as próprias interpretações das estéticas grunge e punk, traduzindo um Japão cosmopolita. Para quem consumia as fotografias de Shoichi Aoki, responsáveis por popularizar os habitantes do bairro Shibuya, a menção às “meias grossas e cheias de dobras que vão até pouco abaixo do joelho” funcionará como uma madeleine.
A vida das adolescentes acontece no entorno das estações de metrô, em tardes no McDonald’s comendo tranqueiras e compartilhando histórias de vida. Acompanhamos a comunicação por bipe, a emoção de Hana com seu primeiro celular e a compra de um discman para ouvir X-Japan, banda por trás do hit “Kurenai”, que Momoko havia cantado no karaokê na noite em que ficaram amigas. Elas falam da previsão de Nostradamus sobre o fim do mundo, jogam Sega Saturn e veem Titanic no cinema.
Transportar
Originalmente escrito como um folhetim, há no romance capítulos que se arrastam. Porém, talvez seja esse convívio repetitivo e fartamente descrito ao longo de quase quinhentas páginas o responsável por transportar o leitor com tanta força para o cotidiano das personagens. Um ritmo que por vezes lembra o dos mangás.
Kawakami declarou que As irmãs de amarelo é a sua versão de As irmãs Makioka (Estação Liberdade, 2024), de Jun’ichiro Tanizaki. A comparação faz sentido se pensamos que, nos dois romances, a sensação de perda atravessa a vida de quatro mulheres. Mas, enquanto Tanizaki explora a decadência de uma família no processo de modernização do país, Kawakami reflete sobre os efeitos da consagração de um individualismo que atravessa gerações. Ao ambientar a história na Tóquio da virada do milênio, a autora articula dilemas reconhecíveis. Com um final de embrulhar o estômago, o romance oferece um mergulho na dissolução da juventude, no definhamento da alma quando se executa um trabalho unicamente pela subsistência, no vazio que se estabelece quando não é possível planejar além do dia seguinte e na impossibilidade de construir relações sólidas em situação de tamanho esgotamento.
Editoria com apoio Japan House São Paulo
Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

